Tempo em movimento  6 horas 13 minutos

Horas  8 horas 56 minutos

Coordenadas 4074

Uploaded 7 de Maio de 2019

Recorded Abril 2019

-
-
182 m
56 m
0
5,8
12
23,01 km

Visualizado 14 vezes, baixado 0 vezes

próximo a Aljezur, Faro (Portugal)

Não sei se foi do sono tranquilo na casinha do Parque da Herdade do Serrão ou da quietude deste local, o certo é que começo o caminho hoje com uma paz de espírito inusual para o início de uma caminhada. Ligo o GPS à saída, tiro uma foto à velha nora do poço que enfeita a entrada do parque Serrão e... pronto, lá vêm as estórias... A Nora engatilhou-me o pensamento. Engenhoso engenho que é, aproveitámo-lo nós da arte de irrigação dos mouros que nos precederam nestas terras e a quem, nós delicadamente, claro, pedimos que saíssem porque o lugar deles era em terras magrebinas. Por não aceitarem a nossa delicada sugestão tiveram que ser convencidos à força e à forca. É a história dos povos desde que povos são. Mas como funcionava a nora?...Um burro begueiro, preso ao varal, dava voltas sem fim para que a corrente fosse enchendo os alcatruzes (al+kados = o jarro) no poço e esvaziando-os na bacia onde se iniciava o
caneiro de rega. Quando petiz perguntava-me: porque raio tem o alcatruz um buraco no fundo?... se vem a perder água desde lá de baixo como chega cheio cá a cima?...porque é que o burro não fica tonto com tantas voltas?... Perguntas que hoje nenhuma criança colocará por certo. Os alcatruzes desaparecem e noras a funcionar só por milagre. Memórias que o tempo vai comendo deixando apenas restos.
Sem dar por isso estamos já muito perto de Aljezur. Tentamos registar a beleza do vale junto à confluência da Ribeira do Areeiro com a Ribeira de Aljezur. Antes do grande terramoto não passaríamos por aqui a não ser de barco. Aljezur seria então o mais importante porto marítimo abaixo de Milfontes. Aqui aportariam barcos de considerável calado. Hoje a ribeira bucólica transporta um fiozinho de água, pelo vale, até à Praia da Amoreira, onde desagua.
Seguimos em direção à antiga "al-Jazirah" ("a ilha" ou "a península" quererá dizer).
No cimo do cerro o castelo, conquistado seria D. Afonso III rei de Portugal não havia muito mais que ano e meio, lembra agora história e lendas. Pobre Mari'Aires, sem saber que o amor tem tantas mentiras quanto elogios, sem conta se dar deu aquilo que buscando andavam os cavaleiros de Santiago. Ingenuamente combina encontro numa certa fonte com seu amado para a manhã de 24 de junho, que então não haveria homens no castelo por terem tradição tão antiga, que nas fraldas do tempo se perderia, de ir tomar banho purificador ao oceano ali tão perto. Faltou o in-namorado ao encontro, passou a fonte a chamar-se "das Mentiras", outras terão havido por ali porque seria "da Mentira" se esta não tivesse tido outras que a imitassem. Faltou o moço ao encontro, dizíamos, porque, enquanto Mari'Aires esperava, de moitas disfarçado aproximava-se ele do castelo com seu capitão, Paio Peres Correia, para o tomar sem que houvesse resistência, por aí só restarem velhos e crianças. Purificaram-se os moiros no mar para irem ao encontro das sete virgens que o criador, de certo, atribuiu a cada um por valorosa morte quando ao castelo foram chegados.
Passamos a praça do Pelourinho que o não tem. Encontramos uma padaria logo ali. Abastecemo-nos de bolos secos e água para o caminho. Várias são as placas indicativas da direção a tomar para ver os padrões de amarração do Porto da Ribeira. Não descemos, noutra altura o faremos.
Subimos à Praça 5 de Outubro. O edifício do Museu Municipal, ainda encerrado, tem a data de 1883 no coroamento da frontaria. Sabemos que lá dentro exposto está, entre outras valoradas peças, o espólio da Cultura Mirense datado de 8 a 5 milénios A.C. e o "Legado Andalusino" que dá a conhecer a cultura islâmica que estas terras cultivou durante mais de quatro séculos. Pena estar fechado e nós, andarilhos, não termos tempo para apreciar aquilo que o tempo nos legou.
Subimos a Rua São João de Deus. À nossa frente a singela Igreja da Misericórdia. No humilde portal renascentista lê-se 1577. Muito se terá passado desde então que lhe terá modificado a feição. Contornamos a igreja e descemos em direção à várzea.
Pouco andámos e ali, à nossa esquerda, a Fonte das Mentiras. Mística!... ocorre-nos que, por errante, ainda por ali ande o espírito da bela moira aguardando seu amado.
Ladeando a ribeira vamos apreciando a várzea. Começamos a subir por uma aldeia que rejuvenesce para servir nómadas modernos. Imaginamos as gentes que por ali viveram, amando, cuidando e tirando o sustento das terras férteis do vale e a novas gentes, efemeramente deslumbradas, que ali hão de repousar, sorver a beleza e sair bêbadas da quietude e pureza deste lugar.
