Tempo em movimento  6 horas 12 minutos

Horas  8 horas 58 minutos

Coordenadas 4425

Uploaded 10 de Maio de 2019

Recorded Abril 2019

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155 m
-4 m
0
6,3
13
25,04 km

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próximo a Praia da Arrifana, Faro (Portugal)

Hoje abalo um pouco taciturno. Digo-o para que o mesmo não aconteça a quem, eventualmente, leia o que escrevo e pense fazer este trajeto. Ontem à noite não nos precavemos com água e alimentos para o dia de hoje. Ficámos em alojamento local sem pequeno almoço incluído. Não há na zona super ou minimercados que não implique um acrescento de 4 Kms à caminhada. Os restaurantes não abrem cedo. Por isso, só na Bordeira (+ou- 18Kms) é que podemos adquirir e comer alguma coisa. Bem, pelo menos temos as garrafas cheias de água da torneira.
É pois, com esta preocupação que começamos a caminhada de hoje. Ainda não andámos 500m quando, à porta de um outro local de alojamento, um "blackboard", bem português, anuncia "Breakfast 4€ - Coffee + orange juice + mixed toast". Dentro falam-se todas as línguas à exceção de uma - o português. Sem conseguir disfarçar a contrariedade de, na minha terra, ter que me exprimir em inglês para adquirir o que quer que seja, peço o pequeno almoço para 4. O café é servido quase de imediato e com sabor bem português. O sumo de laranja veio um de 10 em 10 minutos mas era muito bom, talvez porque feito com laranjas do Algarve. Estivemos mais de 1/2 hora à espera das tostas, no entanto eram feitas com grandes fatias daquele pão que tem o sabor a centeio do Alentejo. Partimos as tostas ao meio, embrulhámos metade em guardanapos e comemos a outra metade.
E cá vamos... menos apreensivos e já com aquela vontade característica de pensar na terra que deixamos para trás enquanto não aparecem motivos de interesse que se sobreponham. Tenham lá paciência, mas este piso de asfalto por onde subimos convidam-me a deixar fluir o pensamento...
Al Rihanna (a murta). O topónimo terá possivelmente algo a ver com a vegetação da zona. Não me recordo de ter visto ou sentido o característico odor da murta no caminho. Dizem que por aqui se dá. Distraído talvez viesse, não sei. O licor que faço dos murtinhos veio-me ao desejo mas estou longe, paciência. Com ou sem nome de murta esta é uma das mais bonitas praias desta costa. A baía, protegida de ventos pelas altas arribas xistosas, estende o seu dourado areal por mais de meio quilómetro. A Pedra da Agulha, fronteira ao promontório, qual gigante que defende a costa contra Neptuno e Boreas, tornou-se icónico no sudoeste. As ondas cadenciadas fazem que aqui arribem centenas de surfistas de todo o mundo. Olho para trás e aprecio o perfilado da povoação e fixo-me na ponta mais a ocidente: a fortaleza. Ali está o que resta. Memória de tempos que que já pouco na memória nos dói. O tempo leva memórias e dores como vai levando tudo aquilo que as pode enchamear. Construída no reinado do último Filipe, sob mandato de um governador do Reino do Algarve, para defesa da costa ocidental mas sobretudo desta baía, cujas gentes viviam de pesca e da almadrava que, ao largo, terá por aqui existido.
O cheiro característico da xara, que é tão nossa, despertou-me e dou conta que seguimos por um caminho entre vegetação rasteira numa charneca marítima onde predominam os cistus. Uma ou outra mancha de tojo (e por aqui é sempre o mesmo: o gatunho), as aroeiras e as camarinheiras dão à paisagem uma variação de cores e tons que paleta alguma conseguiria reproduzir. A cor do mundo no azul do mar e do céu que lhe toca enfeitiça-nos o olhar.
O caminho agora desce, e nós com ele, para a Praia do Canal. Olho à minha frente e tenho a sensação que o caminho entra mar adentro. Aqui onde vou é avermelhado, lá longe, talvez lavado pelo mar, torna-se branco e segue as falésias até ao infinito. Serpenteando descemos até ao ribeiro. atravessamos numa tentativa de equilíbrio sobre as 2 ou 3 pedras balançantes que, como não têm mais que fazer, vão tentando fazer-nos ir com as botas à água. Entramos de novo no caminho para subir a encosta oposta à que acabámos de descer (outra coisa não seria de esperar).
Seguimos num caminho largo, reto e longo à sombra dos eucaliptos. Destes últimos nem digo nada porque tanto se tem dito e tão pouco se tem feito para o controlo do seu cultivo. Fica-nos o seu odor que é tão agradável. Sigamos...
O caminho é agora de asfalto e sem sombra de árvores. O sol começa a aquecer. Um eucalipto grande à beira da estrada, defronte a abastada vivenda, tem um balancé à antiga dependurado num dos seus fortes ramos. Irresistível. Dois minutos de meninice e... «vamos lá que há caminho pr'àndar!», invejosos!...
Um pouco à frente encontramos, a jeito de pequeno aldeamento no meio da charneca, o Barranco da Fonte. Entramos na esperança que se arranjem umas cervejinhas para estes sedentos caminheiros. Tinha-se acabado o stock. Que pena. Ficámos por uma garrafa de água. Nada mau... a não ser o preço.
