Tempo em movimento  3 horas 54 minutos

Horas  4 horas 12 minutos

Coordenadas 2791

Uploaded 18 de Outubro de 2019

Recorded Julho 2019

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próximo a Abiul, Leiria (Portugal)

Iniciamos aqui, junto à Praça de Toiros de Abiúl. Entre as que atualmente existem esta é sem dúvida a mais antiga. Por quotização do povo aficionado foi construída em 1850 neste local onde um antigo e frondoso carvalho existia. Deixou-se o carvalho no mesmo local para aumentar a sombra das bancadas. Usufruiram os aficionados da sombra de tão generosa árvore que ali permaneceu por bons e longos anos. Um ou outro terá levado com uma bolota na tola, mas que é isso ao lado de uma bandarilha espetada no lombo?...Terá sido a praça remodelada já em meados do século XX e não sei se a dita árvore por ali ainda estaria. Vinham os toiros para Abiul em manada, comandados por campinos nos meio das chocas e passavam defronte à minha casa. Era eu catraio de sete ou oito anos e lembro-me de me esconder em cima das árvores com o coração acelerado pelo medo mas entusiasmado com o espetáculo. Depois passaram a ser transportados em camiões e eu esqueci. Fui apenas a uma tourada e não gostei do que vi. Reservo a minha opinião sobre esta manifestação enraizada na cultura do povo desde tempos remotos.
Descemos a rua da Praça de Toiros e chegamos agora à Fonte da Vila. Requalificada recentemente, de cara lavada, a fonte e o espaço envolvente está tudo muito agradável e airoso. Uma imagem de Santo António em painel de azulejo abençoa quem bebe e os versos em quadro acrílico, por baixo, tentam dessedentar o espírito. Passamos já em frente ao coreto e à Casa da Música. Aqui sim, matar-se-á a sede de cultura. Os cenários de festa medieval, acontecida ou para acontecer, acompanham-nos Rua Direita abaixo. Parecem-me sempre deslocados estes adereços e não me atraem estas pseudo recriações de um tempo passado, de onde apenas se lembram fantasias que de histórico pouco terão. Haverá quem goste. Respeito.
Uma preciosidade arquitetónica aparece agora à nossa frente: o Arco Manuelino. É o que resta do Palácio de André de Sousa Coutinho e que, posteriormente, foi arco de entrada do Palácio dos Duques de Aveiro. No final do pátio (se assim se pode chamar a este espaço cujo aspeto é ainda muito agradável) existe um painel comemorativo do quinto centenário da Vila. Terá sido D. Manuel que, em 1515, o outorgou.
Mas, fico eu a pensar, a antiguidade é bem mais longa. Recordo a placa que existe em frente à igreja que reproduz, em linguagem entendível para a atualidade, o texto da Carta de Foral dada, em 1167, por Didacus Peaiz (Diogo Pais segundo Saúl António Gomes) e Dona Eixemena(ou Examena), sua esposa, aos que em Abiud moravam e aos que ali quisessem morar. Recordo também que o nosso primeiro Rei, talvez por falta de descendência dos possuidores da Vila, a tomou e deu ao Mosteiro de Lorvão e que seria este mosteiro a conceder foral aos habitantes já no reinado de D. sancho I. Mas recordo ainda os lavoures visigóticos nas pardieiras das portas laterais da Igreja de Nossa Senhora das Neves que indiciam a existência de uma provável "Villa" visigótica, porventura designada Abizeude, neste território e numa época bem mais remota. E terá sido este o nome que lembrou a Dona Examena o patriarca bíblico, da casa de David e ascendente de Jesus de Nazaré, Abiud e com este nome batizou a povoação. O povo, ao longo dos tempos, encarregar-se-ia de alterar o topónimo tornando mais simples e fácil de pronunciar. assim terá nascido Abiul.
Passamos sob alguns arcos e casas rústica e eis-nos defronte ao Nicho Seiscentista que é quinhentista, se tivermos em conta a data de construção escrita na placa informativa junto dele. Será o que resta da capela dos Duques?...
Damos a volta pelo Largo D. José I, a quem os abiulenses ficaram gratos por ter "posto na ordem" o bispo de Coimbra que tinha excomungado as touradas de Abiul, e encontramo-nos agora à porta da Casa da Misericórdia. Integrado todo o seu património na Misericórdia de Pombal na 2ª metade do século XIX, por suspeita de irregularidades na sua administração, da Misericórdia de Abiul pouco me foi dado conhecer, ainda que me seja grato tudo saber da história das Misericórdias por a elas estar ligado. Sei que foi um dos Duques de Aveiro que concedeu à Vila a Casa de Misericórdia e Hospital e sei que terá sido no final da primeira metade do séc XVI que Abiul foi concedida ao primeiro Duque de Aveiro. Pois, é pouco... façamos fé na informação da placa aqui colocada e ficamos a saber que em 1620 já existia.
