Tempo em movimento  4 horas 8 minutos

Horas  4 horas 54 minutos

Coordenadas 2572

Uploaded 21 de Maio de 2019

Recorded Abril 2019

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7,3
14,59 km

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próximo a Vila do Bispo, Faro (Portugal)

Comecei a crónica da 1ª etapa desta "peregrinação" dizendo que os nossos passos nos levariam até ao Promontorium Sacrum de Estrabão. Partimos agora para a derradeira etapa que nos levará a esse nosso destino.
Saímos de Vila do Bispo. Chamar-se-ia Aldeia de Santa Maria do Cabo ainda no século XVI, antes de El-Rei D. Manuel I a ter doado ao bispo de Silves, D. Manuel Coutinho. Ora então, por ser posse de um bispo, passa o povo a designá-la por "Aldeia do Bispo". Seria só mais de 20 anos após a Restauração que passaria a Vila por exigência de D. Afonso VI quando a atribuiu a Afonso Martim de Melo, em desfavor de Lagos que detinha a sua jurisdição.
Passamos pela Igreja de Nossa Senhora Conceição que terá sido de Santa Maria do Cabo mas, partindo do princípio que são uma e a mesma pessoa, não se zangará a primeira por a segunda lhe ter furtado o domínio. Fechada ainda, que os Santos precisam de descansar tal como os mortais, porque, passando já das oito da manhã, não se vê vivalma por estas ruas. Limitamos-nos a apreciar a frontaria e a torre sineira que apresentam arquitetura típica setecentista ainda que a igreja date de muito antes.
Não havendo qualquer café aberto na Praça da república, seguimos pela rua 1º de Maio abaixo, passamos a Rua Santa Maria do Cabo e só aqui, na Rua Ribeira do Poço, encontramos uma pastelaria aberta, O Cantinho dos Amigos. Simpático o nome e muito bom o café, as torradas e os bolos que nos serviram de pequeno almoço.
Saímos e, logo ali, quase em frente, uma cena interessante: à porta de casa, pendurados numa corda, secam alguns peixes abertos quais bacalhaus. Mas não são bacalhaus, são moreias, que as gentes daqui apreciam mais que o "fiel amigo".
Passamos um pequeno jardim onde o Homem do Mar, obra de Carlos Bajouca, atira longe a chumbada, anzol e engodo naquela esperança que transforma o pescador em eterno sonhador, embalado pelo murmúrio do mar e o canto das sereias, que só eles estão capacitados de ouvir porque sossegados por horas e horas olhando um pontinho absorto na ponta da cana.
Já caminhamos fora da povoação e começa mesmo aqui o jardim florido. Ophrys apifera e serapias lingua aparecem à beira da estrada e estendem-se campo adentro. São imensas as flores por estes campos onde abundam as orquídeas selvagens.
Cortamos caminho, atalhando por um carreirinho vermelho no meio de um imenso mar verde, evitando um pouco de asfalto. A gândara, de uma beleza ondulada, estende-se à nossa frente com uma paleta de cores impressionistas que só o "Perfeito Pintor" poderia ter criado. Hoje caminhamos mesmo num jardim!... Acima é um bosque encantado que perde quase todo o encanto por ser de eucaliptos. Mas estes são retorcidos e aparentam tanto mistério que parecem saídos de um livro de Tolkien.
E começa o grande planalto da Torre d'Aspa. As pastagens alongam-se e ao longe vê-se uma grande manada. O sr. José passa por nós de gabão alentejano, vara na mão e dois pastores alemães. Vão tratar da manada. havíamo-lo encontrado de bicicleta dirigindo-se para a Vila. Depois encontrou-nos ele já de saco na mão com os víveres que havia ido comprar. Agora voltamos a encontrar-nos, ele a caminho da faina diária, nós a caminho do destino que as estas terras nos trouxe.
Já se vê a grande e geométrica estação meteorológica, de olhos no céu, sentindo as brisas, adivinha o futuro. Ao longe vêem-se alguns megalitos, em tempos remotos ali colocados, não servem para adivinhar mas para pedir ou agradecer, quais âncoras votivas aos deuses da fertilidade de terras e mares. Este planalto sente-se pleno de misticismo. O Cabo Sagrado não dista muito. Por aqui passaram nómadas e outros que se sedentarizaram. Como outrora, pasta agora o gado guardado por cães mansos e corpulentos.
Aproximamo-nos do mar e uma cortina de alba névoa tolhe-nos a vista do azul. Sobe do oceano cheia de mistério. Será hoje que D. Sebastião retornará a estas terras por onde terá andado preparando aventuras e sonhando quimeras?... seguimos, sonhando arribas recortadas em belos meandros e paisagens de cambiantes de azul, que o murmúrio das ondas nos faz adivinhar, e vamos aproximando-nos do Sagrado Cabo onde um dia aportou a barca com os restos mortais de S. Vicente. Martirizado e morto em Valência no ano de 304, foi o santo atirado ao mar com mó ao pescoço. Mas o milagre aconteceu e o corpo flutuou para terra. Os corvos, desde aí associados à iconografia de S. Vicente, guardaram o santo corpo não deixando que fosse devorado por abures e outros necrófagos. Quiseram os cristão guardar o corpo e sepultá-lo dignamente numa igreja de Valência mas, aquando da invasão islâmica da Península Ibérica e sendo decretada a transformação das igrejas em mesquitas, recearam alguns monges cristãos visigodos perder e ver profanadas as relíquias do santo, que já era venerado em toda a Europa cristã e, por isso, embarcaram o corpo (faço aqui um parêntesis para dizer que, a partir deste ponto, são várias as versões da lenda. Duas delas dizem respeito ao mesmo sítio: o Cabo Sagrado em Portugal. Entre ambas escolho a que, sendo mesmo assim uma lenda, me parece mais verosímil) dizia, embarcaram o corpo num navio para se dirigirem às Astúrias, ainda livres de muçulmanos. Ao passar junto de Cabo Sagrado (ou de Sagres) os ventos contrários levaram a que o barco fundeasse ali. No dia seguinte, com maré cheia, levantava ferro mas logo foi avistado um navio pirata dos muitos que enxameavam aquela costa. Os monges foram aconselhados a ficar em terra com o corpo do santo enquanto os marinheiros se punham em fuga, prometendo voltar logo que lhes fosse permitido. Esperaram os monges em vão acabando por construir uma igreja condigna para tão amada relíquia. Diz-se que deram à igreja o nome de S. Vicente do Corvo. Já no século XII, seriam os moçárabes os detentores e defensores do túmulo de São Vicente. A fúria dos almôadas ou almorávidas contra Ibn Qasi estender-se-ia também aos cristãos que viviam naquelas terras, matando e aprisonando. Diz-se que se calaram os cristãos guardaram segredo da "riqueza" que a igreja tinha.
Soube D. Afonso Henriques que S. Vicente jazia na zona de Sagres mas não onde em concreto. No entanto prometeu recuperar os seus restos mortais caso fosse bem sucedida a conquista de Lisboa. Promessa de Rei é para cumprir e, em 1173, foi uma embarcação costa abaixo levando um velho moçárabe que dizia saber o exato sítio onde se encontrava o Santo sepultado. Diz a lenda que o moçárabe morreu no caminho deixando apenas a indicação imprecisa do local fúnebre. Não desiste D. Afonso Henriques e chegado ao Cabo Sagrado procura a sepultura. Novo milagre faz com que encontre o que procura por: um bando de corvos sobrevoar uma pequena igreja. Nela é achado o corpo sepultado do Santo. Trazem-no para o barco e fazem-se ao mar que, geralmente encrespado naquela costa, apresentava então uma inusitada calmaria e um vento favorável soprava as velas. Dois dos corvos da igreja haveriam de acompanhar o barco até Lisboa. Era 1173.
Inda hoje o barco e os corvos, um à proa e outro à popa, constituem o selo e brasão da cidade e S. Vicente inda é o Padroeiro da Capital, mesmo que se pense que Santo António o destronou.
Bem, dissipa-se agora o nevoeiro e estamos muito perto do Promontorium Sacrum. Ainda bem que concluí a narrativa e posso apreciar a monumentalidade deste cabo que Estrabão nunca viu mas escreveu o que olhos alheios viram. Já vos digo. Deixem-me agora admirar estas pedras batidas por mar e ventos, beijadas por brisas e névoas, bordejadas por gaivotas e pescadores. Que maravilha!... Contemplo as rochas e vejo sonhos; sonhos de outrora de que para lá do imenso mar outros mundos existiriam; sonhos de ver "O Desejado" aparecer no meio do nevoeiro que, quase dissipado, deixa ver o caminho de luz mar adentro; sonhos de ousadia que o Infante, incutindo em seus homens, os levou às aventuras impossíveis; sonhos de poesia que até o excelso poeta cantou

