Tempo em movimento  2 horas 42 minutos

Horas  3 horas 4 minutos

Coordenadas 1988

Uploaded 3 de Dezembro de 2018

Recorded Dezembro 2018

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502 m
313 m
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2,9
5,7
11,42 km

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próximo a Mendiga, Leiria (Portugal)

A Mendiga fascina-me. No meio da Serra, dominando um fértil vale onde coexistiram 3 poldjes, uma serra e um planalto com o seu nome, onde a abastança, a humildade e a simpatia das gentes contrariam o topónimo e, acima de tudo, um conjunto de belas paisagens que emolduram os povoados fazem que este sítio seja singular.
Diz-se que por aqui existiu um punhado de valentes que ajudaram D. Fuas a conquistar Porto de Mós. Se é ou não verdade sabê-lo-ão os historiadores (ou não) mas que são gente valente, lá isso são. A agricultura, a pastorícia e a moagem foram , durante séculos, meios de subsistência das gentes rijas, curtidas por geadas e chuvas invernais e pela secura estival que formataram as rochas e as gentes.
A N362 que atravessa a povoação levou-me ao Largo da Fonte. Um edifício transparente parece barrar-me a passagem. Estaciono perto e aqui mesmo inicio a caminhada. O vítreo edifício é um banco o que, numa povoação serrana, indícia a abastança das gentes. O largo estreito e curto é lugar de um cruzeiro que data do ano de 1890 e que ali não nasceu. Veio do adro da antiga igreja seiscentista desaparecida nos anos setenta do século passado e cujos painéis de azulejo, criados pela Real Fábrica do Juncal, foram confiados à guarda do Museu do Seminário Diocesano de Leiria. A Fonte foi inaugurada em 1954 para abastecer o povo de água potável quando a água canalizada levada às habitações ainda era um sonho proibido para a maior parte do país. Foi o regedor, Manuel Baptista Amado de sua graça, que sonhou e fez construir um sistema para captação e filtragem das águas pluviais e as canalizou para as fontes públicas.
Saio da Praceta da Fonte e dirijo-me aos Telhados de Água que agora estão englobados num parque lúdico-pedagógico que, em memória do engenhoso regedor, lhe foi dado o nome de "Parque Manuel Baptista Amado".
Cheguei. Os Telhados de Água ou Barragem da Mendiga, como também é conhecido este sistema, assenta num lapiás inclinado e limpo onde a água da chuva escorre para um coletor. É então filtrada num sistema de cascalho e areia antes de entrar na cisterna de abastecimento. A água dos beirais há muito que, na Mendiga, era canalizada para as cisterna particulares. Este é um sistema público um pouco mais sofisticado.
Deixo a Barragem e sigo para sul. Caminho por um estradão de terra batida quando reparo num pequeno trilho de pastoreio que segue por baldio, direto a um roboredo. Não hesito e sigo por ele além. Muito me agradam estes carreirinhos. Primeiro, é um olival, onde é notável a luta entre o homem e a pedra. Depois, muros e carvalhos musgados e um velho e humedecido morouço, que já esqueceu a idade, repousam num silêncio de quando em quando cortado pelo piar de um melro ou de um charéu. Encontro-me com um novo estradão e continuo para sul acompanhando o sopé da Serra.
Novo carreiro e nova tentação. Agora é à esquerda e sobe um pouquinho. As cabras que deixaram as caganitas no carreiro há muito que aqui não passam. Umas arranhadelas do tojo não me fazem desistir. Gosto disto.
Já subo a serra. Um carreteiro é agora o meu caminho. Quantos carros de bois ou carroças de burros aqui passaram transportando mato para a corte do gado ou pedra para a construção das casas?...
Chego ao cimo e mudo de sentido. Vou para norte pelo extremo ocidental do planalto da Mendiga. Os lapiás confundem-se com a serra e a serra com os lapiás, ainda que esta seja mãe daqueles. Neste caminhar vou encontrando uns marcos que a natureza esculpiu na horizontal e a "mão" do homem ou o braço da máquina decidiram colocar na vertical. Seja como for são belas esculturas que se encontram no mais correcto e belo museu.
Uns passitos mais e encontro-me com as ruínas do que, decerto, foi uma comunidade de moleiros. Duas casas construídas com pedra sêca e outros tantos moribundos moinhos. Mais pedaços da nossa cultura que em pedaços se esvaiem. Procuro as cisternas, as eiras e a corte do burro. Todo este "equipamento" fazia parte da arte da moagem. Encontro-os.
Desço um pouco, atravessando o mato rasteiro, para visitar um outro moinho. Este, pela idade ou por outra razão que desconheço, ainda tem capelo, tem mastro e, como tem porta, pode ter ainda sarilho, frechal, cabrestante, eixo, carreto, entrosa, andadeira, canoura, poiso e todas as outras partes e alfaias que dentro devem estar. Mas já não tem varas nem vergas nem cabrestos nem búzios nem velame... Como gostaria eu de ouvir o cantar do vento nas velas e a música dos búzios e o ranger do mastro e o som grave e raspado das mós e a dança com passada da canoura...
Deixemo-nos de sonhos e contiuemos Serra além.
Tempo não tive para me libertar da recordação do moinho e já estou perto do Forno. Não, não serve para cozer pão ou broa. Aliás, nem sei se terá servido para mais que acoitar um ou outro pastor encontrado na serra em dia de chuva. Trata-se de uma depressão na rocha que não parece obra da natureza, embora as silvas lhe dêem agora um ar mais natural. Já lhe ouvi chamar gruta mas gruta não me parece que seja. Deixo o caso para quem mais do que eu saiba do assunto.
Uns metritos mais e outra depressão existe. Esta sim, é uma lapa. Entro e admiro a natureza. Já outras vezes o fizera mas é como se fosse a primeira.
Olho pró relógio... Bolas! Lá se foi a hora de almoço. Apresso-me serra abaixo. Não paro mas vou apreciando a paisagem que o vale é as serras em frente me oferecem.
Reentro numa Mendiga diferente. A máquina do tempo fez com que recuasse 100 anos. Vejo as casas de pedra seca de lareiras onde o crepitar do fogo aquece os exíguos compartimentos. Os anciãos com netos nos joelhos vão aquecendo mãos e corações. Não chove mas se assim fosse a água correria pelas caleiras até às cisternas depois de musicar nas telhas de canudo de barro cozido em fornos artesanais.
O edifício do banco roubou-me o sonho. Antes isso que o dinheiro.
Pronto, acabou-se por hoje.

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