Tempo em movimento  5 horas 28 minutos

Horas  6 horas 22 minutos

Coordenadas 3912

Uploaded 27 de Agosto de 2019

Recorded Junho 2019

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587 m
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22,28 km

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próximo a Ansião, Leiria (Portugal)

Tão agradável!... tão fresco!... tão acolhedor!... estas e outras sensações de bem estar, tranquilidade e paz interior foram-me invadindo o espírito enquanto, já caminhando, usufruía deste espaço aprazível que é o Parque Verde do Nabão. A hora matinal, num dia de labor e não de lazer, é normal que se encontre deserto. Apenas um passeante apressado, provavelmente nascido na primeira metade do século passado, faz o sua matinal caminhada. O Rio, farto das correrias de inverno, descansa na paz calma das águas empossadas e lodacentas de limos verdes. A transparência da água deixa-nos ver uma praga de lagostins guerreando-se, numa luta de sobrevivência, competindo por um espaço que começa a ser exíguo para tantos. Medito nesta guerra e comparo-a à que inexoravelmente irá acontecer à raça humana a não ser que Alguém ou algo superior consiga incutir bom senso no espírito das gentes que vão desgovernando este mundo. Procuro aginha a paz e tranquilidade que quase quase se iam perdendo nesta turbulência mental. A luminosidade e a frescura deste lugar deram uma mãozinha e continuamos apreciando este belo recanto à beira rio descansando.
Já vemos a Ponte da Cal, ainda que semi-encoberta por uma ponte pedonal que nos tolhe dela a visão integral. A ponte, de dois arcos de volta inteira, de histórico tem tanto quanto de antiga. Por ela terão passado reis e vassalos, ricos e pobres, vencedores e vencidos e se a Rainha Santa Isabel por aqui passou, não foi sobre ela de certeza, porque a rainha viveu nos séculos XIII e XIV e a ponte nasceu no século XVII. Mas, pasmei quando soube que dois tanques em pedra há por baixo da ponte onde num se banhavam homens e no outro mulheres e que quando a Santa Rainha, por aqui passando, banhou seus sagrados, cansados e escaldados pés (pois não viajaria a cavalo a rainha para sentir as agruras do caminho como seus lacaios sentiam) num dos tanques, o maior (logicando: aquele que aos homens se destinava) e, a partir de então, as águas que aqui passam se tornaram sagradas e são vários os milagres atribuídos aos banhos destas santas águas. Tal é o crer do povo que ainda se praticam os "Banhos Santos" no dito tanque entre o dia de S. Pedro e o da Rainha Santa. Parece, no entanto, que a fé deu lugar ao folclore e os milagres não vão em cantigas, por isso escasseiam tanto que já não há memória do último que aconteceu.
Além da Ponte e para além dela já vamos e agora sim, conseguimos uma foto da ponte sem empecilhos à frente. Vários são os poços que por aqui vão repousando também. Outrora, quando esta várzea era de cultivo e labuta, a faina das picotas ou azenhas não lhes daria descanso. Então de pedra seca murados, hoje bem aperaltadas as saias, ainda em pedra mas cimentadas.
Rio acima o leito mais seco se torna. Mostra-nos as pedras esbranquiçadas pela secura dos limos. Os freixos pela margem mantêm-se viçosos porque vão beber a um outro rio que por baixo deste corre. Diz-se que as águas escondidas aparecerão à superfície lá para o Agroal. As nascentes agora só o são de nome. A exuberância de águas brotando da terra nesta exsurgência vê-la-emos só lá pró Outono... se chover. Agora, apesar da boniteza do arranjo... arranjo não, perdoem-me, requalificação por aqui feita, desola-nos esta secura, por isso não nos quedamos por mais tempo e seguimos caminho.
A frescura do bosque de carvalhos, medronheiros e muita vegetação menos alta, por onde segue este belo carreiro, fez-nos esquecer as nascentes onde o rio não nasce agora. Subimos e o carreiro deu lugar a caminho serrano. Chegámos depressa a Casal Viegas. Esta aldeia, contrariamente à maior parte das que temos encontrado no caminho, tem novas e grandes moradias. Os sinais que por aqui há não são fruto das terras pobres por onde vimos passando.
O caminho até Lagoa passou depressa e sob o signo da congeminação mas a vista da pequena lagoa, provavelmente dolina, varreu-me o sótão dos pensamentos desarrumados. Está verde a Lagoa mas tem água e muita tabua. Antigamente desta planta e do bunho se faziam as esteiras, hoje nem se sabe o que isso é. As rãs coaxam ritmadamente como no tempo em que se faziam as esteiras. É uma polifonia de várias vozes no mesmo tom... verde. Passamos pela Ameixieira seguindo em direção da serra que dela é. A povoação parece-se com outras que fomos encontrando esquecidas por esses montes além. Há ruínas de casas e casas em ruínas entre outras que se vão arruinando. Sonhos passados e sabe Deus como foram vividos. No entanto, ainda aparecem novas construções, poucas mas boas. Gente que prefere o ar puro para viver.
E cá vamos, serra da Ameixieira arriba. Lá para cima muda de nome e passa a ser Serra da Portela. Mas há quem a queira rebatizar chamando-lhe Serra do Anjo da Guarda, nome que em nenhuma carta altimétrica consta. Do anjo da Guarda é uma capelinha que iremos encontrar em breve. Por enquanto vou apreciando as formações rochosas curiosas que por aqui se encontram e a paisagem que me enche os olhos e esvazia os pensamentos no pleno gozo desta beleza impar.
