Tempo em movimento  7 horas 14 minutos

Horas  8 horas 20 minutos

Coordenadas 5528

Uploaded 2 de Junho de 2019

Recorded Abril 2019

-
-
613 m
106 m
0
8,0
16
31,92 km

Visualizado 31 vezes, baixado 0 vezes

próximo a Pombal, Leiria (Portugal)

Começamos aqui, do lado de lá da linha. Seria, à época da minha infância e se me não atraiçoa a memória, uma zona baldia onde se viam rebanhos a pastar. Era Pombal, nessa época, uma vila linda e relativamente pequena, talvez espartilhada por vontades que à vontade de crescer tiravam vontade. São estas as vontades que o tempo, às gentes de boa vontade, um dia dará razão. Hoje cidade, mostra que as vontades de outrora tinham seiva e sangue a correr nas veias das gentes de coração forte.
O Arunca ficou para trás. São várias as pontes que ligam as margens. Em tempos das minhas lembranças, uma apenas por ali havia que ligava o Cardal ao Arnado servindo a Estrada Real: a Ponte de Dona Maria. Tinha (tem?), a ponte, uma placa que fazia-me, menino, sonhar com príncipes e princesas. Diz-me a memória que nessa placa de pedra se encontra lavrado algo do género: "Principiada no ano em que nasceu a princesa Dona Maria Tereza e finalizada no ano em que nasceu o príncipe Dom António". Sabendo agora quem foram, eram então para mim personagens de um Reino da Beira (acho que a placa dizia que eram príncipes da Beira). Teria decerto ido confirmar a existência desta placa não fora a pressa dos meus companheiros de caminho. Sonhava ainda com o Arunca, as cheias de invernos, os açudes e as lavadeiras, que nele branqueavam trouxas de roupa, quando um "vamos entrar no metro" me despertou para a realidade de um túnel que, passando por baixo da Linha do Norte, dava acesso direto ao Cardal.
Como que sonhando fico a olhar a igreja barroca de Nossa Senhora do Cardal. Fogem-me os companheiros apressados. Andando recordo as colunas salomónicas da Capela-Mor e o retábulo albo, em pedra de Ançã, de uma das capelas de que, supostamente, foi autor João de Ruão e que terá pertencido à Igreja de Santa Maria do Castelo. Correndo atrás dos 'fugitivos' ainda lembro o Castelo Templário, que Gualdim País fez construir e que, orgulhosamente, lá no alto, terá contribuído para o desenho atual da nação. Lembro também a praça do Marquês, cuja traça não deixa dúvidas quanto à autoria, com o celeiro de um lado, a prisão do outro e a igreja de S. Martinho ao fundo e a feira semanal que ali se realizava; a Capela de Santo Amaro e os pinhões do dia do Santo; o Bodo e a procissão que anualmente se repete,... a quem paciência teve para até aqui ter lido, digo: vale a pena vir de véspera e visitar, com tempo tudo e sobretudo a parte velha da cidade.
Chego junto dos meus companheiros, não pelo meu 'correr' mas porque pararam por não saber por onde seguir. "sempr'enfrente"!... a avenida é longa e só depois da Rotunda do Lavrador é que vamos deixar esta parte nova da cidade. Eis a Rotunda! Não me quedo espantado porque o fiz já na primeira vez que a vi. Parabenize-se o autor da conceção e realização. Fico a imaginar aquelas duas figuras imóveis ganhando vida, pela madrugada, amanhando, com amor mais que com a a enxada, aquele pedaço de terra, deixando-o tão mimoso quanto se apresenta.
Entramos agora num caminho que segue, apertado entre dois montes, em direcção à aldeia do Vale. Deixo o sonho para trás e entro numa nova realidade. Este carreiro por onde seguimos é uma delícia. Miríades de brancos salpicos mosqueiam as encostas de um e outro lado. São os cistus no auge da floração. Entre os sargaços brancos ponteiam os rosa-fuschia das roselhas. Aqui e ali aparecem manchas roxas de rosmaninho. Sonhamos jardins e logo a natureza nos oferece orquídeas selvagens, rosas albardeiras, jacintos, madresilva, rosmaninho, tomilho em flor... e uma mistura de odores entra pelas narinas e invadem a alma. É a madressilva, o rosmaninho, o tomilho e até o cheiro da terra ou da erva pisada que curam maleitas da cabeça. É assim, de cabeça tratada, que começamos a dar atenção a um outro pormenor deste jardim: a música. A música cantada por rouxinóis, tintelhões, verdelhões e pintassilgos. Silêncio!... Acaba de entrar o cuco também na orquestra. Som sem repetição... é pena.
