• Foto de Transerrana RJ
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Dificuldade técnica   Moderado

Horas  8 dias 9 horas 6 minutos

Coordenadas 13330

Uploaded 17 de Agosto de 2015

Recorded Agosto 2015

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-
2.255 m
14 m
0
36
72
143,6 km

Visualizado 1708 vezes, baixado 109 vezes

próximo a Boa Vida, Rio de Janeiro (Brazil)

Introdução

Antes de iniciar o relato, quero deixar bem claro que não abri nenhuma travessia nova. Tudo o que fiz foi interligar trilhas que já existiam antes mesmo dos montanhistas ou das unidades de conservação. São trilhas abertas por locais, caçadores, tropeiros e até mesmo índios ao longo da Serra do Mar fluminense. Os caminhos sempre estiveram lá, mas acredito que ninguém antes tentou uni-los.

A ideia:

A ideia surgiu há um ano, quando li a respeito da inauguração da Caminhos da Serra do Mar, uma trilha de longo percurso implantada pelo ICMBio dentro do Parna Serra dos Órgãos. Sempre senti falta em nosso país de trilhas de longo percurso, como costuma ocorrer em países que têm uma cultura outdoor mais antiga que a nossa. Nesse momento saquei que não é necessário esperar um órgão 'abrir' oficialmente uma trilha. Os caminhos sempre estiveram lá, é só questão de unir os pontos. E claro, pra ser considerado uma travessia, deve ser executado totalmente pelos próprios meios e da forma mais independente possível. Em outras palavras, 100% na canela.

A Transerrana RJ une 10 travessias na Serra do Mar fluminense, cruzando cristas de montanha, vales e trilhas dentro da Mata Atlântica. 5 dessas travessias ocorrem dentro do Parque Estadual dos 3 Picos, e as outra 5 dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. O título Transerrana RJ é tão bom quanto qualquer outro. Poderia ser chamada de 'travessia 10 em 1' ou 'travessia sobe - desce - sobe - sobe um pouco mais - desce tudo de novo'. Transerrana RJ me pareceu melhor. Também não queria criar confusão com a 'Caminhos da Serra do Mar'. Alguns trechos são em comum, outros não.



A logística:

A organização pra uma pernada desse tamanho é quase tão interessante quanto sua execução. O mais difícil é deixar a mochila leve. Optei por escolher dois pontos de pernoite (Pousada da Íris em Guapiaçu e Alojamento Vila Açu em Bonfim - Petrópolis), dessa forma não precisaria levar barraca e saco de dormir. O fato de morar em Teresópolis é uma vantagem, por isso defini o meio da travessia na minha casa. Então dividi o trecho em 4 dias: os dois primeiros compreenderiam as 5 travessias dentro do PETP e os dois últimos as 5 travessias dentro do PARNASO. A Adriana me levaria no início (Bonsucesso - Teresópolis) e me buscaria no final (Vila Inhomirim - Magé). A travessia seria integralmente a pé.

A execução:

A Transerrana RJ foi executada em dois finais de semana. Nos dias 8 e 9 de agosto foi o trecho que cruza o PETP, saindo de Bonsucesso e chegando em casa depois de 88 km e 18 horas de caminhada. Nos dias 15 e 16 de agosto foi o trecho que cruza o Parnaso, saindo de casa e chegando à Vila Inhomirim (também conhecida como Raiz da Serra) depois de 75 km e 22 horas de caminhada.

Para o primeiro trecho consegui manter a mochila com 3,5 kg (incluindo comida e água). Para o segundo o peso foi pra 4,5 kg, tudo incluso.

Resumidamente, segue o que foi feito em cada dia:

Dia 1 - A Adriana me leva até Bonsucesso, na fazenda onde se inicia a subida para as Torres de Bonsucesso. inicio a caminhada às 6:40.
3 horas depois chego na estrada do Vale dos Frades e sigo em direção à Fazenda Itatyba, onde inicio a travessia para Salinas.
2 horas depois estou saindo pela porteira do lado dos 3 picos, e desço correndo os 6 km até Salinas. De lá sigo até a Fazenda Campestre, até a borda da Serra onde inicia a travessia para Santo Amaro. Nesse ponto me perdi um pouco, há muitos caminhos e não havia tracklog disponível. 20 minutos depois encontrei o caminho certo e iniciei a descida da serra. Mais duas horas de descida chegava à saída da trilha em Santo Amaro, e então foi seguir mais 7 km em estrada de terra até Guapiaçu, onde pernoitei. Nesse dia foram percorridos 48 km em 10 horas de caminhada.