Entrámos agora na praça principal da vila: a Praça Velha. À nossa frente o Palanque dos Duques. Quando o proprietário do terreno deitou abaixo a estrutura original, o povo uniu-se e reconstruiu-o com as próprias mãos. Pedacinhos de recordação da importância que a terra teve e que estas gentes não querem que se esfumem no tempo. Podem estar danificados, podem estar em ruínas, pode até só existir o local, mas enquanto a memória prevalecer o orgulho não se esvai. Lembra este palanque a festa brava que nesta praça se fazia em dias de festa ou em ação de graças. Fechavam-se as ruas com carros de bois e toros de pinho e corriam-se os toiros entre estes muros. Agora aqui, consigo imaginar as lides e o entusiasmo do povo aplaudindo. Os "senhores" resguardados no seu palanque gozavam o espetáculo e colhiam as deferências do povo. Abiul conheceu tempos áureos enquanto foi domínio dos duques de Aveiro. Foram eles que trouxeram a tauromaquia para esta terra e, nesta praça se lidaram toiros desde 1561. Quando o último duque, acusado de conspiração contra D. José, subiu ao cadafalso enforcou-se também a povoação. A seguir olho para o Forno do Bodo ou Forno dos Milagres. É enorme e tamanha seria também a fé de quem ousava entrar nele, depois de aquecido, de sexta a domingo, com lenha trazida por uma dúzia de carros de bois. Só uma enorme fé levava alguém a acreditar que, sob o olhar de uma imagem da Senhora das Neves e com um cravo na boca tirado do andor se podia entrar no forno, dar-lhe três voltas e trazer o grande bolo que nele se cozera. Mas a memória é demasiado recente para que nela se não acredite. Data de 1913 a última vez que o mordomo da festa, em honra da padroeira, percorreu as ruas, acompanhando a procissão, andando às arrecuas, entrou no forno com um cavo nos dentes e, sob o olhar da imagem da virgem, saiu dele ileso com o bolo da festa. A partir daí a fé esmoreceu. Talvez a Guerra de 1914 tenha algo a ver com isso... quem sabe?... razões que a própria razão ignora.
Saímos de Abiul e fazemo-nos ao asfalto pela estrada do Casalinho em direção a Vila Cã. Passámos há pouco a ponte sobre a Ribeira de Palmar e vamos agora subindo por um caminho serrano em direção à capela de Nossa Senhora das Virtudes. Por este belo caminho vamos apreciando a flora que por aqui sempre foi nascendo: Medronheiros prometendo bons frutos lá mais pró outono; sanguinhos e aroeiras mostrando suas bagas já maduras; moitas de urze ou, como diz a minha amiga, torgas da minha terra, aparecem ainda despidas de flor ou com elas já descoloradas, na primavera hão de colorir de um belo rosa forte estas serranias; as silvas vão mostrando e ofertando as maduras amoras. E chegámos de novo ao asfalto
Não demos pela capela e parece que não vamos dar já que a sinalização aponta para a povoação aqui em baixo, de nome, Garriapa. A Capela ficaria um pouco acima. Paciência. Quando os pontos referenciados no folheto se encontram foram do caminho marcado quem é que adivinha?...
Passámos Garriapa e, por caminhos rurais, chegamos a Lameiros. Uma pequena capela nova erigida junto de umas alminhas velhas leva-nos a pensar por qual delas optam as almas?...
Por caminho largo na serra atravessamos a charneca e, à nossa esquerda aparecem os esqueletos carcomidos do que foram habitações. As casas que aqui existiram acalentaram sonhos que jazem agora no esquecimento mudo das ruínas que se desfazem. Não existem povoações nas cercanias. Na pardieira de uma porta a data marcada com bocadinhos de tijolo (1941) dá-nos a ideia que não há tanto tempo assim que aqui se vivia, se amava, se sonhava e se nascia. Terá sido tudo em vão?...
Lembrando o que vimos atrás vamos continuando alheios à paisagem, talvez também porque esta não será de modo que nos desperte os sentidos mais que o sentido sentimento que nos deixou aquela aldeia em ruínas.
Atrai-nos a atenção uma inusitada construção no meio da floresta e, pensando que seria um centro de interpretação ou algo parecido, a ela nos dirigimos. Era um gabinete de arquitetura de um grupo de jovens e bem sucedidos arquitetos.
Passamos agora por um complexo fabril e as mós esquecidas de um lagar, que provavelmente se não lembra também que o foi, atrai-nos a atenção porque nada se vê por perto que reclame a sua pertença. Noutra curva do caminho também nós as esqueceremos.
Por casualidade consulto o GPS e verifico que já não estamos a seguir o caminho correto. Voltamos 50m atrás e, com a dificuldade que o mato, crescido entretanto, nos coloca, descobrimos o caminho certo.