Num entroncamento do estradão, por onde vimos há pouco caminhando, encontramos um painel informativo. Dá-nos conta de que entrámos em terras onde se recorda ainda o Ciclo do Pão que antigamente se fazia. Amassado à mão, levedado com crescente e cozido em forno de tijolo refractário aquecido com lenha e limpo com basculho de giesta, gilbardeira ou carqueja. Por muito que se recorde dificilmente se recria. Já há poucos que "tenham comido o pão que o diabo amassou" para reviver a míngua que fazia da boroa um bem respeitado e de uma sardinha um acepipe desejado.
E com isto já caminhamos entre ciprestes, seguindo um carreiro de pé posto junto ao parque eólico da Videira. Estas coníferas parecem estar bem adaptadas e em desenvolvimento. É uma alternativa a pinheiros e eucaliptos. Se é a melhor o futuro o dirá. Que o percurso entre elas é agradável posso eu dizer.
Estamos a chegar ao Monte da Ovelha. Um moinho de pivot ou pião, também conhecido como "Moinho Judeu", construído em madeira, parece completo e em bom estado. Os bolachos nas varas dão ideia de boa conservação assim como a madeira tratada da estrutura. Lia, há dias, num estudo de impacto ambiental feito para o parque eólico, que existiram aqui doze moinhos destes, pois existem outras tantas carreiras (bases circulares em pedra sobre as quais rodavam os moinhos). De facto, num relance, vejo outras carreiras circulares por aqui. Este seria um centro moageiro importante. Não entendo, no entanto, porque é que os moleiros não optaram por estruturas mais sólidas que lhes garantissem um tempo de vida mais longo. Estes moinhos eram orientados para o lado do vento movendo toda a estrutura. Os moinhos de pedra, dissiminados por toda a estremadura, tinham um capelo móvel, mais simples de rodar por uma só pessoa, e suportavam um conjunto moageiro mais produtivo, além de serem mais resistentes. Gostaria imenso de percerber estes porquês mas já não há quem mos explique. Paciência...
Com este moinho começa do "Ciclo do Pão" de Pousaflores. O restante deste ciclo encontrá-lo-emos mais abaixo.
Estou agora no Miradouro do Anjo da Guarda com mais um relógio de sol. Parece que foram plantados nesta rota. É o quarto que encontramos, todos iguais, e continuo a achar que é uma estrutura feita para "inglês ver" e que, na minha opinião, não acrescenta mais beleza à paisagem. Pelo contrário, distrai quem ali chega.
Enchamos os pulmões deste ar puro, abstraiamo-nos da estrutura aqui plantada, olhemos à nossa volta e fiquemos contemplando estas tão belas paisagens. Pousaflores ali em baixo. O nome acrescenta beleza a uma povoação que, por si só, já o é. Logo a seguir, para nascente, Lisboinha. Ao longe, para a esquerda, Chão de Couce lembra-me que ali existe uma igreja com retábulo de Malhoa que ainda não visitei. Não tardará!... A serra de Casal soeiro a norte e o vale da Ucha.
Sinto que estou parado por aqui há tempo a mais porque os companheiros de costume já zarparam.
Descemos por caminho de terra batida e atalhamos para o Anjo da Guarda. A Capela data de 1961, a confiar na placa que ali se exibe. Foi mandada construir pelo "Americano" de Lisboinha de seu nome Alfredo Caetano da Silva que a ofereceu ao povo para que nela orace e invocasse o orago com a oração inscrita na placa "Santo Anjo da Guarda nossa companhia as nossas almas guarda e ao senhor Jesus as confia". Logo ali continua o Ciclo do Pão. Depois de moído o cereal, chegará aqui a farinha que será amassada e levedada. Três fornos debaixo do telheiro aquecidos serão para depois cozer o pão. O ciclo acaba um pouco mais abaixo numas mesas corridas que ali estão e, pela quantidade, dão conta da gente que aqui acorre durante os festejos. Uma equipa da Junta recolhe os trecos que suportaram palcos e grinaldas de festa recente. Perguntamos se têm a chave da capelinha. Que não e não sabem quem a tem. Assim, deixamos o recinto das festas, subindo escadas de pedra e atalhando a ribanceira, para nos dirigirmos à sede da associação dos caçadores de Pousaflores. O edifício é construído em pedra à maneira serrana dos finais do século passado. A pedra, calcário dourado, deve ter sido tirada de pedreira desta serra. Tem um alpendre muito agradável e o telhado pousa sobre traves de madeira.
Finalmente deixamos o Anjo ficar para trás mas não sem antes lhe encomendarmos que nos vá guardando, ainda que a perspetiva de que o faça não é muito grande porque a fé em anjos é pequena e, de certeza, teremos que nos colocar em fila de espera com tantos outros pedidos que ao nosso se anteciparam. Muito terá que fazer esse ser sobrenatural e, quando chegar a nossa vez, será de facto a alma a única coisa que poderá guardar. Assim seja!...
Por asfalto passamos a Portela de São Lourenço, entramos em caminho rural para, logo de seguida, regressarmos ao asfalto.