Dia 2 - Saio de Guapiaçu às 07:30 e sigo pela estrada de terra até Areal, o tempo todo margeando a base da serra com um visual incrível. Umas 3 horas depois chego no início da trilha que sobe para Canoas, onde chego 1h 30min depois. Novamente no alto da serra em Canoas sigo por 12 km por estradas de terra e asfalto até Prata dos Aredes e inicio a trilha até o núcleo Jacarandá do PETP. Na portaria faço meu registro (de saída), converso um pouco com os guarda parques e desço sentido ao centro de Teresópolis, chegando em casa antes das 16:00. Nesse dia forma percorridos 40 km em 8 horas de caminhada.

Dia 3 - Esse é o dia mais visual da travessia, assim como o de maior desnível altimétrico. Saio de casa às 5:00, ainda escuro, e sigo caminhando em direção à portaria do Parnaso em Teresópolis. Como havia comprado o ingresso antecipadamente, entro às 6:15 e sigo em direção à barragem Beija Flor, iniciando a subida pro Sino. Meia hora depois entro na discreta bifucação que dá início à travessia da Neblina e sigo por aquele visual alucinante que só conhece quem já passou por lá. Antes das 10:00 estou novamente na trilha do sino, e sigo para seu cume, o ponto mais alto da travessia, onde chego às 10:30. Sigo então para a travessia até Petrópolis, mas como ainda estava cedo decido descer até os Portais de Hércules, ainda inédito pra mim, e fico embasbacado com o visual. Saio de lá 13:30, retomo a travessia e às 14:30 estou no cume do Açu. Desço bem devagar pra ir relaxando as pernas, e saio do parque às 16:30. Às 17:00 chego no alojamento onde passo a noite. Nesse dia foram percorridos 39 km em 12 horas de caminhada.

Dia 4 - Inicio a caminhada às 6:15, sem café da manhã. Sigo em direção à travessia Uricanal, que também é o início da trilha para o Alcobaça, e antes das 9:00 chego ao Caxambu. Tomo o café da manhã em uma padaria e sigo para o início da trilha para o Alto do Ventania, onde chego por volta das 10:00. De lá sigo pela travessia passando pelos cumes da Pedra do Inferno, Morro dos Vândalos e finalmente o Cobiçado. Estava bem cansado neste ponto, a travessia Ventania - Cobiçado segue por uma crista exposta ao sol em sua maior parte, mas sabia que dali pra frente seria só descida, mais precisamente 1700 metros de descida até Raiz da Serra. Liguei pra Adriana pra avisando estava tudo bem e iniciei a descida. 1 hora depois passava pela rua Teresa e segui em direção ao caminho do ouro, o último trecho da Transerrana RJ, um caminho histórico que faz parte do caminho novo da Estrada Real. Descida tranquila, já havia combinado com a Adriana o horário do resgate, chego à estação Vila Inhomirim antes das 16:00, tomo uma água de côco enquanto aguardo a Adriana me buscar e dou por finalizada a travessia. Nesse dia foram percorridos 36 km em menos de 10 horas de caminhada.

No total, a Transerrana RJ uniu 10 travessias: Vale dos Lúcios x Vale dos Frades, Vales dos Frades x Salinas, Campestre x Santo Amaro, Guapiaçu x Canoas, Prata dos Aredes x Jacarandá, Travessia da Neblina, Teresópolis x Petrópolis, Travessia Uricanal, Ventania x Cobiçado e trilha do Ouro. Passou pelos municípios de Nova Friburgo, Cachoeiras do Macacu, Teresópolis, Petrópolis e Magé. Dois dias atravessando o PETP e dois dias o Parnaso. Na verdade, os últimos dois dias foram a Caminhos da Serra do Mar invertida, adicionando a travessia da Neblina e os Portais de Hércules. Os números registrados em um GPS barométrico foram 163 km de caminhada com um desnível positivo de 7294 metros e um desnível negativo de 8448 metros (15742 metros acumulados), realizados em 40 horas (uma média de 10h/dia).