Estamos a entrar na aldeia que do Vale se chama. Mas que vale?... este mesmo por onde até aqui caminhámos. «É o vale Meirel, senhor» responde o senhor António que sachava batatas na courela. Mourel será, soube-o depois.
Na aldeia do Vale, outrora com Escola Primária, além do senhor que sachava batatas, não vimos vivalma. A arquitetura tradicional em pedra calcária existe em algumas casas recuperadas (poucas) e nas ruínas que proliferam pelo caminho seguido. Tantas são que dão ideia do que não mais volta a ser esta aldeia. As alminhas mantêm-se por devoção de alguém, de idade por certo. A bomba da fonte, que ainda tirava água a última vez que por aqui passei, deixou de funcionar e apodrece aos bocados. O grão de bico, as batatas, e as hortaliças plantadas dizem que ainda por aqui há quem trabalhe, mas muitos pedacinhos de boa terra estão ao abandono.
Caminhamos agora num carvalhal antigo, sombreado e bonito, Depois, um estradão em terra batida leva-nos a Alcaria. Parece ter mais vida que o Vale. Distraídos, continuamos em frente quando deveríamos ter cortado à esquerda e seguir por um carreiro pouco trilhado, muito agradável, por baixo de carvalhos velhos. Atravessámos o estradão e, de novo por carreiro estreito e bem definido, caminhamos sobre lapiás floridos e embrenhamo-nos na brenha desta serra. O canto e chilreio dos pássaros deu lugar ao zumbido dos insetos. As abelhas aproveitam os cálices coloridos que campeiam na charneca. Vamos ter bom mel.
Chegámos cá acima e espraiamos o olhar, bebendo sôfregos a beleza da imensidão que daqui se avista. Alguém teve a "lembradura" de mandar aqui edificar uma estrutura avarandada e apergulada de colunas e barrotes nus. À frente, no chão acimentado, um relógio de sol. Está certo pela hora velha. Comemos a bucha do meio da manhã e seguimos caminho. Não fomos ao marco da Sicó porque o já conhecíamos.
Por estreitos carreiros, descemos a vertente norte, rumo a Ereiras. As "penas" à nossa esquerda são uma das maravilhas do Cársico. Sobre nós planam falconídeos localizando o almoço. Os "almoçados" são normalmente pequenos roedores, lagartixas, cobras ou algum coelhito mais afoito que se esqueceu da prudência. A brenha acabou e atravessamos agora a gandra. Aqui e além um pedacito de terra com aspeto de já ter sido cultivado. Estão a acabar aqueles que a necessidade obrigava a que tirassem da terra o sustento da família. Outrora estes terrenos foram povoados de rebanhos. Já não compensa, dizem.
Em Ereiras parece que já há mais ruínas que casas em pé. A capela foi caiada à pouco. Ainda aqui habita Deus porque as gentes, abandonadas pelos homens, não deixam que Deus se vá, ainda que pareça que Ele os quer abandonar também.
Saímos de Ereiras pisando velhos caminhos que a desnecessidade abandonou. Os muros conservam-se de pé com alguma dificuldade. Terrenos pobres com pedacitos de terra entre as rochas dos lapiás. Estes caminhos, outrora cheios de vida, têm agora apenas as marcas de parcos caminheiros que por aqui vão aparecendo.
Por entre muros e moroiços, testemunhos do infindo trabalho da despedra, chegamos a Pousadas Vedras. Esta é uma aldeia que foge à desertificação e apresenta sinais de atividade incomuns nestas terras serranas. Logo ali, na rua da Carreira, convida-nos "O Cantinho", em placa pendurada na cantaria tosca, encimada por pedra da serra: «FOI FEITO PARA TI ESTE CANTINHO / ENTRA BEBE SENTATE DESCANÇA / MESMO QUE NÃO TE FIQUE NO CAMINHO / AQUI HÁ ÁGUA PAZ BONANÇA». A casa adjacente mostra um jardim todo ele enfeitado com a pedra que a natureza cársica trabalhou por esta serra além. Original!...
Depois vem a casa de um benfiquista que, com pedrinhas forrou toda a casa e todos os muros que a rodeiam. Esta casa é um hino à dureza da serra e ao clube do coração do dono. O gosto de uma coisa e de outra?... uns sim outros não. Mas a vida é assim, respeitemo-nos e aceitemo-nos. O jardim está muito cuidado e bonito. Olhemos então para as flores e os trabalhados buxos e esqueçamos clubismos porque a beleza está em todo o lado.
