Tempo em movimento  6 horas 19 minutos

Horas  7 horas 59 minutos

Coordenadas 4218

Uploaded 13 de Abril de 2019

Recorded Abril 2019

-
-
118 m
-17 m
0
6,1
12
24,41 km

Visualizado 159 vezes, baixado 14 vezes

próximo a Almograve, Beja (Portugal)

Saímos não tão cedo como gostaríamos porque o pequeno almoço incluído no preço da pernoita nos fez aguardar a hora mínima de o poder tomar. Vá lá, vamos de barriguinha consolada. Cinquenta metros andados mercamos o pão que haveria de acompanhar, ao almoço, as pataniscas sobradas do jantar que, de tão boas, não se podiam estragar e levamos também alguma fruta.
Como é meu costume ponho-me a pensar no lugar que vou abandonar. Almograve é um topónimo curioso. Diz-se que é uma variante de almogávar que deriva de "al-mugáwir" e que significa "o que faz incursões". Sei que o corso magrevino, que assolou estas costas depois da reconquista, fez com que aparecesse outro tipo de "piratas": os guerrilheiros, conhecidos por almogávares, que faziam da rapina modo de vida e que, corajosamente, acometiam contra os mouros do Magrebe cujos navios fustigavam os povoados costeiros. Algum se terá por aqui fixado?...
Pouco andámos e meditámos e já estamos frente à Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Um templo singelo como singela é a povoação. Pintado de branco e azul, perto da escola e do que parece ser um mercadinho. À frente há um belo recanto ajardinado com um muro e uns sanitários de curiosa arquitetura de influência árabe que tem um poço recuperado ao lado.
Continuamos pela rua dos Moinhos que nos leva até à entrada da ETAR. Um carreirinho à esquerda tem a sinalética do "Trilho dos Pescadores" e é por aí que seguimos junto a uma ribeira de água lamacenta pela chuva que caiu durante a noite. A ribeira vai desaguar na Foz dos Ouriços e nós aí 'desaguamos' também.
O carreiro que subimos agora é íngreme e leva-nos ao cimo da falésia. Os sargaços de albas flores, os halimium lasianthum cor de sol, o rosmaninho roxo e o tojo gatunho embelezam este belo jardim literalmente à beira mar plantado. Assim a subida nem custa tanto. Marejando o olhar pelo requebro das falésias chegamos à Praia de Nossa Senhora. Na estrada nova, larga e em terra batida, que nos há-de levar até ao pontão da Praia da Barca Grande, há uma pista de manutenção. Claro que a mochila não me permite que faça os exercícios sugeridos e tirá-la a cada estação está fora de causa. Ralado e amuado passo a olhar para o "deserto" que se estende à minha esquerda. São dunas de areia nua, com tons ocre, pontilhada de tufos de teimosa vegetação, tão diferentes da profusão vegetativa que nos tem acompanhado. Chegamos ao pontão que antecede o Porto de Pesca da Lapa da Pombas. O letreiro de informação diz coisas interessantíssimas sobre o modo como os pescadores estão familiarizados com o "caminho das pedras" que os orienta na entrada do porto mas também diz que a presença humana por ali é tão antiga que antecede a própria humanidade. Pois, provavelmente eu é que não sei o que são «povos pré-humanos».
Já caminhamos de novo em carreiro de areia sobre as dunas da falésia. Esta areia é tão vermelha que temos dúvida se não estamos caminhando em Marte, mas os muitos tons de azul do mar à nossa direita e estas rochas de tal beleza, dizem-nos seguramente que temos a sorte de estar no mais belo país do mundo. A geodiversidade que vamos apreciando diz-se que teve origem no Paleozóico, no Mesozóico e no Cenozóico e que estas falésias são da idade em que o mundo se partiu e formou o Atlântico. Imagino os meus dedos polegares apoiados no pão puxando para cada lado uma metade, talvez tenha sido assim. Mastigo devagarinho esta metade com os olhos e encho o espírito de beleza.
ATENÇÃO - A nossa fome da beleza destas falésias levou-nos a desviarmo-nos algumas vezes do caminho assinalado. Nunca o fizemos que não fosse por trilhos existentes e bem definidos; procurámos respeitar ao máximo a natureza e nunca a prejudicar; Calculámos sempre os perigos subjacentes a esta nossa rebeldia e não fomos além do que se pode considerar racional. Decerto que vimos coisas que não teríamos vistos seguindo o caminho marcado. Achamos que valeu a pena. Esta etapa é de uma beleza excecional e nós procurámos usufruir ao máximo. Felizmente o tempo também ajudou.
Postas as considerações, continuemos...
Desviamo-nos agora para o interior seguindo o trilho marcado, que se afasta um pouco da costa, com a desculpa de que poderíamos cansar-nos de estar sempre a olhar para o mar e os precipícios da costa, mas a verdade foi porque a imagem de GPS não nos dava garantia de haver caminho junto à falésia. Em boa hora o fizemos pois entrámos num belo e agradável caminho de pinhal. Caminhamos agora sobre um tapete de caruma. Tornámo-nos mais leves porque os pés já memorizaram o "peso" da areia. Ainda que agradável foi curto o tapete. De novo arrastando areia aproximamo-nos da falésia. Absorvendo a beleza do mar e destes precipícios passamos a praia da Laginha e chegamos à do Cavaleiro. Aqui o caminho deixa descansar as arribas e entra em rota rural até ao Cavaleiro. Paragem obrigatória: o café da Adélia. Bebemos e comemos e voltámos ao caminho meia hora depois. Fazemos um pequeno troço de asfalto para, de seguida, voltar aos carreiros e às falésias a caminho do Cabo Sardão. O topónimo desperta o viciado cogitador que há em mim e venho a recordar que um dia li qualquer coisa sobre um cabo de apelido Sardão que, tendo na guerra ensandecido, passeava à noite sobre estas falésias, cantando para a lua, até que uma noite caiu ao mar. O povo que lhe queria bem, em sua memória, ao promontório deu o nome de Cabo Sardão. Olhando distraído ia, mas rapidamente fui despertado pelo voo da cegonha que perto passou e foi pousar no ninho sobre o espinhaçado rochedo, ali bem à minha frente. Será, cegonha, que é em memória do mal afortunado cabo que aqui fazes o ninho?...
Continuando pelos recortes da costa vamos sonhando, azul embalados hoje pelo murmúrio do mar que vai musicando rochedos para nos encantar. Enquanto o mar musica vão as flores pintando nosso caminho e os arbustos inebriando-nos com seu cheiro. Com tanta beleza assim, decerto estamos no paraíso.
A seguir à praia da Lavagueira os sinais do caminho abrem-nos uma pista reta ladeada de mimosas. Desembocamos na praia do Tonel de areia fina e convidativa lá em baixo. Outras cegonhas, outros ninhos, outros espinhaços, outras falésias, mais azul, mais verde e eis-nos a chegar ao porto da Entrada da Barca. Damos uma voltinha desnecessária por desconhecimento do precipício que tínhamos à nossa frente e acabamos seguindo obedientemente o caminho para descermos por uma escada de madeira que nos leva lá abaixo. Subimos ao Porto das Barcas e já não paramos no Sacas nem no Traquitanas. Que pena!... fica prá próxima. Fazemos a pista ciclável entre mais mimosas (o país está cheio delas) e a seguir à Praia da Bica entramos num passadiço de madeira que nos leva de novo às falésias.
É mais um bocado do azul do Oceano para atestar a alma e entramos na Zambujeira do Mar. Demoramos um pouco no largo da Igreja de Nossa Senhora do Mar e um quilómetro e pouco depois estamos numa casinha para 4 no Camping Villa Park da Zambujeira.
Excecionalmente recebidos e muito agradados com as instalações foi assim que terminou esta jornada.
foto

Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes

foto

Por um belo carreiro ao lado da ribeira

foto

Subida da Foz dos Ouriços para o jardim das falésias

foto

O carreiro de areia à beira da falésia

foto

Miradouro e acesso à Praia do Almograve

foto

Caminhando pelo deserto

foto

A guarda avançada na luta entre terra e mar

foto

A praia da Barca Grande

foto

Sobre o Porto de Pesca da Lapa das Pombas

foto

As duas faces de uma enseada

foto

em trilho marcado sobre areia 'rossa'

foto

O mundo colorido

foto

Rochas estratificadas na diagonal ao longo da costa

foto

De novo atravessando o deserto

foto

Branco, negro, verde e azul

foto

Crosta silicatada e recortada de imensa beleza no cimo da falésia

foto

Rocha sobre areia na falésia

foto

Areia vermelha e doirada escorrendo pela falésia

foto

Passeando pelo pinhal

foto

Sobre a Praia do Cão

foto

Cores quentes sobre a Praia da Laginha

foto

Areia ocre

foto

O Cabo Sardão ao longe

foto

As flores invadiram a campina.

foto

Casas assim só além Tejo

Provisionamento

Aprovisionamento

foto

De volta às falésias

foto

A ponta do Cabo Sardão

foto

O Cabo Sardão e as Cegonhas do mar

foto

Farol do Cabo Sardão

foto

O mar penetrando a terra

foto

Rochas salpicando o mar depois da Praia do Creleizão

foto

Água mole em pedra dura...

foto

O mar para lá do jardim

foto

Abriu-se uma brecha e pintou-se um quadro

foto

a delicada Hyacinthoides Paivae entre chorões

foto

Uma casa numa imensa herdade descultivada

foto

Rochas do oceano e 'fel da terra' (centaurium erythraea)

foto

Arenitos e xistos formam as paredes desta bela enseada

foto

A Praia do Tonel

foto

Outro ninho de cegonha na falésia

foto

Escadaria para o Porto das Barcas

foto

Depois da Pedra da Bica a Praia de Nossa Senhora e quase na Zambujeira

foto

Uma Fonte perto do mar

foto

Mar revolto antes da Zambujeira

foto

Igreja de Nossa Senhora do Mar

foto

Igreja de Nossa Senhora do Mar e praia da Zambujeira do Mar

Comentários

    You can or this trail