Num entroncamento encontramos umas alminhas. Estas dedicou-as o crente que as construiu a S. João Batista ainda menino e de cordeirinho ao colo. Nas encruzilhadas do caminho lembram-se os Santos e as almas que aguardam quem por elas reze. Meditemos. Não deu para muito meditar porque estamos já a sair do asfalto para entrar em caminho serrano de terra vermelha, sombreado por cerquinhos velhos e novos. O sanguíneo caminho leva-nos pela Serra de Ariques além (ou será Serra do Castelo?). Seguimos por um trilho que acompanha uma ribeira seca. A mata encantada há-de entregar os nossos passos à Serra de Alvaiázere. A profusão de caminhos pedestres assinalados criam alguma confusão mas dão um sinal muito positivo ao que se tem feito por estes lados em prol do pedestrianismo e da comunhão com a natureza. Passamos pela grande depressão da fórnea e contornamos a Serra de Alvaiázere a norte e nascente olhando o parque eólico e imaginando as marcas de um castro que sabemos ter existido lá em cima.
Paramos à sombra de uns belos Carvalhos para o quinhão de almoço que seguia nas mochilas. O sol vai a pino e esta sombra que bem sabe.
Reconfortados, seguimos pela mata de cerquinhos sentindo a carícia da sua sombra e colhendo os benefícos das imagens que embebedam o espírito.
Entramos em Gamenhos. Umas Thapsias exibem o amarelo em cada ponta do raiado das flores selvagens. Passamos pela singela capela dedicada a N.ª Sr.ª da Conceição e interrogamo-nos sobre a simbologia esculpida na pedra que se encontra sobre a verga do portal. Não entrámos pelo motivo do costume. Enquanto nos afastamos penso neste topónimo e da possível origem. Recordo-me que gamenho ou fedelho era o que nos chamavam quando, ainda crianças, jogávamos à bola no meio da estrada ou incomodávamos alguém que o não queria ser. Que razão então para este topónimo aqui?... bem deixemos os Gamenhos e continuemos.
Entrámos já em Alvaiázere. Chamaram-lhe os árabes "al-bai-zir" (Campo aromático) com razão, dada a profusão de aromas que exalam as plantas nos campos e serras que a cercam. A rua onde entronca a que nos trouxe é a Rua D. Sancho I. O segundo rei deu carta de povoamento a Alvaiázere por volta do ano de 1200. Conquistada esta região era preciso povoá-la. Reparo que existe uma casa antiga nesta rua que tem um portal trabalhado muito belo e janelas de sacada em cantaria com grades de ferro. Este palacete terá tido a sua importância em tempos. Questionamos alguém que passa. Sendo da terra disse-nos que a casa pertenceu à rainha que, quando vinha a Alvaiázere, era aqui que ficava. E mais não nos soube dizer. Não ficámos convencidos. Alvaiázere foi doada a Dona Leonor por el-rei D. Duarte mas isto foi em 1435 a arquitetura não me parece desse tempo e outra rainha por aqui só de passagem. Chegamos junto da Câmara Municipal que contornamos por trás. Passamos em frente da escola Conde de Ferreira. Teriam sido 120 as escolas a construir em todo o reino mas nem todas o foram. Iguaizinhas para serem mais baratas. Com mobília e vivenda do professor teria custado cada uma 1200 reis. Financiadas por legado do Conde de Ferreira que "convencido que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da sociedade" atribuiu da sua imensa fortuna 144.000 réis (144 contos) para a construção destas escolas. Outras imensas filantropias teve este homem na hora da morte. Hoje fico-me pela recordação desta mas rói-me a alma (tal como lhe deve ter roído a ele) saber que a tal imensa fortuna foi essencialmente obtida pelo tráfico de seres humanos: 10000 negros angolanos para o Brasil.
Deixemos o conde e as suas más e boas obras descansar em paz porque à vista temos o coreto de Alvaiázere. Em silêncio, este como outros pelo país além, conta estórias que a história esquecerá. Dimensionados à medida dos anos trinta do século passado, a "música" deixou de caber neles nas últimas décadas do anterior e nestes anos passados do corrente século. Quando os olho, assim silenciosos, recordo com tristeza a minha alegria e o pasmo olhando aqueles músicos aprumadinhos de fatos azuis, bonés de pala e instrumentos doirados agarrados à boca, soprando sons modelados pelos dedos que me enchiam a alma e embalavam sonhos. Porque será que já aqui não cabem os sons?... não se arranjam uns mais à medida que possam dar vida a estes coretos mudos?... reinventem-se os coretos.
Este foi obra de benemérito comendador alvaiazerense e da fábrica da igreja que ofereceu espaço no adro da igreja.
Bem, finalmente a Igreja. Dedicada a Santa Maria Madalena data do século dezasseis mas, na sua simplicidade, não apresenta a volumetria que carateriza os monumentos quinhentistas, talvez por ter sido objeto de remodelação ao longo dos séculos. No tímpano do portal lê-se a data de 1810 mas no vértice do pano central vê-se um conjunto escultórico tipicamente quinhentista, apresentando cristo preso à coluna ladeado por dois anjos e encimado por cruz latina. Talvez seja este o único elemento da fachada que data da sua construção. A torre sineira tem a cúpula envolta por armação de ferro que suporta um sino mais pequeno e que não é comum ver-se por cá. Por baixo, dois sinos em outras tantas ventanas. Vejo isto e também que a porta se encontra aberta. Caso raro. aproveitemos...
O interior revela mais pormenores quinhentistas. Três naves de cinco tramos com arcos do séc. XVI. Quatro altares. No altar-mor vêem-se duas esculturas em calcário. Parecem ser também de origem do templo e representam Santa Bárbara e o Espírito Santo. Fixei-me nas imagens da Via sacra e depois no púlpito talhado em forma de cálice. Já é tarde. Acho que vale a pena ver e orar neste templo. Talvez a lua que se coa pelos vitrais me tenha levado também a isso ou talvez não, mas que orei… orei!
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Parque Verde do Nabão