Não sei se por clubismo ou não, mas aqui, um elemento do grupo ficou mal de um pé, de tal maneira que o deixámos junto à capela com esperança que uma "alma santa" da terra o levasse à Redinha de boleia. Nós continuamos aldeia dentro, apreciando campos cultivados e sinais de muita atividade por aqui. Soubémos que foi aqui criada e constituída uma confraria do "Bolo de Ferradura" típico destas bandas. Não tivémos oportunidade de provar porque não há onde se venda ao público na terra. Como gostaria eu de ter visto outras aldeias com a vitalidade desta.
Cá vamos, de novo, serra acima. Desvia-se o caminho assinalado para um sombreado e agradável carreiro em galeria vegetal. Este é novo mas não custa a crer que, em tempos, outros carreiros tenham existido por aqui, trilhados por pastores e gado, desciam a encosta zigezagueando para quebrar a dureza de subidas e descidas abruptas.
Descemos para o Vale do Poio Velho. Este será o primeiro de dois extraordinários canhões fluviocársicos que cortam a falha da Senhora da Estrela. Passaremos lá na próxima etapa. A profusão vegetativa contrasta com as encostas de rocha nua e esburacada. No ar guincham andorinhões. Fazem ninho nestas escarpas.
Chegámos ao fundo do vale e atacamos já a encosta oposta, subindo por outro carreiro entre carrascos, zambujos, moitas, tojo e silvas. O caminho, de pouco trilhado que é, começa a ser de difícil progressão. Chegámos à Cabeça da Corte. O topónimo indica que estamos no cimo e que aqui deverá ter existido uma corte (leia-se o ó aberto porque se se fecha deixa de significar curral para significar paço e o gado seria diferente). Em tempos idos guardavam-se e acoitavam-se rebanhos e manadas de modo cooperativo. A aldeia parece viva, ainda que não encontremos ninguém com quem dar "dois dedos de conversa".
Já descemos por um caminho rural, com marcas de bastante uso, rumo ao Vale do Poio Novo. Este é o segundo e mais espetacular canhão fluviocársico que desce para o vale de Anços. Provavelmente será mesmo o maior e mais espetacular do país. Sabemos que existem aqui grutas com vestígios visíveis de ocupação pré-histórica mas o caminho assinalado desvia-nos delas. É pena!
Seguimos pelo leito antigo e seco da ribeira. Lindíssimo este caminho. Deixámos de ver a espetacularidade das ravinas para apreciarmos, por baixo, a vegetação luxuriante e as pedras musgadas que dão uma frescura e beleza a esta parte do percurso.
Pensando em tudo o que temos deixado para trás dou comigo chegando à Arrancada. Chamar-se-á assim porquê?... especulemos: com o crescimento populacional as gentes da Redinha terá havido necessidade de ampliar a zona de cultivo. A parte baixa do vale do Anços seria cultivada desde a antiguidade, novas terras de qualidade só para o lado da Serra, precisamente onde nasce o rio. Naturalmente seria essa zona densamente arborizada. Para semear e plantar legumes e leguminosas teria sido necessário proceder ao "arranque" das árvores, ficando a zona a ser conhecida por Arrancada. Terá sido?... que interessa isso agora que já ouço o cantar da água dos Olhos d'Água.
Aqui nasce o Anços e «tudo o que há na Sicó vai pró Anços». Assim é. A água jorra das grutas na rocha em grande quantidade. Esta exsurgência, que será alimentada por cursos de água subterrâneos, possui uma excecional beleza. Ainda que transparente, a água apresenta um tom ligeiramente verde-azulado que suscita algumas dúvidas quanto à sua pureza. A permeabilidade dos solos cársicos permite que se infiltrem substãncias poluentes quer químicas quer orgânicas. Esta nascente é bonita para ser apreciada mas eu não tomaria banho na praia fluvial que existe um pouco abaixo.
Deixámos para trás o cantar da água e a beleza da nascente e caminhamos já pelo Vale do Anços. Nas margens deste rio ter-se-ão instalado os primitivos povoadores da Redinha. Vieram depois os Templários, que possuíam lagares, moinhos e azenhas. Nos forais antigos constam que só os frades tinham direito a construir e explorar moinhos, desde a nascente do Anços até à vila de Soure. Uma azenha, pouco convincente quanto à sua funcionalidade, ali está. Os patos nadam neste rio, aqui de águas calmas. Chegámos à Ponte Românica. Dela falarei quando iniciar a 2ª etapa desta grande Rota.
A Primeira etapa foi excelente. Aguardemos pelas próximas.
Thymus Zygis, Lavandula stoechas, Cistus monspeliensis, Cistus crispus e Lonicera periclymenum
Paeonia broteri (aqui chamam-lhe Cuca no resto do país é a Rosa-albardeira), Orchis italica.

Comentários

    You can or this trail