De novo por carreiros e caminhos serranos de rara beleza subimos a cumieira para descermos de seguida para o vale. Avistamos o castelo que domina toda esta zona. Não tardou muito e estamos junto aos muros do cemitério de Pombal. Chegamos ao castelo pelo lado nascente. Aqui nasceu Pombal!...Contornamos e visitamos aquilo que resta da capela renascentista da Igreja de Santa Maria do Castelo. Subimos junto do alambor apreciando a grandeza da muralha com os seus torreões. Contornamo-la e entramos pela porta noroeste. Assinalada pelas armas de D. Manuel I, esta porta foi aberta no século XVI, altura em que o castelo sofreu grandes alterações perdendo um pouco a função defensiva e tornando-se mais residencial. Fez as obras e ali viveu Pero de Sousa Ribeiro, Alcaide-Mor de Pombal e Comendador da Ordem de Cristo. São também desta época os janelões rasgados na muralha. Na sua origem este castelo, mandado construir por D. Gualdim Pais, mestre da ordem dos Templários, por volta de 1156, constituiu um baluarte avançado na defesa da cidade de Coimbra, sendo o mais avançado da linha do Mondego. Em 1812, na 3ª Invasão, o exército de Massena destruiu.o quase totalmente. Ao abandono foi-se arruinando mais ao longo do tempo. Intervencionado, já no século XX, constitui-se como monumento nacional de grande valor histórico.
Conhecendo bem todas as suas partes e paredes, porque aqui brinquei em criança explorando todos os recantos, mato saudades e revivo emoções. Contemplamos a cidade que ali nasceu e que é hoje uma urbe desenvolvida, olhamos ao longe a bela paisagem mas não nos demoramos porque são quase horas de almoço. Descemos o outeiro pela mata que o embeleza, percorremos a rua do Castelo e a Rau do relógio Velho e já estamos junto a outro monumento que vale a apreciar: a Torre do Relógio Velho. Sendo muitos os judeus e mouros que viviam no novo burgo que se estendia para o Arunca, D. Pedro I mandou edificar esta torre para aí lhe serem cobrados os impostos. Dada a sua posição extra muros constituía-se também como atalaia. No reinado de D. Manuel sofreu alterações e recebeu um relógio mecânico que, imagine-se, servia para que as trindades da sineta soassem sempre a horas certas. A sineta foi, por mandado do Marquês, transferida para o edifício da cadeia e acabaram-se as trindades mas ficaram as horas certas porque o marquês não era de modas. Descemos à Praça e entramos na Igreja de S. Martinho. No arco triunfal um painel de azulejo comemora o juramento público de Paz entre D. Dinis e seu filho D. Afonso, feito nesta igreja em 1323, por obra da Rainha Santa Isabel. O belo retábulo da capela-mor, em pedra policromada, estilo renascentista de meados do século XVI, é atribuído a João de Ruão.
Saímos para a Praça Marquês de Pombal, que outrora se chamou Praça do Comércio. Foi esta praça durante muitos anos o centro social, económico e administrativo da então Vila de Pombal. Aqui teve morada o Conde de Castelo Melhor e, por obra do Marquês, aqui também moraram muitos gatunos e malfeitores já que aquele foi quem mandou que se construísse a cadeia onde teria existido um pelourinho.
Seguimos pela rua Miguel Bombarda abaixo, passamos por baixo da Linha do Norte e eis-nos na Ponte de D. Maria. Não podia terminar esta caminhada sem aqui voltar já que na primeira etapa, que tão perto daqui se iniciou, me não deram tempo de apreciar o painel de pedra que era objeto da minha imaginação de criança por mencionar personagens de "conto de fadas": A Príncesa D. Maria Thereza e o Príncipe D. António que, no meu imaginário, seriam filhos de um rei cujo reino seria o das Beiras.
E pronto, Esta foi a derradeira etapa de uma extraordinária Grande Rota da Sicó. Foram etapas de enriquecimento histórico, de descoberta de monumentos, de encontro com sítios e lugares singulares, de usufruto da natureza e de deleite pela beleza das paisagens. O meu Bem Haja a quem, em boa hora, decidiu criar e traçar este percurso.
PS
Fui descrevendo, ao longo das etapas aquilo que sentia e que apreciava, como é meu hábito. Não fiz a descrição técnica porque existem folhetos e sites onde se pode encontrar com facilidade essa informação. Mas aquilo que se sente quando se caminha é privilégio de quem o faz. Decerto que o que eu sinto é diverso do que outros sentirão mas pode ser o ponto de partida para um melhor usufruto daquilo que vamos encontrando nos nossos caminhos.
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A mais antiga praça de toiros de Portugal

