Tempo em movimento  7 horas 46 minutos

Horas  9 horas 22 minutos

Coordenadas 5545

Uploaded 20 de Junho de 2019

Recorded Maio 2019

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  • Scenery

     
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515 m
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31,53 km

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próximo a Redinha, Leiria (Portugal)

Dizer que paro antes ainda de começar esta jornada pode parecer tolice, mas não, não é. Literalmente... paro!... e, simplesmente, olho o largo em que me encontro. Paro porque a setecentista igreja de S. Francisco, de porta fechada e fachada envelhecida pelo descuido a que tem sido sujeita, parou também; paro porque o relógio da torre está também parado e nem consigo imaginar quantas voltas deve ao tempo. Talvez não deva. O tempo, porventura, é que lhe deverá o tempo que faltou a quem o deveria ter cuidado; paro porque o Pelourinho da Vila, ali parado, mostra em si o desgaste dos anos. Seria com foral novo, dado por D. Manuel I, que o pelourinho da Redinha, que Rodinha seria quando D. Gualdim Pais lhe deu o primeiro foral em meados do século XII e que foi tributária da ordem dos Templários, seria ali colocado como símbolo de uma vila próspera. Nas faces do fuste, de secção quadrada, a Cruz de Cristo testemunha a passagem da pertença para a ordem de Cristo quando extinta foi a ordem do Templo; paro porque é o Largo dos Celeiros. Aqueles celeiros que, na fuga ao inimigo francês, Wellington mandou queimar e que pararam de armazenar o pão de tantas bocas. No mesmo dia, por igual motivo, pararam moinhos e azenhas, as searas e tudo aquilo que pudesse servir de pasto às tropas de Massena foram varridas por fogo posto também; paro porque imagino o povo choroso e sacrificado a passar por aqui soluçando o adeus à terra que com ele cresceu; paro porque imagino gentes paradas de estupefacção quando obrigadas a migrar sem saber para onde.
Como não posso ficar aqui eternamente parado, avanço. Avanço em direção à ponte românica que guarda a memória de quantos nela morreram e de quantos por ela avançaram fugindo à morte, em batalha travada a 12 de março de 1811.
Avanço olhando a água correndo lá em baixo, espumando branca nas pedras do açude que retinha a que necessária seria para alimentar azenhas e moinhos. Quanto tempo foi preciso avançar para que o tempo, correndo no rio, esquecesse o rubro do sangue sacrificado de tantos jovens que, ali, parados foram, na idade de crescer.
A Redinha merecia que me detivesse por mais tempo recontemplando tanto que tem para me parar. Mas vou avançando porque o caminho de hoje ainda é longo.
Fogem-me os companheiros subindo por caminhos rurais e belos carreiros de pé posto, contornando a aldeia do Poio, até à estrada da Nossa Senhora da Estrela. Um pouco de asfalto palmilhado e eis-nos à entrada de uma insólita, estreita e não pavimentada "Av." para "Peregrinos a pé de promessa a Nossa Senhora da Estrela". Presumimos que não foi presunção mas generosidade o que motivou o senhor Agostinho M. Rosa que, numa placa marmórea colocada em
escultural pedra tosca e calcária que a natureza talhou, toponimizou este singelo carreiro que sobe a encosta até ao "santuário" de Nossa senhora da Estrela. A paisagem deslumbra-nos e entra na alma com uma esteira de paz que nos enleva. O mar ao longe lembra-nos que, como conta a lenda, por aqui chegaria quando o descuidado pescador,
surpreendido pelo temporal inesperado, clama a Nossa Senhora que o salve e logo aparece uma estrela que o guia até este lugar. Ali mesmo, por promessa, decide o divinamente resgatado pescador construir uma capela. Embutida numa gruta existente na falha cársica, que de Nossa Senhora da Estrela tomou o nome, a capela tem dois túmulos onde se encontram sepultados o padre João Ribeiro de Oliveira e o capitão João Ribeiro. O primeiro porque, no século XVII, procedeu à ampliação e melhoramentos significativos no templo e o segundo por ser pai do primeiro.
Ficaríamos pasmados, absorvendo toda a beleza da paisagem que dali se disfruta não fora o caminho que havia para andar. Assim, pouco tempo passou, e caminhamos por sendeiro talhado entre abundante vegetação que nos trouxe a um caminho serrano ladeado por muro de pedra seca, construído à antiga e ali preservado, apesar da recente melhoria e alargamento do piso de macadame. Apreciamos as flores que campeiam de um e outro lado do caminho embelezando-o. Dedaleiras, rosas cucas e uma infinidade de pequenas outras enfeitam os lapiás que a natureza cársica parece ter por ali semeado.
Passamos Casais de S. Jorge sem que avistemos alguém que ali more. Andarão nos seus afazeres. A Aldeia é grande com habitações de construção recente, ainda que prevaleçam a de aspeto antigo. À saída existe uma grande fábrica de tratamento e embalagem de frutos secos ou torrados. Talvez a fábrica e a hora justifiquem a ausência de gentes na aldeia...
