Tempo em movimento  5 horas 46 minutos

Horas  6 horas 47 minutos

Coordenadas 4201

Uploaded 5 de Julho de 2019

Recorded Maio 2019

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386 m
162 m
0
6,0
12
24,0 km

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próximo a Condeixa-a-Nova, Coimbra (Portugal)

Sem oportunidade para comer a escarpiada de Condeixa subimos, como quem faz um passeio matinal, pelo Parque Verde da Ribeira de Bruscos. Ainda que as nuvens escondam de nós o azul celeste, a luz serena e fresca invade-nos o espírito, rejuvenesce-nos, anima-nos e revitaliza-nos. Esta Luz vai emprestando transparência ao que nos rodeia. As plantas têm um verde inexplicavelmente mais vivo e a água relampeja em reflexos prateados. Seguimos junto à ribeira, embalados pelo cantar da água, tão absortos íamos que seguimos parque fora até ao choupal ao fundo. Não foi por intenção mas por distração que falhámos uma indicação de direção da rota. Ainda bem que aconteceu. A esta hora o pequeno choupal parece mágico. A luz matinal, coada pela copa das árvores, tremeluzente por mil folhas agitadas por uma brisa suave, é balsâmica.
Demos a volta e já seguimos no caminho certo ainda que não considere incerto aquele que nos desviou. Saímos da Senhora das Dores e vamos em piso de asfalto, desviamo-nos à esquerda e passamos a Avessada e agora começa a ouvir-se de novo o cantar da água. É uma levada que alimenta as hortas de um e outro lado da estrada. Há gente atarefada, de sacho na mão e costas encurvadas, encaminhando a regueira para que nenhum pé de couve, cebolo ou feijão perca o seu quinhão. À frente é uma senhora que vai sachando o feijoal bem tratado que hoje não necessita de rega.
- Bom dia. Lindo feijão
- Bom dia, nos dê o Senhor. Pois, está bonito mas ganha muita erva. Então, vão para Santiago?
- Não senhora, vamos para Penela pela Rota da Sicó.
- Ah, então ide com Deus. Se fossem para Santiago era por ali...
- Bem haja.
Continuamos. Já vamos na rua da Pregueira diretos a Rivolta. Passamos uma fonte em que se invoca Santo António para que abençoe a água e quem dela beber. Seguimos em rua estreita entre casas que terão sido novas na primeira metade do século passado e, ali juntinho a um belo jardim, entramos num caminho rural imensamente florido. Os insetos, na sua azáfama natural, zumbem-nos junto aos ouvidos, talvez insatisfeitos por termos perturbado a calma desta manhã de luz diáfama.
Subimos agora, por caminho serrano que nos leva a contemplar as belas paisagens de uma orografia com nuanças de colinas suaves, em que o branco das casas entremeia campos verdes ou castanhos recentementes lavrados. Passamos o monte para o outro lado e descemos por um estradão para a Rua do Moinho do Rei. Este topónimo terá significado mas quem nos diz qual?... ninguém. Mais tarde, com tempo, haveremos de questionar alguém porque hoje ficamos sem saber.
Já se abre à nossa frente o semicircular lençol de água da nascente de Alcabideque, com margens cuidadas e embelezadas e água límpida refletindo árvores e colunas de pedra. Uma estrutura em ruínas manifesta a importância que os romanos deram a este sítio nos primeiros séculos da nossa era. É o Castellum Aquae que alimentou de fresca e pura água o aqueduto, de pouco mais de 3 Kms, que abastecia a aculturada oppidum de Conímbriga. fazendo fé naquilo que havemos lido, esta estrutura decantaria e elevaria a água para o aqueduto. Não tendo quem nos explicasse como, porque estas caminhadas são feitas sem guia especializado, os folhetos disponíveis são demasiado sucintos e nós não somos conhecedores formados nem informados nesta área, ficamos na dúvida, pois nos disseram que o aqueduto saia enterrado e enterrado faria a maior parte do caminho, apenas sendo os últimos 170 metros, transpondo o vale, vencidos em canal elevado sobre arcos, dezasseis de que apenas um resta na atualidade.
Quase não reparamos nas alminhas e no parque de merendas aqui em frente porque meditávamos sobre a etimologia do topónimo Alcabideque. O prefixo "al" é manifestamente árabe, já a raiz "cabideque" dizem os entendidos que derivou do latim "caput aquae", significando nascente ou mãe d'água (?), se são entendidos temos que acreditar.