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A Fonte da Vila

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Pela R. D. Manuel I

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Adereços de feira medieval

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Onde existiu o palácio dos Duques de Aveiro

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Restos do passado histórico

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Memória tauromáquica

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A Casa da Misericórdia

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A Caminho da Praça Velha

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Na Praça Velha o Forno dos Milagres e o Palanque dos Duques

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Invocando as almas boas

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A Caminho

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Exemplares da flora da região

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Amoras silvestres

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Capela moderna junto de alminhas antigas

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Ruínas de uma povoação pouco antiga

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Gabinete de arquitectura em local improvável

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Mós de antigo lagar

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Pelos caminhos da Serra

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Caminhos novos Serra além

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Com o castelo já à vista

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Entre cumieiras

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Com o castelo mais perto

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Pela charneca sempre com vista para o castelo

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Já bem perto

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A capela do cemitério

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Entrando pelo lado este do castelo

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Janelas, portas, arcos, cisternas e barbacãs

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No interior e a bela paisagem

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E ainda no castelo

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A Torre do Relógio

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A Cadeia e a Igreja de S. Martinho

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No interior da Igreja

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Placa elucidativa

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Pela Rua Miguel Bombarda até ao largo 5 de Outubro

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Ponte Dona Maria

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O Rio Arunca

4 comentários

  • Foto de Culnatur

    Culnatur 24/out/2019

    👏👏 gostei bastante do que li, principalmente sobre Abiul. De facto o cepo do carvalho ainda está "preservado" dentro da praça de touros. Quanto às misericórdia sabe se agora bem mais sobre a sua história pois foi alvo de uma publicação, desmente por exemplo a teoria de terem sido os duques a criar a santa casa da misericórdia. Terei todo o gosto em recebe lo em Abiul um dia destes e partilhar um pouco da história desta Vila. Cumprimentos, Rui Rua

  • Foto de j.jesus

    j.jesus 24/out/2019

    Obrigado Rui Rua pelo seu comentário.
    De facto, durante a preparação desta etapa, tendo sabido que ia encontrar uma "Casa da Misericórdia" procurei informação e não encontrei grande coisa. Quando digo "Sei que foi um dos Duques de Aveiro que concedeu à Vila a Casa de Misericórdia e Hospital", deveria antes ter dito que "me foi dado saber que terá sido um dos Duques de Aveiro que concedeu à Vila a Casa de Misericórdia e Hospital", já que a informação a colhi no site oficial da junta de freguesia de Abiul, que, na resenha histórica, tem escrito "Os duques fazem também construir um hospital, igrejas, capelas e instituem a Misericórdia."
    Como faço parte da Mesa Administrativa de uma Misericórdia e a informação sobre estas me suscita sempre grande curiosidade, procurei saber mais através de buscas na WEB e nada mais consegui saber. Por isso estou grato que me tenha informado que existe "outra história" da Misericórdia que foi de Abiul. Bem haja.

  • Foto de Culnatur

    Culnatur 24/out/2019

    Repare que não era uma crítica. Eu próprio ajudei a disseminar essa mensagem de que teriam sido os duques a criar a Misericórdia. Deixo o link sobre a publicação feita: https://www.academia.edu/40616125/Ricardo_Pessa_de_Oliveira_A_Misericórdia_de_Abiul_Fragmentos_da_sua_História_1592-1870_Abiul_Associação_Amigos_de_Abiul_2019_264_pp._ISBN_978-989-20-9525-7

  • Foto de j.jesus

    j.jesus 24/out/2019

    Rui Rua, não o considerei como crítica e estou mesmo muito grato por me ter dado a informação.
    Diga-me, por favor, consegue fazer o download do documento de que me enviou o link?... é que eu só consigo aceder à primeira página e ao índice. Utilizo muitas vezes os documentos da Academia.edu e uns consigo fazer download outros não. Se quiser pode contatar-me pelo mail joaquim.j.jesus@gmail.com.
    Abr.

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