Tempo em movimento  5 horas 2 minutos

Horas  7 horas 39 minutos

Coordenadas 3457

Uploaded 22 de Abril de 2019

Recorded Abril 2019

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168 m
56 m
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5,6
11
22,57 km

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próximo a Odeceixe, Faro (Portugal)

Ali, aninhada na encosta da serra, virada para a ribeira, vestida de branco, enfeitada de azul celeste refletido nas casas e azul marinho no olhar, Odeceixe tem a beleza das coisas simples, simples como as gentes que ali nasceram e aprenderam a amar a várzea, a acariciá-la tirando dela o pão; que aprenderam a amar o mar que lhes oferta seus sabores, que vivem aspirando a maresia que sobe pelo Vale e respirando perfumes de mil flores que descem do cabeço.
Odeceixe tem ainda o silêncio e frescura matinais quando entramos no Retiro do Adelino para o café da manhã antes de nos fazermos ao caminho. Descemos a Rua Nova para encontrar a sinalização na esquina com a Rua do Outão. Subimos até à Igreja de N.ª Sr.ª da Piedade, ainda fechada àquela hora, atalhamos pela Travessa das Camélias e começamos a gastar, muito lestos, o pequeno almoço, subindo as escadas até à Rua 25 de Abril. As casas típicas com "saias" coloridas, em que a cor do céu reflete sonhos de mar, espreguiçam-se à nossa frente refletindo a luz da manhã.
Cá em cima, o moinho. Preservado, testemunhando saberes dos avós, mostra nus os seus "braços", sonhando brisas de mar e sopros da serra que as suas brancas velas hão de colher quando o velho moleiro desenrolar o "bolacho". Tem ali, também plantado, um miradouro, atapetado de madeira, de onde se aprecia os meandros do Seixe espreguiçando-se até à foz, como quem saboreia os primeiros minutos de uma manhã de primavera. Wadi Seixo - Rio de Pequenas Pedras - assim nasceu Odeceixe com lendas de mouras encantadas e santos de pau que renascem da cabeça de outros santos; com estórias de moleiros e pescadores, com sabores de peixe e mariscos; com odores de serra e de mar.
Saímos do moinho rumando ao alto acompanhando as singelas e alegres casinhas da rua 25 de Abril. Decidimos seguir um caminho que já não tem sinalização da Rota Vicentina, por isso confirmo o  GPS e... ó diabo! Os satélites passaram-se ou quê?... Está práqui uma baralhada... bem, a solução técnica impõe-se: desligo a App e volto a ligá-la. Resultou. Temos agora que corrigir a rota. Localizamos o Canal de Rega de Odeceixe do Aproveitamento Hidroagrícola do Mira. Vamos segui-lo até ao Rogil e voltaremos a ele para o acompanhar até ao Barranco de Falcate.
Seguimos por um estreito e agradável carreiro à beirinha do canal. Construído na década de 60 do século passado estende-se por dezenas de Kms e irriga uma área de mais 12.000 ha. Nasce na barragem de Santa Clara atravessa montes e vales e aqui vai ele para nosso deleite.
De um e outro lado vêem-se mais terrenos por cultivar que aqueles que estão "amanhados". Amanham-se agora as pessoas mais com outros frutos que não os que a terra dá. É que para que a terra dê exige esforço, suor, dedicação e amor. E, por vezes, a paga é regateada se não diminuta.
Exceção é um imenso campo de proteas. Quão lindo ficará este campo quando florirem!
O carreiro é apertado, sempre plano e, dos lados, pleno de flores campestres.
Algumas orquídeas selvagens vão fazendo as delícias destes amantes daquilo que melhor a natureza tem.
Olham-se as comportas que controlam o fluxo hídrico. Aprecia-se a técnica de entrega nas bocas de rega. A maquia está de acordo com o caudal disponibilizado. -"Se é precisa pouca água abre-se a palheta de 5. Se é preciso um caudal maior pode abrir-se a palheta de 10 ou a de 20 ou mesmo a de 10 e a de 5" . Explica quem sabe, e pronto. Há alfaias mecânicas a enferrujadar aqui e além, fruto do desinteresse pela terra.
Sem cansaço de pernas mas com o da pena que nos dá ver terra boa e recursos desperdiçados, somos ao Rogil chegados. Passamos o Museu da Batata Doce sem disso fazermos fé. Para trás não apetece voltar. Vingamos o desaire entrando no Pão do Rogil. Então foram empadas de espinafres com alheira, empadas de espargos e espinafres e cerveja. Depois foram os pastéis de nata e alfarroba, os pastéis de nata e batata doce os bolinhos secos de figo e batata doce para o caminho... e mais não digo.
Retomamos o rumo da sinalização para, duzentos metros após, reencontrarmos o nosso já familiar canal. Seguimo-lo até ao Barranco de Falcate.
Feitas as despedidas ao canal que nos acompanhou durante mais de uma dezena de kms, entramos num caminho rural para, um pouco à frente, tomarmos a direcção do circuito da Praia da Amoreira.
Por caminhos ensombreados por pinheiros, de novo somos chegados à costa atlântica, à areia das dunas e ao odor da maresia.
Já em etapas anteriores encontrámos as Armeria Welwitschii mas aqui enfeitam todo o caminho. Aparecem também muitos goiveiros-da=praia com miríades de flores púrpura. A descida para a bela Praia da Amoreira tem as encostas plenas de rasteiras estevas. Soubemos aqui que se trata de uma subespécie autóctone denominada "Esteva-de-Sagres".
Descemos à Amoreira mas o vento fez com que nos abrigássemos para comer o parco farnel empacotado nas mochilas.
Seguindo a sinalização, caminhamos um pouco pelo asfalto, cortamos no primeiro caminho à esquerda que nos leva por vales e montes na direcção de Aljezur.
Não chegamos lá. Encontramos o parque de campismo do Serrão. A promessa de uma "massada de peixe" para o jantar que o simpático e singular António José disse que "era o que se arranjava", a incerteza de alojamento em Aljezur e o belo aspeto das casinhas do parque convenceram-nos a ficar. Não nos arrenderíamos porque tudo é bom neste parque até o preço.
Amanhã há mais.
(Cistus ladanifer sulcatus)

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