Por um caminho entre carvalhais, rumamos a Degracias. À entrada existe uma pequena lagoa de forma circular, murada e protegida por rede. Parece-me ser uma dolina, ainda que os muros e a rede de proteção lhe transmitam muita artificialidade. A igreja setecentista, no centro da povoação, tem S. Sebastião como patrono e encontra-se aberta. Entramos. A igreja é muito agradável. Chama-nos a atenção uma imagem de Nossa Senhora em calcário branco (pedra de Ançã?), será obra de mestre João de Ruão?... parece, mas não conseguimos informação. Saímos e damos com outro pormenor curioso: as lajes à entrada foram numeradas por canteiros. Seriam coberturas de sepulturas desta ou de anterior igreja?... também ninguém nos soube dizer. De facto temos o património mas sabemos tão pouco sobre ele. Escapou-nos o relógio de sol, que sabemos existir na fachada sul da torre sineira, talvez por meditarmos no pouco que conhecemos da nossa própria terra. Seguimos pela Rua do Passadouro. À nossa frente o Jardim de Degracias. É um pequeno e singelo jardinzinho com uma pequena capela dedicada a S. João, um poço com bomba de roda, uma pedra trazida da serra, com o curioso perfil de tartaruga, onde foi embutida uma outra pedra com os dizeres «É pequeno este jardim mas dá gosto olhá-lo é nosso dever estimá-lo». Sobre o poço, uma coluna encimada por semicírculo em pedra homenageia algum filho da terra. À nossa Esquerda, uma casa assolarada chama-nos a atenção. Questionamo-nos se, sendo a atual Vivenda Mendes, terá ou não sido o solar do Visconde de Degracias. Mas não existe brasão ou algo que a identifique. Ficamos com a dúvida.
Sigamos... pela Rua Galega acima, muitos são os muros de pedra seca ainda "vivos", ladeando as ruas e protegendo hortas bem cuidadas. Ao cimo da rua 1º de Maio encontramos um espaço triangular, calcetado, murado e, de noite, iluminado por três candeeiros, onde um moinho em miniatura, homenageia tantos outros que alimentaram gentes e que outras gentes deixaram ruir por essa serra além. Um pouco à frente uma dolina retém a pouca água que por ali nasce.
Sorvendo a paisagem que, passando, vamos deixando atrás, chegamos a uma outra aldeia. Perguntamos a um casal, de idade acima de metade de um século, que segue para os campos, como se chama a povoação - Quatro Lagoas, senhor, mas veja lá que nem uma por aqui há. - Terão havido?... os chafurdos e charcos, impermeabilizados com barro, eram comuns por aqui, porque era preciso "guardar" a pouca água que ia chovendo em terrenos demasiado permeáveis.
Passando lapiás floridos subimos à cumieira e, agora por um estradão em terra batida, seguimos rumo a um dos mais emblemáticos monumentos naturais desta serra: as Buracas do Casmilo. Chegados, detêmo-nos e apreciamos a obra da natureza gozando a sua beleza. Impacientes, os meus companheiros, esperam resignados. Vamos lá!... não ligo e fico um pouco mais.
Já Subimos para o Casmilo. À semelhança de outras, a aldeia parece desabitada. Migra-se diariamente para onde se possa ganhar o pão.
Ainda meditando na problemática da desertificação das aldeias serranas e nas parcas possibilidades de as manter vivas, eis que me apercebo da beleza de mais um daqueles caminhos que ligavam povoações e permitiam as trocas de haveres e favores entre gentes de boa vizinhança. É um estreito caminho. Daria para passar uma azêmola carregada com ceirões mas não seria suficientemente larga para carroças ou carros de bois.
Chegámos à Serra de Janeanes. O Moinho, ainda assinalado com placa indicando o caminho que lá nos levaria, é um espetro de um filme de terror. Vêem-se ao longe as tábuas que restam e os buracos das que, apodrecidas, foram caindo. Não seria dispendioso recuperar este "monumento" da cultura portuguesa e mantê-lo operacional. Turisticamente até poderia não ser rentável mas pedagógica e culturalmente sê-lo-ia com certeza. Não subimos. Também a rota assinala outra direção ainda que apareça nos folhetos como ponto de interesse. Se de "interesse" se trata, o meu era de que se contratasse um carpinteiro que o recuperasse mas não com madeira de pinho apodrecível. A Rua do Quelho mantém-se preservada e por ela descemos. Espanto!!! à minha esquerda um monte de escombros. Isto foi uma casa que andou em fotografias de revistas como sendo ecológica ou auto-sustentável, não me recordo bem. Olhando para ali constato que se era para ser ecológica o que vejo é tudo menos isso e se era para ser sustentável ... não se susteve. Pronto.
Não quero mais pensar nestas coisas de "Ecológico" ou "Sustentável" e olho as bonitas paisagens serranas para que se me sustentem o espírito.