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O Nabão estagnado ainda antes de começar o Verão

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A Ponte da Cal + ceara de trigo + um poço

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Pela sombra dos freixos

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O Nabão perto das nascentes

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Nascerá aqui o Nabão... quando chover

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Caminhos rurais

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Alminhas à entrada de Casal Viegas

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Flor do Acanto perto de ruínas e antiga eira

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A pequena lagoa de Lagoa

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Restos de sonhos

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Seguimos por via diferente para subir a Serra

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Por entre olivais

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Um Cristo pequenino em cruzeiro grande

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Paisagens que a serra tem

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Formações rochosas da Serra da Ameixieira

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Alcachofra (Cynara Humilis) no caminho da Serra do Anjo da Guarda

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O Ciclo do Pão

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Por entre cedros e ciprestes na Serra do Anjo da Guarda

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O carreiro dos ciprestes

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Moinhos e Miradouro

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Janelas para belas paisagens

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As paisagens do Anjo da Guarda

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No Ciclo do Pão

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Sede de Caça

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Uma estação da Via Sacra

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Chegando à Portela de S. Lourenço

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Uma casa na Portela de S. Lourenço

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Venerando S. João

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O caminho vermelho

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Cerquinho na Serra de Ariques

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Carreiro no Carvalhal

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Fetos e choupos à beira da ribeira (seca) no Vale da Mata

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Atravessando a fórnea

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A encruzilhada na Serra de Alvaiázere

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Mais alcachofras na Serra de Alvaiázere

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Dedaleiras

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À vista de Alvaiázere

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Outro belíssimo carvalhal

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Neste vale os cerquinhos são imponentes

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A beleza que as Thapsias emprestam à rua

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A capela de Gamenhos

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Flor da Paixão

Passando por Gamenhos mas gamenhos por aqui não vimos. Já notas só as flores e vadios apenas um cão.
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Palácio?... de quem será o Brasão?...

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Município de Alvaiázere

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Escola Conde Ferreira, coreto e Igreja de Santa Maria Madalena

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Igreja de Santa Maria Madalena

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Pormenores do interior da Igreja

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