Horas  9 horas

Coordenadas 3836

Uploaded 12 de Outubro de 2018

Recorded Outubro 2018

-
-
147 m
-18 m
0
11
21
42,21 km

Visualizado 309 vezes, baixado 20 vezes

próximo a Redondela, Galicia (España)



A PURGA (física, emocional, ou outra que queiram escolher) PELA DOR é conhecida e utilizada em diferentes culturas. Resulta. E como resulta! Faz-nos sair do conhecido e testa-nos os limites. Por loucura, estupidez ou simples desafio pessoal arrisquei o Caminho Central Português em 7 etapas e sem treino ou preparação específica. Contando apenas com a experiência dos caminhos anteriores. 250km de terra batida, asfalto, paralelo, ervas, pó. Com frio e calor, com lesões pelo caminho, com 3 desistências em mente.


Fiz o Caminho sozinho e cruzei-me com peregrinos, bicigrinos, turigrinos e até girinos. Recuperei-me em fontes, em rios, em lagos. Até debaixo da ponte do rio Lima estive! Andei às 5h30 em bosques e florestas isolados e sombrios. Também ao sol, com 30°. Enfrentei medos e geri sub-etapa a sub-etapa, etapa a etapa. Aceitei elogios e incentivos. Ultrapassei insultos à minha missão e à minha necessidade de responder ao "E se?". Passei por pontes, igrejas, cafés, caminhos de cabras, galos, cavalos, nascer e pôr do sol. Encontrei companhia de viagem (obrigado André!) entre Labruja e Mós. De resto, sozinho. Focado nos pés, no edema, nas bolhas, nas botas que já me levaram 4 vezes a Santiago.


Com 6kg às costas a uma velocidade média de 4.5 a 5km/h já com paragens. Sem os luxos do costume, a mochila XPTO ficou em casa. Pedi a mochila do meu filho emprestada. A mais simples que pode existir. Sem símbolos de Santiago. Simples. Vi pessoas a peregrinar com mochilas, sem mochilas e até a chegar de táxi aos albergues. Questiono-me sobre os conceitos de peregrinação, pedestrianismo e turismo. Não me pareceu importante perder energia com isso.. Mantive o foco, o ritmo. Cozinhei, comi, lavei e sequei a roupa e segui. Até vi a preparação da receção a um novo pároco e uma desfolhada. Não sei ainda bem o impacto desta viagem. Só sei que cheguei. Está feito.


Agradeço às minhas botas que, até hoje, fizeram 800km até Santiago. Foi a sua última vez. Entram outras em ação. Que experiência! Terminada com a acústica e mantras únicos da Catedral e, a posteriori, com a alegria contagiante da Tuna de Direito da Universidade de Santiago. O Caminho de Santiago continua ainda a ser um Caminho de Humanidade.


Nota prévia:
PORTO a VALENÇA = "CAMINHO DE CABRAS" (Piso duro. Muito granito.)
VALENÇA a SANTIAGO = "ALCATIFA" (Piso muito mais regular. Os espanhóis estão a nivelá-lo tanto que qualquer dia vamos em passadeiras rolantes).



PORTO A SANTIAGO DE COMPOSTELA | 2018 | 7 ETAPAS | 250KM
Etapa 00. Sé do Porto à Igreja do Carvalhido (saída do centro da cidade)
Etapa 01. Porto - São Pedro de Rates
Etapa 02. São Pedro de Rates - Tamel
Etapa 03. Tamel - Ponte de Lima
Etapa 04. Ponte de Lima - Valença
Etapa 05. Valença - Redondela
Etapa 06. Redondela - Caldas de Reis
Etapa 07. Caldas de Reis - Santiago de Compostela


DADOS GPS
Distância: 43,13km
Hora de início: 05:33
Hora de chegada: 14:32
Tempo em andamento: 07:48
Tempo parado: 01:11
Média em andamento: 5.5 km/h
Média geral (com paragens): 4.8 km/h


NOTAS SOBRE A ETAPA
Só por estupidez completa é que fiz esta etapa. Com lesões no pé direito, realizar uma etapa de 43km, com a altimetria entre Cesantes e Arcade e entre Pontesampaio e Pontevedra, só mesmo para idiotas. Como um alemão me viria a chamar em Caldas de Reis. A verdade é que nos desafios descobrimos que somos sempre capazes de mais. E nem sempre com pioria do estado. Como descobri posteriormente, todas as lesões que trazia não pioraram. E consegui fazer esta etapa e a seguinte (45km). Milagres do frio dos rios, após cada etapa.