Antes de chegar a Monte Novo cortamos à esquerda e, logo abaixo, na Malhada da Serra, um quadro negro informa, em inglês, claro, que ali se pode beber "Coffee, Cold Drinks, Beer, Water and Wine" tudo "with the ocean view". A vontade de uma "beer" é de tal modo que deixamos preconceitos e lá vamos. Atendem-nos duas simpáticas polacas que falam inglês e, naturalmente, polaco mas "we love Portugal" dizem. Bebemos as cervejinhas bem frescas e a um preço razoavelmente português, Acompanhámos com a metade da tosta da manhã. Foi o nosso almoço.
Vamos descendo por esta charneca de matos rasteiros e encontrando esqueletos carcomidos daquilo que foram outrora habitações. Não ficamos indiferentes a estas ruínas e meditamos no que nos diriam se falassem. Aqui se sonharam vidas e embalaram carinhos. Logo a seguir aparecem as ruínas do que foi um formo, quiçá comunitário. Cozeu pão; cozeu suor; cozeu lágrimas; cozeu amor; cozeu esperança. Hoje, cozinhado pelo tempo, jaz em cinzas.
O tempo se encarregará de apagar tudo mesmo para lá dos sonhos.
Atravessamos a N-268 e, num monte próximo, muito arranjadinho, vê-se aquilo que foi um moinho de vento, agora transformado em habitação de férias. Quem dirá um dia que ali existiram duas mós que, rodando à vontade do vento e do moleiro, produziram farinha para fazer pão, pão que se comia só depois de uma prece de agradecimento a Deus. Pão suado que todos sabiam quanto custara.
Vamos continuando chaneca fora por caminhos de grande beleza. Descemos até à Ribeira da Bordeira que alimenta um brejo húmido. Atravessamos a ribeira e, no caminho encontramos um jovem casal estrangeiro com três crianças pequenas passeando pela natureza. Vão ensinando vida e descobrindo prazeres que se hão-de converter em gratas recordações.
Caminhamos encostados à galeria ripícola da ribeira. A Tamargueira apresenta-se no auge da floração, asteada de um rosa emaranhado. Alterna com freixos e salgueiros na proteção àquele fiozinho de água. Ouve-se o chilrear de um ou outro pássaro que não identificamos.
À frente, nos matos entre sobreiros velhos, qual sorriso da natureza, Vestidas de um luminoso rosa distribuído em contínuo gradiente da base para a orla da corola. Lindas, as Rosas Albardeiras (paeonia broteri). Com mais um sorriso na alma, continuamos rumo à Bordeira que já se avista daqui. A velha escola, plantada fora da povoação atrás de duas nespereira, com pequenos canteiros à entrada e uma longa vista para a várzea nas traseiras. Aqui só se pode ensinar natureza porque é natureza que aqui se respira. Não há fumos nem ruídos. Há cantares de pássaros pela manhã e cheiros de pasto e sementeiras.
Saímos da Rua da Escola e, mesmo ali à nossa frente, a esplanada do Café Novo Canto convida-nos a parar. Ohamos a carta dos petiscos e ficamos com imensas dúvidas mas uma certeza: parámos no sítio certo. A dúvida está apenas no que havemos de pedir. Bem, foram fatias de queijo fresco entremeadas com tomate e temperadas com azeite e orégãos; foi mexilhão com ovos mexidos; foram lombinhos de cavala grelhados regados com molho verde e limão; foram azeitonas verdes britadas temperadas com tomilho, alho e azeite; foi muita cerveja fresquinha e... mais não digo.
Esqueci completamente de ilustrar tudo isto e é bem compreensível o motivo.
Já vamos subindo à saída da Bordeira e eu vou recordando que esta é uma freguesia antiquíssima, datando do século XV a sua fundação por ordem do bispo de Silves. Já pertenceu aos municípios de Vila do Bispo, de Lagos e de Aljezur ao sabor das redefinições territoriais. Hoje parece que se está a esvair e não tarde estará moribunda e à mercê de estranjeiros curandeiros. O futuro o dirá.
Seguimos a subir para o Cerro da Cunca e já à vista da imensa praia da Bordeira, que curiosamente fica na Carrapateira, paramos olhando o mar, a praia, as arribas que a delimitam e estes maravilhosos montes que percorremos. Descemos por um caminho de arenito vermelho até ao Monte da Cunca. Transformado em AL de aspeto típico, apresenta paredes de xisto em algumas partes da parte habitacional e um telheiro confusamente aproveitado. Entramos no asfalto da N-268 e só paramos na ponte sobre a Ribeira da Carrapateira que, um pouco ali em baixo, se junta à Ribeira da Bordeira para entrarem juntinhas no oceano. Viémos diretos ao alojamento reservado. Tomámos o sacrossanto duche e fomos às compras ao Minimercado da Irene onde tudo é fresco, bom e nada caro. Graças a Deus.
Equacionámos ir jantar ao Sítio do Rio (dizem que é excelente) mas o lanche da Bordeira e os 1400m que tínhamos que andar para cada lado foram razão para desistirmos. Fica prá próxima, prometo!
Salgueiros e tamargueiras à beira do ribeiro

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