Estamos a chegar a Fonte Coberta. Aldeia sui generis. Começamos por encontrar, num cantinho do mato, um painel de azulejo, escrito em português, francês e inglês que dizia que aquele era o local onde esteve a Capela de S.ª Inês - 1688. Então e porque não está?... Como era?... quem a construiu?... Não se vêem ruínas, pedras tarbalhadas ou qualquer outro indício de que ali existiu tal templo. Sigamos, Rua do Valsinho Abaixo. Pensava eu que era mesmo a Rua do Valsinho, mas quando cheguei ao entroncamento com a Rua Principal fiquei a saber que acabava de deixar a Rua da Capela Antiga ou antes, a Street Church Old, ou ainda a Rue da la Chapelle Ancienne. Abaixo, informa-nos outro panel de azulejo que entrámos na Rua do Caminho de Santiago ou Santiago's Road ou Chemin de Saint Jacques. Deduzimos que aqui as os nomes das ruas estão escritos em três línguas sobre portuguesíssimos paineis de azulejo. É ou não sui generis?...
No largo, a que foi dado o nome de "Largo Piere Maria Baldi" (apenas assim, numa língua só?...), ficamos a conhecer um pouquito mais da história desta aldeiazinha: em 1669, quando o príncipe Cosme de Médicis aqui passou, supostamente a caminho de Santiago, pediu ao ilustrador da sua viagem, o pintor e arquiteto toscano Piere Maria Baldi, que pintasse aquela tão bela paisagem. É uma reprodução daquele quadro que se imortaliza num outro painel de azulejos na praça onde acábamos de chegar.
Já saímos de Fonte Coberta com o agradecimento da nossa visita, mais uma vez escrito em painel de azulejo. Ainda pouco mais andámos quando nos aparece a indicação de "Ponte Filipina" à nossa direita. Vamos e tiramos os instantâneos que nos é possível. Já aqui estive num Inverno e nessa altura a água, que agora se queda e restringe a uma poça ludosa por baixo da ponte, quase galgava as margens. Ao rio, a que por "decência" foi dado o nome de Rio dos Mouros e que o povo rebatizou de Rio Pau ou Ribeira de Alcalamouque por nascer perto da localidade homónima, chamavam-lhe os romanos "Caralium Seco". Interessante.
Seguimos pelo caminho de Santiago. Diz-se que esta parte de "O Caminho" até Conimbriga segue a via romana que ligava Olisipo a Brácara Augusta. Não descortinamos sinais disso, mas se dizem...
Passamos por Conímbriga. Várias foram as visitas que já fizémos a este santuário da arqueologia em Portugal que apresenta sinais de um encontro de culturas, por isso não nos detemos. Quem não conhece deve reservar uma a duas horas para a visita, se possível guiada. Tiramos alguns instantâneos de fora para dentro e continuamos para Condeixa a Velha. «Conde deixa a velha» diriam as alcobiteiras de um lado. «Não, Conde deixa a Nova» diriam as do outro. O safado do conde é que não deixava nenhuma e ia usufruindo dos favores de ambas, diz a velha lenda que tenta explicar os topónimos: Condeixa-a-Velha e Condeixa-a-Nova. Depois das invasões bárbaras terá o povo de Conímbriga migrado para Condeixa, que só terá sida "a-Velha" quando "a-Nova" floresceu por volta do século XI ou XII mas seguramente só depois de Fernando Magno ter reconquistado Coimbra em 1064.
Distraídos a pensar nas aventuras e desventuras de um povo sofrido por guerras e disputas, eis-nos entrados na nova Condeixa. O Palácio dos Figueiredos domina a Praça dedicada a Artur Barreto a quem pertenceu este palácio e que o doou ao Hospital da Vila. Agora moram aqui os Paços do Concelho. Em frente está o primeiro monumento erigido no país em memória dos mortos da I Guerra Mundial.
Seguimos na direção da Igreja de Santa Cristina. A santa que foi atirada ao mar, pelo próprio pai, atada a uma mó mas a mó de pedra flutuou e a Cristina só morreu quando atravessada por muitas setas atiradas a mando de seu tio. Sobressai no exterior do templo o estilo neo-clássico saído da reconstrução no séc. XIX, depois de em 1811 ter sido pilhada e destruída pelas tropas de Massena. Está aberta, entremos. A capela mor, em estilo manuelino, tem retábulo de talha dourada renascentista. Há uma ambiência que convida à oração. Detemo-nos um pouco. Apreciamos ainda os baixos relevos de João de Ruão e João Machado e saímos em direção à Praça da República. Chegamos à porta do Palácio dos Sás. Diz-nos uma placa informativa que terá sido um dos maiores do país e também o mais castigado pela
barbárie dos soldados franceses que a encendiaram.
Uma ribeira (penso que é a Ribeira de Bruscos que iremos encontrar no Parque Verde), correndo entre edifícos, lembra o passado moageiro desta vila. Numa vala ou ribeira que atravessa a vila, entre a Quinta de São Tomé e Travaz, teriam existido quinze moinhos.
Subimos pela Av. Visconde de Alverca e estamos já no Parque Verde da Ribeira de Bruscos. Ao cimo encontra-se o PO.RO.S (Museu Portugal Romano em Sicó). Não chegámos a tempo de o visitar nem estaríamos em condições de higiene próprias para tal. Fica para melhor ocasião. Jornada findada e... não sabemos onde deixámos o carro para regressar a casa. Depois de mais 4 Kms andados correndo a vila, lá o encontrámos a menos de 100m onde terminámos a jornada. Haja Deus!...
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Igreja de S. Francisco, Pelourinho e Fontanário

