Tempo em movimento  4 horas 11 minutos

Horas  5 horas 27 minutos

Coordenadas 2687

Uploaded 17 de Abril de 2019

Recorded Abril 2019

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7,8
15,63 km

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próximo a Vila Nova de Milfontes, Beja (Portugal)

Manhã cedo saímos. Percorremos as ruas que nos separam do assinalado caminho ansiando por encontrar café ou pastelaria aberta para consertar o estômago e prepará-lo para a caminhada do dia. O céu plúmbio ameaça carregar-nos com mais peso que aquele que levamos nas mochilas.
Enquanto meus passos percorrem estas ruas periféricas e descaracterizadas recordo a beleza, história e património que esta Vila, que agora abandonamos, acrescentou ao meu parco conhecimento. Mil não serão ou seriam as fontes, mas água doce nasce por ali em muitas bicas que até o oceano querem adoçar atrevendo-se a brotar da areia da praia, coisa rara num Alentejo seco tanto tempo em cada ano. Nasceu aqui a vila, por ordem de D.João, o segundo que o reino teve, sobranceira ao mar e mirando o rio. Depois de conquistar preciso era povoar. Depois de expulsos não ficaram quedos os magrebinos e corsaram várias vezes estas costas pilhando e destruindo. Construiu-se o forte e evocou-se o santo Clemente, para que, do fundo do mar, ainda com a âncora presa ao pescoço, houvesse de zelar por aqueles que lhe são devotos e incentivá-los a que «se justifiquem mais por obras que por palavras». Recordo agora o "grito" de Aureliano de Aguiar na figura do Arcanjo de ferro reciclado que, virado para o oceano, clama para que se salve este ainda belo planeta. Recordo ainda Brito Pais e Sarmento Beires que, do Campo dos Coitos, saíram num Breguet, batizado de "Pátria", rumo a Macau fazendo a (primeira) travessia aérea para onde as caravelas levaram a nossa gente e língua há tanto tempo que nos vamos esquecendo.
Faço uma pausa nas recordações para, do cima da ponte de um rio que, por nome, me encentiva a fazê-lo, mirar e admirar a beleza desta vila beijada pelo mar. O casario branco... a foz do Mira... as Furnas... os mexilhoeiros ou apanhadores de engodo que lá em baixo labutam esgaravatando negras areias...
Bem, pena nossa, mas não podemos ficar aqui parados. Continuemos que temos muito para andar, andar não, usufruir!... sim que este caminho não é para caminhar mas para usufruir. Vamos deslisando por cada paisagem banhando o olhar, sentindo odores, escutando sons, colorindo a alma e... maldita mochila que carregas os meus pecados e por isso pesas tanto.
A cancela de madeira e arte rural veda-nos a passagem agora, mas um simpático letreiro diz que a abramos, entremos e a voltemos a fechar. Assim se faça. Bonito este carreiro que nos leva charneca adentro. A manada pasta ao longe mas por aqui já hoje andou a avaliar pela bosta fumegante ainda. Caminhemos discretos que o gado é manso. O montado de sobro que atravessamos está atapetado de cistus. Os rasteiros sargaços (cistus salviifolius) e a chagada esteva (cistus ladanifer) dominam. Aqui ou além uns tufos de rosmaninho deliciam-nos com o seu aroma. Zumbem as abelhas, bêbedas de tanto pólen, e embebedamo-nos nós nesta paleta de cores, odores e sons.
Abre-se o carreiro, junto a um prado extenso, e os nossos olhos de espanto: à nossa frente a alegoria da natureza!... no meio do prado, uma parede exibe a arte e a mensagem: Mãe Eva exibe na mão o fruto proíbido e no ventre o fruto do amor. A serpente que a envolve mostra a alegria de quem abriu o mundo ao conhecimento e ao pecado. Do primeiro precisava Eva para saber o que transportava no ventre; do segundo advém todo o mal que levará a humanidade ao auto-extermínio. Dir-me-ão: olha que não!...olha que não!...
O edifício ensombrecido pela arte pictórica merece também a nossa atenção porque é insólito. Art Déco no meio da charneca, onde nada mais existe que não a natureza, onde não há espaço para o glamour, o luxo e a exuberância, onde nos anos trinta do século passado apenas existiriam searas e montados, levam-me a colocar uma infinitude de porquês.
À vista da praia das Furnas barrem-se-me os pensamentos e passo a apreciar a paisagem e a antecipar o que pretendo ver de seguida. Somos quatro, metade segue o caminho sinalizado os outros dois seguem, areia fora, junto às arribas.
ATENÇÃO só alguém muito maluco poderá fazer o que eu e o meu colega fizemos, por isso, se tiver juízo (o que pode não ser provável porque está a ler isto), se tiver juízo, repito, siga o caminho marcado e não imite estes loucos. Primeiro porque é necessário que a maré esteja mesmo em baixa-mar para passar ao longo da base da falésia; segundo porque a subida para recuperar o caminho sinalizado pode ser perigosa se houver humidade nas rochas. E pronto, dado o aviso continuemos para saber porque é cometida semelhante loucura.
Motivam-me as rochas. Difícil de acreditar?... pois é verdade. A formas e ondulado do estratificado, as alternâncias entre negro e branco, os desenhos geométricos, a cambiante de cor, as grutas e mais um sem número de pormenores apaixonam-me e levar-me-iam a permanecer por longo tempo em contemplação não fora o caminho que temos pela frente e porque entretanto começou a chover sem piedade destes amantes da natureza. Chegamos ao final da praia. Há que trepar a arriba. Aquilo que foi fácil em outra ocasião hoje torna-se complicado e perigoso porque a chuva torna a rocha demasiado escorregadia e os ponchos de plásticos complicam mais ainda a tarefa.
Conseguimos e estamos a salvo cá em cima. Encontramo-nos com as nossa companheiras, contamos-lhe as peripécias, escutamos as críticas e continuamos caminho.
Serpenteando pelas arribas no traçado do carreiro marcado, vencendo a areia, lutando contra o vento e a chuva eis-nos caminhando numa paisagem marciana de vermelhos e ocres pintada. Estas dunas que estabilizaram a alturas acima dos 50 metros do mar são de uma beleza indiscritível. O Céu de um cinzento luminoso acha que não fomos bem batizados e continua a verter água sobre estas pobres criaturas.
Agora obliquamos para interior. Um campo atapetado por imensa verdura mostra a terra arenenta nos espaços em que já foi colhida a relva que relvou outros jardins e campos. À nossa direita um imenso muro de mimosas protege-nos do vento. Voltamos às arribas e depois de novo às mimosas. Agora seguimos um apertado carreiro ladeado delas pelos lados e por cima. Ainda que hoje nos pareçam uma bênção estas plantas são uma praga que, se não for controlada, transformará o país num lindo mimosal que é um mimo.
A chuva impediu-nos de ver um sinal no caminho e seguíamos já embalados e enganados quando disso nos apercebemos. Voltamos e, de novo entre mimosas, vamos passando as pontes de madeira que atravessam linhas de água. Afinal o Alentejo não é assim tão árido. Voltamos às arribas e às dunas de areia avermelhada, de multicoloridos chorões das areias, de dourado tojo gatunho, de moitas e camarinheiras, do amarelo vivo do Halimium Lasianthum e mais cores de outras flores e plantas de que conheço a beleza mas não o nome.
A chuva amainou e eis-nos a chegar ao nosso destino: a Pousada de Juventude de Almograve. Pronto, estes jovens com mais de 60 anos cumpriram a segunda jornada. Amém.

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