«Tornado o Rei sublime, finalmente,
Do divino Juízo castigado,
Despois que em Santarém soberbamente,
Em vão, dos Sarracenos foi cercado,
E despois que do mártire Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro Promontório conhecido
À cidade Ulisseia foi trazido;» (Lusíadas Canto III vers 74)

sonhos de tudo e imensamente!

E eis que chegados somos a este Sagrado lugar, hoje guardado por gaivotas que os corvos rumaram a Lisboa. Tantos de fora turistando por aqui andam que até difícil se torna passar ao extremo ponto deste cabo, que na antiguidade se acreditava que da terra seria o fim e por isso ali se evocaram deuses.

Concluo com um pouco do Livro III da Geografia, do geógrafo de Amásia, que assim começa a descrever a Península Ibérica:
«...passemos a descrever cada território, começando a partir do Promontório Sagrado. Este é o ponto mais ocidental não apenas da Europa, como também de toda a terra habitada. Na verdade, a terra habitada é delimitada a ocidente por dois continentes, ora pelos confins da Europa, ora pelas primeiras terras da Líbia, aqueles, ocupados pelos Iberos, estas, pelos Maurúsios; os cabos ibéricos avançam uns mil e quinhentos estádios para lá do mencionado Promontório (à terra contígua a este, designam-na inclusivamente em língua latina como ‘Cuneus’, querendo com isso assinalar o formato de uma cunha). Este Cabo, que se precipita para o mar, Artemidoro, que esteve no lugar, como afirma, compara-o a um navio; três ilhéus favorecem a figura, um com a posição de esporão e os outros dois, com ancoradouros à medida, a de laterais de proa. Todavia, nesse local, não está à vista um templo nem um altar de Héracles - nisso, Éforo enganou-se, nem de qualquer outro dos deuses, mas antes pedras colocadas em grupos
de três ou quatro por toda a parte, que são rodadas pelos que chegam, segundo um costume antigo, e repostas depois de se terem realizado libações.»
Haja deuses!...

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