Portanto, nesta etapa, para a aguentar, só via 1 opção. Levantar-me cedo, aproveitar o frio da madrugada e tentar chegar a Pontevedra antes das 10h. Isto para conseguir realizar a pior altimetria do caminho, na parte espanhola: a subida entre Cesantes e Arcade e entre Pontesampaio e Pontevedra. A subida acumulada deste etapa é de 579m, enquanto que a da etapa de Ponte de Lima a Valença foram 709m. Para se ter a noção do tipo de caminho que estamos a realizar.

Consegui realizar a subetapa dentro do previsto, em muito melhor estado do que pensaria (a chegada a Caldas já não foi bem assim). Fiz a etapa até Pontevedra, pela "Variante Rio dos Gafos", que agora se chama "Circuito Complementar". É mais 1km do que o outro caminho, que vai por estrada. Podia ter simplificado. Não o fiz, pois a variante pela floresta é mais bonita e calma. Mas assustou um pouco, porque estava isolada! Ver o blogue em que escrevi sobre a Variante: Variante Rio dos Gafos - Agora chamada de "Circuito Complementar"

De Pontevedra a Caldas, a altimetria é relativamente mais "agradável", mas ainda assim são mais 24km. E estes custaram, porque encontrei zonas de floresta, mas também zonas mais urbanas (a chegar a Caldas) e dezenas e dezenas de turigrinos. A maioria, nem me cumprimentou. A maioria nem mochilas levava. Para minha surpresa, ainda um grupo entrou em "competição" comigo, para ver quem andava mais. Bom... ok! Camionetas de excursões, grupos enormes, barulho. Foi o que encontrei. Ainda tive oportunidade de ouvir um grupo de estrangeiros a sussurrar "Este é peregrino!". Neste momento, tenho alguma dificuldade em definir o que é "peregrino", "turista", "caminhante". Viajar em autonomia, como na "clássica" peregrinação Vs viajar sem bagagem e as empresas que me levem as coisas. Hum! Não deixa de ser o reflexo da sociedade. Fazer o "mesmo", mas com comodidade. "Cortar caminho" Vs "Fazer o percurso assinalado". Seja qual for a opção, ela espelha a forma como nos movemos no mundo.