Bem, distraídos íamos com estes pensamentos, ou não houve motivo que despertasse nossa atenção, que, sem disso darmos conta, passámos já toda a aldeia e as marcações desviam-nos por caminho rural, em terra batida, à esquerda.
As roseiras-bravas (Rosa Sempervirens) enchem as bordas do caminho, salpicando de branco o verde intenso da folhagem.
Por vezes esqueço que os meus colegas de jornada podem não se aperceber da sinalização, por estar menos visível ou porque também têm direito à distração. Como vou atrás e sempre distraído, lá fizemos mais 250m neste troço do caminho.
Entramos em Casal Novo. A altura das casas antigas impressiona-nos por tão baixas que são. As pessoas daqui eram baixinhas ou andavam em casa de cócoras?...bem, reparando nas soleiras das portas, concluímos que foi a rua que subiu tornando as casas aparentemente baixas. Saímos de Casal Novo, andamos 100 metros pela estrada de asfalto e eis-nos a entrar em Beiçudo. Umas velhas Alminhas, intercedem pelas almas do purgatório. Pelo aspeto da pedra com que foram construídas muitos são os anos (e os litros de azeite para a candeia) que levam de interceção pelas almas de um purgatório para quem o da vida não foi suficiente. Subimos e, a meio da aldeia, outras alminhas evocam Nossa Senhora da Nazaré. As alminhas nas encruzilhadas são testemunhos da fé do povo e convidam-nos à meditação. Elevo a minha prece a Deus que me assiste e seguimos em frente, já que ainda por cá andamos.
Saímos da Mata (aldeia) e embrenhamo-nos agora por um carreiro na mata (mata). Os muros de pedra castanha, bastante diferentes daqueles que geometrizam as serras de Aire a Candeeiros, são uma constante neste caminho. Também uma constante muito agradável foi a quantidade do Satirião (Anacamptis pyramidalis) que enfeita os caminhos que seguimos.
Começam agora a ser em maior quantidade as vinhas que justificam o nome "Rota do Vinho da Sicó" dado a esta etapa. Há gente cuidando delas com tal esmero que os pequenos retãngulos hão-de produzir mais que os grandes vinhedos de outras regiões. A poda em vaso, técnica tradicional e ancestral, começa a ser substituída pelo cordão bilateral.
- Bom dia. Desparrando já?...
- Bom dia nos dê Deus. Tem que ser.
- Então que castas tem por aqui?...
- Tintas o Alfrocheiro e Tinta Roriz; brancas Fernão Pires e Cerceal.
- Bem haja e bom trabalho.
- Para onde vão?...
- Para Penela, andamos a seguir a Rota da Sicó.
- Ide com Deus!
Com Deus e uns com os outros, lá seguimos por entre vinhas e pinhais.
Por estrada de alcatrão chegamos a Casal da Azenha. Pouca coisa nos clama por atenção: uma casa rústica construída com calcário rico em óxidos de ferro, dada a sua cor amarela acastanhada; uma varanda alegre pela variedade de simbidiuns multicoloridos que nela se mostram; e uma singela capela de porta fechada e duas frestas laterais por onde espreitamos em vão. Seguimos asfalto fora para logo entrarmos em caminho rural que nos leva serra acima. Não encontramos vivalma por este caminho serrano. Há muito que as gentes destas aldeias deixaram de ter as suas juntas de bois e com elas irem ao mato para as cortes. Agora as serranias desertas são deixadas ao abandono e os matos crescem sem controlo até que se tornem pasto de chamas. Apreciando a paisagem passamos para o outro lado do monte. Descemos para o vale e seguimos um estradão de terra batida e com tanta poeira que dois camiões, passando por nós, levantam para nosso desconsolo. Enfarinhados de pó branco percorremos o vale, subimos para a Gateira, nome curioso, e descemos para Podentes. Entramos na povoação. algo nos ocultou a vista do pelourinho. Pena tenho de o não ter visto porque dizem ter o maior buste em mármore de bloco único conhecido da época romana, encimado por capitel cúbico onde a esfera armilar e a cruz de Cristo identificam bem o reinado em que lhe foi dado foral novo. Dado o adiantado da hora, procurávamos um canto acolhedor que nos permitisse comer o farnel que levávamos nas mochilas. Terá sido essa a razão de não termos dado pelo Pelourinho?... há alturas em que a barriga
