Tempo em movimento  5 horas 7 minutos

Horas  6 horas 35 minutos

Coordenadas 3606

Uploaded 16 de Maio de 2019

Recorded Abril 2019

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210 m
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22,08 km

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próximo a Carrapateira, Faro (Portugal)

O dia acordou risonho como quem bem dormiu e melhor sonhou. Nós, tal qual assim, vamos saindo da casa que nos abrigou. Descemos a escadinha da escola para a aldeia e, logo ali, este belo "Monumento ao Fado", que encontrado em qualquer típico bairro lisboeta não traria questão, aqui interpela-me forte a curiosidade. Na App própria do telemóvel, busco o monumento e a razão de ser para ali ter sido colocado. Nada!... Não conhecendo qualquer relação Carrapateira-Fado questiono um suposto filho da terra, que deixou de ser suposto quando afirmado ter sido ali nato e criado. «ah, o monumento?... sim é obra do Carlos Bajouca, deu-a prá'i ao João qu'era presidente da junta. Ache qu'a tinha prometido. Nã sei... olhe foi inaugurada no vrão passado e mailas luzes da capela.» - Bem haja amigo. Até pr'á próxima.
Aldeia surpreendente. Plantada aqui, à beirinha do oceano, com duas praias belíssimas, a da Bordeira e a do Amado, e um Pontal que dizem (hei de um dia comprovar) ser de uma beleza ímpar; com um Museu do Mar e da Terra, onde uma coleção de acervo museológico, essencialmente conseguida graças à generosidade da população, representa a quotidiana vivência das gentes da terra e do mar da Carrapateira; com serras de uma beleza selvagem; com arribas que enchem o olhar de ondas e espuma e o coração de ânsias de liberdade e, ainda, com gentes humildes e generosas onde não parece ter chegado a corrupção do tempo com pressa, foi assim que senti Carrapateira. Assim, e também senti que por ali existe muito orgulho no que têm e no que a história à sua terra deve.
Diz a lenda da transladação do S. Vicente, que aqui aportou D. Afonso Henriques e daqui saiu numa nau com as relíquias do Santo. Acompanharam-no até Lisboa dois corvos, um à popa outro à proa. Esse será, desde então, o brasão da capital de que S. Vicente ainda é padroeiro. Corvos da Carrapateira imortalizados nos selos da capital. Digam lá se esta pequena aldeia não é grande?...
Enquanto atravesso a aldeia, subindo, penso no topónimo. Em terras tão influenciadas pelo Islão, aparece Carrapateira que, na minha ideia, nada tem de árabe. Pensei que pudesse ter algo a ver com carrapatos, que é o nome dado em muitas regiões às malfadadas carraças, tão conhecidas dos "bagabundos". Não havendo quem me elucide recorro ao motor de busca na internet. Espanto!... o topónimo parece não ter nada a ver com os insaciáveis e vampirescos insetos. A sua origem perder-se-á no tempo em que fenícios e cartagineses por aqui pastorearam. Diz-se então que Carrapateira deverá ter a mesma origem que carrapiteiro, nome por que conheço, desde sempre, o pilriteiro, e ao facto de os animais serem guardados em cercos feitos com os ramos espinhosos de tais arbustos, impedindo-os de saírem e de nele entrarem lobos, raposas e outros predadores. Um pouco mais para meditar e aprofundar...
Ficou já tudo isto para trás e, do cimo do cerro, bem lá no cocuruto onde há um geodésico, olho para o oceano e, no meu intímo, surge um "adeus e até já". O ondulado dos montes, a vegetação que os cobre e este odor inebriante levam-me a outras "ondas". O caminho desce agora, ensombreado por alguns pinheiros e medronheiros altos.
Chegados ao vale, é um carreiro de pé posto, de vegetação luxuriante, que nos leva embalados pelo chilrear dos pássaros. Falo em chilrear de pássaros e o canto de um rouxinol, bem perto, começa a ouvir-se. «Parece que nos acompanha», diz alguém do grupo. De facto este rouxinol tomou o caminho e acompanhou-nos durante o tempo em que a linha ripícola da ribeira da Carrapateira nos fez companhia, se não foi o mesmo outro que tenha sido andou no mesmo conservatório e tem timbre igual. A este foram juntando-se outras canoras e o coro era já de rouxinois, tintelhões e verdelhões. Lindo!... o grupo segue em silêncio embalado por belas melodias. A ribeira vai seca, corrijo: está parada pela secura com pequenos pontos onde a água empoçou e ainda não se infiltrou no leito.
Na sombra de um grande sobreiro, junto a um pinhal alinhadinho, pousámos a trouxa e petiscámos da variada ração de fruta e bolos comprados no minimercado da Irene. Junto a nós um "carreirinho" de lagartinhas peludas e listadas, todas seguidinhas e agarradinhas, numa muito organizada procissão, seguem uma rota e um objetivo bem determinado. São as Processionárias. É uma das espécies mais destrutivas de pinhais. Uma praga decerto acabadinha de sair de um ninho de seda que as protegeu durante o inverno, de barriguinha cheia das agulhas mais tenrinhas dos pinheiros. Vão à procura de um abrigo debaixo de terra, onde se transformam em crisálidas para, no verão, eclodirem, na forma de borboleta (traça) que terá uma vida média de um dia. O suficiente para acasalar e por os ovos. Que acham que lhes devemos fazer?...
Continuamos pela várzea além pensando naqueles bichinhos. O canto dos pássaros vai-nos animando a caminhada.
Chegamos a Pedralva. Aldeia airosa, bonita e fresca mas... já não mora ali o Ti João que cedo se levantava para regar os batatais nem aparece o moleiro que tocava o burro carregado de farinha que, transformado em pão amassado pelas mãos hábeis de Tia Jacinta e da Tia Francisca, haveria de cozer no forno comunitário. Também se não ouve o chiar das rodas dos carros de bois nem os chocalhos dos rebanhos. acabou-se o crepitar das lareiras e o cheiro do fumo do sobro a arder no inverno. Também os rapazolas não dizem mais piropos às rapariguinhas solteiras. Não se ouvem "bons dias" nem "haja a Deus". Dir-se-á agora que é uma aldeia de casas bonitas mas a vida e história passaram à história, se não ao mais provável e eterno esquecimento. Diz-se disto que é uma Aldeia Turística. Gabam-se os promotores de ter recuperado algo que estava em ruínas e lhe deram nova vida. Colaborou a autarquia instalando os cabos eléctricos subterrâneos, a água canalizada e o sistema de esgotos. Porque o não fizeram quando nela havia vida de verdade?...
Bem, Joaquim, não se pode tudo querer. O Turismo também tem preço.
Sigamos!... à nossa frente aparece agora uma pequena lagoa e o início de uma subida. Pela imagem de satélite que temos no GPS aparece um caminho alternativo que nos conduzirá ao mesmo ponto com distância mais curta e maior densidade de vegetação. Além disso parece que passa ao lado da Lagoa do Jardim, o que suscita alguma curiosidade. Por isso ou pelo desejo de aventura, decidimos seguir este trilho. De facto é mais curto e é agradável. Ficamos sem saber como será o outro. Mas é assim a vida, opção tomada alternativa ignorada.
A Lagoa do Jardim ou não existe ou está seca há muito, porque nem vestígios.
Estamos já num belo planalto com partes cultivadas e outras em pousio ou baldio. Os geradores eólicos sopram um som em surdina, ritmado ao compasso do aproximar e afastar das pás. Os pássaros ficaram lá muito atrás.
Descemos por um carreiro pleno de vegetação de ambos os lados para um vale. Seja pela agradabilidade da sombra dos medronheiros ou pelo adiantado da hora, apetece-nos fazer uma pausa para almoçar. Passam por nós vários caminheiros - hi!... enjoy the way - (começa a soar como o "bom camino" de Santiago). Lembramo-nos que muitos caminheiros já encontrámos mas nenhum português ainda.
Agora estamos neste imenso e belíssimo planalto de Vila do Bispo e lá havemos de chegar não tarda. acompanha-nos a charneca plena de cor e luz. O dia está bonito.
Já se vê o velho depósito da água. Estará semi inclinado ou é ilusão óptica?... Perto jazem dois moinhos que "recuperados" (???) encontraram nova vida. Ai a nossa cultura que nem à história vai passar porque não tardará que ninguém saiba que naquelas casinhas redondinhas se moeu cereal aproveitando a energia do vento e recorrendo a tecnologia totalmente impoluente.
E. por hoje, já disse mais do que devia. Até amanhã, bem hajas Senhor!
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Fado