View more external

Sinal de "Santiago". Local já conhecido, mas que nunca o fiz à noite. A saída de Redondela, à noite, não é das coisas mais simpáticas.
Atravessar a N-550. Cuidado!
CUIDADO!
Aproximamo-nos do início do Alto da Lapa. Nesta altura, cruzei-me com um carro que andava a distribuir pão. Hum...! Bem que apetecia um daqueles, àquela hora.
Ok! Entrar de noite, sozinho, nesta zona florestal... não foi fácil. Assusta! Já conhecia o caminho, sabia o que esperar, mas ainda assim, CUSTA! A lanterna era boa e dava visibilidade a uns largos metros. Está feito! Correu bem!
Noite. Sozinho. A 1h do nascer do sol. (ao menos não estava frio!)
A minha cara nas fotos é um misto de "frio + cansaço + dor" (e ainda estamos no "início da etapa", com cerca de 12km).
Vai passar a Capela de Santa Marta (aproveite para carimbar a credencial de peregrino). Uns metros à frente, terá a Variante. Desculpe! CIRCUITO COMPLEMENTAR!
Ora bem. Dos meus tracks GPS anteriores e depois de comparar os percursos: 1) o "normal", pela estrada e o 2) "variante rio dos Gafos", é fácil de resumir. A variante tem +1km! Mas agora deixou de ser VARIANTE e passou a ser CIRCUITO COMPLEMENTAR. A minha dúvida é: "Complementar a quê? É que ou faço o trajeto normal ou faço este. Não vou fazer os 2! CIRCUITO ALTERNATIVO ainda entendo. Pode ser que a palavra tenha as duas interpretações em galego. No entanto, este 1km a mais compensa, pois a zona é florestal, tranquila e segura (não tem carros). Mas é menos acessível pois tem zonas com piso irregular. Fiz esta variante por volta das 09:00. Não encontrei ninguém. Por um lado, é bom. Por outro lado, é mau. Porque a zona é tão isolada que, depois de ver tantos sinais a dizer "SE VIR ALGO ESTRANHO OU CRIMINOSO, LIGUE O 112"... fiquei apreensivo. Nesta zona, passei frio, pois estando junto ao rio Tomeza ou rio dos Gafos (a denominação muda consoante a região que o rio atravessa), a zona era muito húmida. https://gl.wikipedia.org/wiki/Río_dos_Gafos
Sobre esta variante, ler (e ver os vídeos) o que escrevi em 2017: https://varianteespiritual.wordpress.com/2017/05/01/03-rio-dos-gafos-variant/
https://varianteespiritual.wordpress.com/2017/05/01/03-rio-dos-gafos-variant/ Em 2017, "falhei" o final da variante. Entrei erradamente na N-550, por má leitura das setas (confusas). Desta vez, fiz o percurso correto até chegar quase ao albergue.
Rio dos Gafos - VARIANTE/ CIRCUITO COMPLEMENTAR (3)
No final da Variante do Rio dos Gafos, temos uns grafitis de gosto duvidoso. É uma parte do percurso feia, mas que nos indica que estamos a escassos metros do albergue de peregrinos de Pontevedra.
Em Pontevedra, temos já os problemas da falta de albergues. Quase sempre o albergue público está cheio. Neste caso, não. Cheguei às 9h50! Parti às 5h30. Mas a verdade é que começo a sub-etapa seguinte, que é chegar a CALDAS de REIS. Mesmo que o albergue esteja cheio, uns metros à frente, no caminho, temos o ALOXA (privado). Em 2016, fiquei neste albergue, por €10. É um albergue "simpático", mas que não sobressai (positiva ou negativamente). Desde o albergue de Redondela, até ao albergue de Pontevedra, pela variante Rio dos Gafos, temos 19,64km.
Entramos na zona de Xunqueira de Alba. Uns metros à frente, irá intersetar com o "caminho central" e com a "variante espiritual".
Uns metros à frente, irá encontrar o ponto onde poderá: 1) Virar à esquerda e fazer a Variante Espiritual ou 2) Virar à direita e continuar o Caminho Central Português. Fiz a variante espiritual em 2017. Podem vir com os argumentos que quiserem: essa variante foi criada para os "lobby" das empresas de transporte marítimo. O percurso tem zonas bonitas, mas na maior parte do caminho senti que os locais me olhavam com ar de estranheza. Entre outras coisas que não "encaixaram" ao longo do percurso. O percurso entre Armenteira e Vilanova de Arousa é o mais bonito.
Seguimos até à igreja de Alba, caminhando até à PO-225, onde temos de ter algum cuidado pois existe muito tráfego.
Caminhamos agora em direção a umas das zonas mais bonitas do percurso entre Pontevedra e Caldas de Reis. Basicamente é a zona florestal que antecede a localidade de Barros e o seu tão conhecido café "Pousada do Peregrino".
Travessia da linha férrea e chegada a Barro. A faltar 58km para Santiago. Pela primeira vez, encontrei Barro completamente cheio de peregrinos/ turistas.
Descemos agora (longa descida) até um entroncamento, com uma fábrica.
Nunca tinha visto tantos turistas como nesta etapa. Na verdade, eram dezenas deles. Com acompanhamento de guia e autocarros parados em zonas estratégicas. Não senti o "espírito" que senti noutras caminhadas. O de cumprimentar e ser cumprimentado. Trocar experiências do caminho. Senti saudades "desse tempo". Mas pronto... também ia com uma missão muito estranha, que era fazer Porto a Santiago em 7 dias. Não dá para muito.
Desde a minha primeira viagem a Santiago, é um clássico tirar foto nesta placa. "(R)UTA DO VIÑO".
Chegada a Caldas de Reis, após 43km, desde Redondela. Admito que esta etapa foi dura e custou. Mas... ainda faltam 45km até Santiago. E esta foi uma dura decisão, pois estive para desistir e ir de autocarro até Santiago. Estive também a equacionar ir só até Padrón (como é normal). Para piorar, um alemão com quem fiquei no albergue quase que me insultou por estar a fazer 2 etapas numa só. Eh pá... Eu sei! É de doidos. Mas se é algo que meti na cabeça que me trará benefícios... Bom. O planeado era deixar o albergue às 5h30. Mas deixei-me dormir até às 7h. Para descansar mais. Provavelmente, fez toda a diferença.

Comentários

    You can or this trail