Subimos um pouco mais e a paisagem deslumbra-nos. A várzea acompanha a ribeira até à praia; os montes envolvem-nos com os seus odores; as flores do mato e as pedras feridas que ladeiam o caminho desenham sonhos de cor... temos que parar. A bucha do meio da manhã é o pretexto. Comemos o que levamos nas mochilas e sorvemos o que a natureza nos oferece de tão belo. Pronto, não se pode ficar porque ainda muito há para andar.
Cá em cima tornou-se o caminho menos interessante. Seguimos um pouco pela M1003-1 para descer a seguir para outro vale. Limitada a paisagem, apenas a esteva vai alegrando o caminho. Nova subida. A monotonia da paisagem torna esta mais dura que as anteriores. Chegamos finalmente ao entroncamento do Caminho Histórico com o Circuito da Ponta da Atalaia (Trilho dos Pescadores). Tomamos a direção deste último. Vamos seguindo um caminho em terra batida ladeado de flores.
ATENÇÂO! Aqui aparece uma ambiguidade: há duas direções marcadas. Consultamos o trilho gravado no GPS e decidimos seguir a direção do Vale da Telha por causa da Lagoa. Não sei como seria o caminho opcional mas a lagoa, com promessa de uma fauna diversificada, desiludiu e mais desiludiu o caminho através da imensa urbanização, sem sequer encontrar um pequeno bar que fosse para matar saudade da cervejinha portuguesa.
Depois de um longo caminho pelo asfalto, heis-nos chegados à Praia de Monte Clérigo. A boa oferta de restaurantes permitiu-nos escolher aquele que mais nos agradou pela ementa e disposição da esplanada. Ainda que demasiado caro, bebemos e comemos razoavelmente e estamos de novo a caminho subindo para a falésia. De quando em vez desviamo-nos um pouco da rota sinalizada para seguir trilhos que nos levam a apreciar os requebros da costa e o belo efeito das lânguidas e altaneiras falésias. Continuamos a encher a alma de mar e beleza. Passamos a Praia da Fateixa. Lá em baixo a sensualidade doirada da areia contrasta com a negrura das resistentes rochas que suportam o mar e combatem as ondas e com a alvura da espuma que o oceano, enfurecido, cospe para a praia. As dunas são o tapete para os nossos pés e toda a beleza circundante o esteio para o nosso espírito. O mar está crispado mas nós sentimos paz interior. Que bálsamo é tudo isto!...
Chegamos agora ao início da Praia do Medo da Fonte Santa. Não tenhamos medo porque o "medo" aqui lê-se "médo" e é sinónimo de médão e camarção. São dunas consolidadas de arenitos eólicos plenas de vida. Passamos sobre o Medo da Fonte Santa. A praia fica lá em baixo e é linda. Notam-se trilhos de intrépida gente que, sem medo ter, se aventura a descer estas falésias que medo metem. Peçamos à "fonte" que santa seja o suficiente para que nada aconteça a quem por ali desce por medo não ter.
Atrai-nos já o olhar um promontório a sul que se alonga mar adentro. É a Ponta da Atalaia. vencemos uma linha d'água atravessando uma prática ponte de madeira. Apreciamos a resistente vegetação que nestes medos existe. Pena não ser setembro que camarinhas haveríamos de colher.
Chegamos à Ponta da Atalaia. À nossa frente as ruínas do grande Ribat estendem-se ocupando esta finisterra de selvagem beleza, propícia ao misticismo religioso e à dura e exigente formação militar. Fundado pelo mestre sufi Ibn Qasi, foi este convento-fortaleza escola da elite dos combatentes islâmicos. Notam-se as marcas da prospeção arqueológica. Procuramos cuidadosamente nada adulterar nem danificar. Não nos demoramos porque ainda não garantimos estadia na Arrifana. Sugiro a quem vem que se documente e permaneça por aqui algum tempo. As marcas que o tempo deixou o tempo levará. Aproveitemos o saber enquanto podemos testemunhar com os sentidos.
Seguimos ainda um pouco pela falésia e entramos então num luxuriante carreiro que, entre a vegetação abundante destas dunas, contorna a ameaçadora urbanização de Vale da Telha. Descemos ao vale, atravessamos a ribeira equilibrando o cansaço sobre as pedras e mais cansados estamos ao vencer a derradeira subida para a Arrifana. Meia dúzia de telefonemas depois e não disfarçada angústia lá arranjámos onde dormir. Onde ficámos, dada a incerteza passada, até nos pareceu bom. Hoje não o diria. Demos uma espreitadela à miríade de surfistas que enxameavam as águas atlânticas e... ala à procura de um bom duche. Até amanhã e durmam bem. Ah, já agora dir-vos-ei que jantámos no Paulo, à beirinha da falésia junto à Fortaleza. Que maravilha!
Post Scriptum / sobre Ribat da Arrifana consultar http://www.terrasdemouros.pt/ta_ribat.html
https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/2072-o-ribat-da-arrifana
Ponto com duas opções, ambas sinalizadas. Qual a melhor?... Não sei. Seguimos pela esquerda.

Comentários

    You can or this trail