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Pequeno jardim

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Museu da Terra e do Mar e vista da Praia da Bordeira

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Panorâmica dos montes sobranceiros à Carrapateira

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No cimo da serra

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O carreiro verde

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A beleza ripícula

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Ladeando a várzea

canaviais ao longo da ribeira rouxinol canta
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A herdade do Beiçudo

Salgueiros pássaros rãs cuco ao longe
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Ervilhacas e Congossas

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Enorme zambujo

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O galo reclama a liderança da capoeira

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Caminho empoçado ao lado da ribeira seca

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O velho sobreiro, testemunha de muitas lavras

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Rosas sempervirens, por aqui também as há?

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Avaliando quem passa

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O ribeiro empoçou aqui de resto vai seco

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As processionárias

Pinhal sombrarento, cantar das perdizes e a passagem das processionárias
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Tremoceiro Azul (lupinus angustifolius)

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Casinha no campo

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Entrando em Pedralva

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O forno comunitário e as portas coloridas

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A biblioteca

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Paisagem rural

Interseção

Na lagoa alterámos o rumo

Aqui optámos por seguir um trilho não sinalizado por nos parecer que tinha mais interesse e era menos acidentado. Resultou.
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No planalto das eólicas

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Passando por um pequeno charco

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Mais um belo caminho

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De regresso ao planalto

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Tremoço Bravo

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Planalto florido

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Cistus no planalto

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Beleza a perder de vista

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Um rebanho

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Tojo Gatunho também na charneca

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À porta de Vila do Bispo

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Chegando a Vila do Bispo

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Pelas ruas da Vila

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