manda mais que o cérebro. À nossa frente um colossal e velhíssimo freixo esconde-nos da vista da igreja. Diz-se que no último quartel do séc.XIII já Podentes teria matriz e seria da invocação de Santa Maria. O aspeto atual nada terá a ver com esses tempos e não sei mesmo se algo restará de tão remota época. Olha-se e vê-se uma arquitetura simples dos meados do século XIX. Está fechada a porta que nos mostraria o interior. Sabemos que é de nave única e que única é também a capela da cabeceira com altar-mor oitocentista. Gostaríamos de ter visto a capela lateral seiscentista dedicada ao SS.mo sacramento e a sua oposta, da Senhora do Rosário, que terá uma cúpula quinhentista e em cujo retábulo se poderá apreciar uma imagem em pedra de Ançã da mesma época. Bem gostava de tudo isto ter visto mas limitámo-nos a dar uma volta à igreja e acomodar-nos nos degraus de uma das portas laterais e cá estamos a saborear com prazer o almoço. Às vezes temos que canalizar os desejos para o que temos à mão. Paciência...
Almoçados, cá vamos estrada abaixo e vou pensando que esta aldeia, historicamente riquíssima, cujo topónimo poderá ter por origem os "Potentes Cavaleiros", grupo de cavaleiros da Ordem do Templo ou da Ordem de Cristo (não me lembro bem) que por aqui tiveram mansão, está insignificantemente votada ao esquecimento e parece, ela própria, ter esquecido o que foi, estando resignada ao que é.
Quase ao fundo da descida enveredamos à direita e o som familiar da água numa regueira chega-nos aos ouvidos. As hortas bem cuidadas têm o viço de quem falta de água não tem. O caminho rural segue agora por entre eucaliptos de que vamos aproveitando o odor e imaginando que se estes terrenos não forem limpos atempadamente, sujeitos estarão de enegrecer em cinzas.
Deixamos o caminho e entramos na asfaltada estrada que nos levará ao Melhorado. Recordamo-nos agora que em lugar situado antes de encontrar o asfalto deverão existir duas sepulturas antropomórficas que não vimos. A sinalização para aspetos importantes do caminho é praticamente nula e temos que andar buscando aquilo que assinalado poderia ou deveria estar. Ficamos com pena e seguimos caminho.
Na encosta à nossa direita, acima das árvores, aparece uma formação rochosa, aparentando possuir na sua base uma ou mais lapas. A existências de ruínas à esquerda leva-nos a concluir que se trate das lapas e ruínas do Casal do Melhorado. O caminho curva acentuadamente e leva-nos junto a estas ruínas e à formação rochosa que lhe fica ao pé.
Será que aqui apareceu a tal xorca de ouro de que fala o prospeto desta rota?... Será que uma destas lapas é a Lapa do Moirão?... se for a Lapa do Moirão então, dizem os arqueólogos, aqui não terá aparecido uma xorca mas uma tal "argola de Penela", peça de ourivesaria arcaica das mais importantes encontradas no nosso país e datada da Idade do Bronze, e, vejam lá, foi achada por uma pequena quando esgaravatava a terra, naquelas brincadeiras de criança que para os adultos parecem tolice mas que têm imenso sentido; foi essa argola que um maganão, que por ali passava, pediu de "empréstimo" à criança e foi a correr vender ao ourives; a mesma argola que, restituída à família da criança, viria a ser adquirida pelo rei D. Fernando II por um conto e quinhentos mil reis (ou terá sido por dois contos?...); essa mesma argola que, por artes do diabo, foi roubada do palácio das Necessidades em 1910 e que nunca mais apareceu. Mas, e se não é a Lapa do Moirão?... se não é, então qual a história destas ruínas e destas lapas daquela penedia?... se não é porque se insinua no folheto o achado da xorca (e não chorca) de ouro naquelas lapas?... gostava de saber mas a informação guardam-na os "experts" para eles próprios. Quem traçou a rota fez-nos vir aqui para quê?... para vermos ruínas de casas no meio de uma serra?... não seria melhor que fora para que nos enriquecêssemos culturalmente com as paisagens, o património, as histórias e as lendas endógenas dos lugares que visitamos?... Por favor, senhores responsáveis, disponibilizem informação em painéis interpretativos nos pontos chave destas rotas.