Recomendações:

A Transerrana RJ não é uma trilha marcada ou sinalizada. Embora os trechos comuns ao Caminhos da Serra do Mar sejam verdadeiras avenidas, a sinalização foi feita pensando em um único sentido, e a Transerrana RJ vai ao contrário. Nos trechos do PETP não há sinalização e, em muitos momentos, é necessário ter algum faro pra encontrar a trilha. Em outras palavras, não é uma trilha para turistas. Mesmo assim, acredito que qualquer um seja capaz de realizá-la dentro do seu próprio ritmo, e tendo a noção que mesmo com o tracklog é indispensável ter boa orientação na mata.

Embora eu tenha feito em 4 dias, pra quem vem de fora eu recomendaria pelo menos duas semanas pra concluir toda a travessia, e dessa forma aproveitar os diversos cumes e cachoeiras que existem ao longo do caminho.

Seja educado com os moradores locais, olhe nos olhos, cumprimente, sorria. Coisas que não são comuns em uma metrópole. Peça permissão de passagem, mesmo que o mapa mostre que é uma área de uma unidade de conservação. Deixe as cercas e porteiras no estado que as encontrou (abertas ou fechadas).

E o mais importante: divirta-se.

Conclusão

Trilhas de longa duração são mais um desafio psicológico que físico. Embora eu tenha feito a travessia integralmente em solitário, não teria conseguido sem a ajuda da minha parceira, amiga e esposa Adriana. Além de me levar ao início da travessia em me resgatar ao final, ela era a única que sabia exatamente onde eu estava (eu ligava ao chegar nos checkpoints combinados - pelo menos quando havia sinal).

Talvez esta seja a maior travessia da Serra do Mar Fluminense até o momento, mas isso realmente não importa. O importante é que, da mesma forma que um lego, é possível juntar as peças e formar algo maior. Esta versão da Transerrana terminou na Raiz da Serra, mas de lá é possível tomar o trem até o Rio e iniciar a Transcarioca. E por que parar por aí? Ao final dela é possível seguir até Mangaratiba, tomar a barca, chegar na Ilha Grande e fazer sua volta completa. E quem sabe de lá seguir até Paraty e fazer a volta do Mamanguá. Não existe caminho definido, o caminho é feito ao se caminhar.

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14 comentários

  • Foto de leochicaybam

    leochicaybam 18/Ago/2015

    Parabéns Marcelo!!!!! Irado o caminho que vc montou, sempre tive essa vontade tb. Como vc falou, tem várias alternativas possíveis de junções, basta ter disposição. Grande Abraço!

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 18/Ago/2015

    Valeu Leo!!! A Serra do Mar é fantástica, isso foi só uma pequena parte dela. Abraço!

  • Foto de BRTrekker

    BRTrekker 30/Set/2015

    Fala Marcelo... Sensacional esse roteiro hein???
    Já fiz quase todas essas travessias, mas sempre separadamente...
    Me tira uma dúvida, a primeira parte desse seu tracklog é a travessia Vale dos Lúcios até o Vale dos Frades?? Estava muito fechada??
    Abraços.

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 30/Set/2015

    Fala BrTrekker, é isso mesmo, a travessia inicia nas Torres de Bonsucesso, a partir do Vale dos Lúcios. Não estava fechada, mas em alguns trechos é bom ter leitura de trilha pois não é tão evidente. Ao final dela eu segui pelo pasto para não sair em uma das fazendas, que seria a continuidade da trilha, pois ouvi que no passado já houveram desafetos com os proprietários.
    Qualquer dúvida, fique a vontade em perguntar.
    Grande abraço.

  • Foto de antonio varella

    antonio varella 7/Mar/2016

    Que bacana, parabéns pela iniciativa.Já levantei a possibilidade de ligar o Caledônia aos Três Picos e vc é uma pessoa para acrescentar.

  • Ernesto Castro 13/Mai/2016

    Olá Marcelo Vieira,
    Pesquisando para o projeto Caminho da Mata Atlântica, encontrei essa tua rota Transserrana RJ.