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De cima da Ponte Românica

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Uma Av (???) para 'peregrinos a pé'

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Subindo a Av.

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As vistas de N.ª Sr.ª da Estrela

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Acabou a Av.

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A falha e a capela de N.ª Sr.ª da Estrela

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Olhando para trás uma última vez

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Dedaleiras num muro serrano

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Não resisto à beleza simples destas flores

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Um renovado caminho antigo

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Chegando a Casais de S. Jorge

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A copa do cerquinho

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Lagoa (dolina?...) à entrada de Degracias

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Igreja de São Sebastião de Degracias

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O jardim de Degracias

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O largo do Moinho

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Dolina à saída de Degracias

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Ponto de abastecimento de água

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As Alminhas junto ao carvalhal

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No carreiro por cima do lapiás

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O Satirião (anacamptis pyramidalis) existe por aqui em grande quantidade

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As Buracas do Casmilo

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De dentro das Buracas

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Em Casmilo

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Uma dolina quase seca.

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Outro antigo caminho ou será caminho antigo?

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Caminho calcetado pela natureza

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Serra de Janeanes

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Pela rua do quelho

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A 'casa' que foi exemplo de arquitectura suscentável não se susteve

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Paisagens serranas

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Será que fugiu?

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Pelas ruas de Fonte Coberta

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Olh'ó cabredo

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Uma ponte na desunião ibérica

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Nas ruínas de Conímbriga

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As ruínas vistas cá de fora

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A fonte de S. João onde se afixam os óbitos

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Em Condeixa-a-Nova

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Igreja de Santa Cristina

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Palácio dos Sás

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A Ribeira de Bruscos

3 comentários

  • Foto de f_Cordeiro

    f_Cordeiro 21/jun/2019

    Bem haja pela caminhada. Gostaria de poder contar mais com o seu contributo. Fez, de forma irrepreensível, uma descrição do caminho.. Terminei no dia 10/06 a chegada a Penela. Tenciono fazer o resto. Seria interessante acompanhar vos amigos caminhantes (desde que combinado antecipadamente). Saudações caminhantes

  • Foto de j.jesus

    j.jesus 21/jun/2019

    Olá, f_Cordeiro.
    Bem Haja pelo seu comentário. Normalmente fazêmos seguidas todas as etapas de um caminho mas a Rota da Sicó (GR26) por ser relativamente perto e porque tínhamos dois carros disponíveis optámos por fazer uma etapa por semana. Neste momento faltam-nos apenas duas etapas: Alvaiázere-Abiúl e Abiúl-Pombal. Provavelmente não iremos na próxima semana. Se continuar interessado em acompanhar-nos nestas últimas etapas pode enviar-me um email para joaquim.j.jesus@gmail.com. Bom fim de semana.

  • Foto de f_Cordeiro

    f_Cordeiro 21/jun/2019

    Correcto. Se souber os dias exactos em que farão o resto diga me. Só assim poderei saber se da para vos acompanhar. Bem haja mais uma vez. Bom fim de semana

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