Bem, acabei o desabafo. Continuemos.
Sem dar por isso, já nos aproximamos de Penela.
Lá está ao longe, no cimo do morro, dominando o vale, o altaneiro castelo. Existiria ali uma fortaleza árabe quando Fernando Magno de Leão conquistou Coimbra, no ano de 1064, e veio por aí abaixo até à Ladeia. O castelo de Penela viria a ser um baluarte na defesa da Cidade de Coimbra dominando o vale do Rabaçal por onde passava a via Coimbrã. Foi ao conde D. Sesnando que Fernando Magno entregou a fortaleza. Em 1137, ainda assinando como Infante, D. Afonso Henriques atribui o primeiro foral à vila com privilégios para atrair população.
Em caminhos rurais, passando vinhas e olivais, sempre com o castelo à vista, vamo-nos aproximando do nosso destino.
Subimos a colina, contornando por leste em direção à "pequena pena". Entramos no asfalto na Rua de S. Lourenço. Ao cimo encontramos a Capela de invocação do mártir que não perdeu o bom humor mesmo quando martirizado pelo fogo sobre uma grelha. Diz-se que disse aos seus algozes «podeis virar-me agora para o outro lado porque este já está bem passado». Está fechada e não valeu de nada espreitar pelo postigo porque está escuro lá dentro. Sigamos...
Subimos a Rua Herói Caspirro e lembro-me vagamente da estória deste herói contada por Fernão Lopes nas Crónicas d'El Rei D. João I. Resumindo: quando se deu a crise de 1383/1385 era senhor de Penela o Conde de Viana do Alentejo, D. João Telo, que apoiou Dona Beatriz e as pretensões de Castela à Coroa de Portugal. Caspirro, por iniciativa própria ou por serviço encomendado, assassina o Conde. Certo é que nas cortes de Coimbra a representação de Penela apoiou o Mestre de Aviz «tomando voz por Portugal».
Passamos já pelo arco passal de casa antiga, arquitetonicamente interessante, adossada à igreja da Santa Casa da Misericórdia. A Igreja encontra-se sobrelevada relativamente à rua. A arquitetura adaptou-se ao declive do morro. O acesso faz-se por escada de dois lanços que não subimos só para não ter que descer desiludidos.
A presença do "Bigodes" na esquina logo a seguir fez-nos sede. A cerveja fresquinha soube-nos mesmo bem.
Subimos a Rua dos Paços do Concelho. À direita a igreja de Santa Eufémia. De aspeto exterior muito simples, é fruto das oficinas renascentista de Coimbra. Uma bela escada de pedra leva-nos ao portal de verga reta em mármore com moldura finamente lavrada. Com data visível de 1551 em epígrafe é tipicamente renascentista. Entramos, rezamos e apreciamos o interior desta igreja que, está documentado, já existiria no século XIII. Existiria mas não esta com certeza. Os arcos redondos sobre colunas dóricas que separam as três naves dão-nos uma sensação de grandiosidade que não se adivinha de fora. O Altar-mor tem retábulo em talha doirada que vale a pena apreciar. Mereceu-nos especial atenção o retábulo em pedra da Capela do Espírito Santo, no lado sul da igreja. Este templo merece uma visita mais documentada. Por hoje chega. Saímos e continuamos a subir em direção aos Paços do Concelho.
Logo ali, um pequeno jardim relvado exibe no centro o Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Em pedra, semelhante a tantos outros que existem no nosso país, feito segundo o modelo "Padrão de Guerra", ostenta os símbolos nacionais: Escudo de Portugal, Cruz de Cristo e Esfera Armilar. Tem na base uma placa em cobre da Liga dos Combatentes e data de 1968. Lembrar aqueles que morreram recorda-me sempre que muitos estavam ali obrigados e não por obrigação. Lembremos também quantos, aqui em Penela, morreram ajudando a construir uma pátria que hoje é a nossa. Tantos ou mais morreram tentando o contrário. Ainda hoje é assim...
Logo a seguir uma singela homenagem do município a Salvador Dias Arnaut expressa-se numa interessante escultura num jardim que serve de miradouro da cidade. Passamos frente aos Paços do Concelho e seguimos rumo ao castelo, onde terminamos esta etapa. Havemos de falar do castelo mas hoje já não tenho tempo. Só mais uma coisita, ide à praça da República, acho que vale a pena. Haja Deus...

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