    Te convido para conhecer um pouco do projeto em https://www.facebook.com/caminhodamataatlantica/ e contribuir na discussão do melhor traçado, junto com os gestores dos Parques da região.

    Se tiver interesse faça contato.

    Abraço

  • Foto de antonio varella

    antonio varella 13/Mai/2016

    Eu não conheço essa travessia do Vale dos Lucios. Esse tracklog serve para essa Travessia ?

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 13/Mai/2016

    Ernesto, será uma honra poder ajudar, mas estou ciente (e creio que você também) que esta é uma iniciativa dos montanhistas com os gestores dos parques, infelizmente o meio ambiente nunca foi preocupação dos nossos governantes. Estou à disposição no que puder ajudar.

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 13/Mai/2016

    Antônio, a travessia Lúcios x Frades começa no caminho das Torres de Bonsucesso e termina em frente à face norte do morro dos Cabritos, mas não passa pelos cumes das Torres. Os primeiros 10km do tracklog acima é essa travessia, e ao longo dela é possível acessar alguns cumes pouco conhecidos que fazem parte do chamado complexo das Fonsecas, como o Duas Serpentes, Quarteto e Mirante dos Frades.

  • Foto de Joe le Broussard

    Joe le Broussard 20/Jul/2016

    Primeiramente, parabéns ao Marcelo por completar e divulgar essa surpreendente travessia, é de tirar o chapéu. Vou deixar aqui uma atualização importante sobre o primeiro trecho entre Bonsucesso e o Vale dos Frades, que foi o que me interessou, pois sempre imaginei que seria uma travessia possível. Estive lá recentemente e a trilha foi bem até chegar numa grande toca de caçadores, no fundo do vale atrás das Torres. Aparentemente a frequência ali é mantida por eles. Lamentável esse crime bem no meio do Parque Estadual dos 3 Picos. Nesse primeiro trecho, da virada antes do Ferro de Passar até a toca, a mata é muito linda, aberta, mas com várias picadas de caçadores, giraus, etc.. Existem fitas brancas marcando o caminho principal, mas mesmo assim é fácil se desorientar. Bom, depois da toca ainda existe um caminho até uma grande clareira que eles abriram no meio da mata, sabe-se lá porque. Outro crime em andamento... Dali adiante a coisa fica bem feia, a mata bonita dá uma lugar a uma macega sinistra, com muitos bambuzais caídos. Um verdadeiro inferno. Não sei como passaram ali antes. De tempos em tempos, aparecem as fitas, mas elas não ajudam muito, pois o caminho está sempre bloqueado por vegetação. Depois de caminhar um trecho dentro de um rio seco, retornei, pois percebi que naquele ritmo só chegaria no dia seguinte no Vale dos Frades. Pelo tracklog passei até da bifurcação para o Duas Serpentes, mas nem sinal de qualquer picada naquela direção. Quem for lá encarar é bom ir bem preparado, e colocar um muito tempo de sobra. E não esqueçam de denunciar também a presença dos caçadores ou qualquer outra destruição por lá. Vai que alguma autoridade resolve tomar alguma providência...

  • Foto de Ditho Espinelo

    Ditho Espinelo 11/Fev/2017

    Parabéns Marcelo. Como você bem disse, trilhas longas no Brasil são difíceis, principalmente no RJ. Fiquei contente ao encontrar esta. Foi uma iniciativa e tanto. Logo estarei preparando uma logística pra fazê-la. Mais uma vez, parabéns.

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 12/Fev/2017

    Obrigado Ditho! É possível atravessá-la de várias formas, em trechos isolados ou em um único push de vários dias. No ano passado, visitei o trecho inicial (vale dos Lúcios x Frades) e confirmei que o bambu cresceu no meio da trilha, como foi verificado pelo Joe, tornando difícil uma passagem que era bem aberta. Pode ser que já esteja aberta novamente, mas é bom ir preparado. Grande abraço!

  • Foto de antonio varella

    antonio varella 14/Fev/2017

    Você , meu amigo Marcelo, realizou um feito para o montanhismo fluminense.

  • Foto de Marcelo Vieira

    Marcelo Vieira 14/Fev/2017

    Que nada, Antonio. Espero que esse ano possamos fazer juntos algo parecido.

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