Tempo em movimento  5 horas 48 minutos

Horas  7 horas 20 minutos

Coordenadas 3756

Uploaded 22 de Maio de 2018

Recorded Maio 2018

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991 m
274 m
0
5,3
11
21,08 km

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próximo a Ribolhos, Viseu (Portugal)

Saímos às 7:25h com um nevoeiro, tipo "borrenha", óptimo para caminhar, mau para apreciar a paisagem. Passamos junto à capela em Vila Franca e a seguir junto de um conjunto de espigueiros que, como outros encontrados no caminho, se encontram em rápido processo de destruição. Já se não seca o cereal em espigueiros e não há quem reconheça que a conservação do património tem valor turístico e cultural. Se este património memorial se não preserva ficaremos com certeza mais pobres do que custaria a sua manutenção.
Descemos até ao Rio Paiva, que atravessámos, junto à Praia Fluvial da Folgosa, pelas primeiras poldras do dia. Interessante a maneira encontrada para vencer o rio por quem não tem recursos nem engenheiros nem quem se lembrasse que no interior também há gente que precisa de atravessar rios. As segundas poldras, que encontramos pouco depois, permitem atravessar o Paivô cá por baixo. Lá em cima atravessa-se a grande velocidade por um moderno viaduto que ignora a paisagem cá em baixo e o quanto a descaracterizou. Em Fareja um cruzeiro com a figura de Cristo pintada sobre a pedra chama-nos a atenção mas não há quem nos informe de quando data, quem foi o autor ou mesmo o que o motivou. No entanto, satisfaz-nos que esteja semi preservado sob uma cobertura que assenta numa estrutura de quatro colunas de granito. Mais à frente a Capela de S. João, fechada e não há quem no-la abra. Espreitamos pelos postigos mas a obscuridade impede-nos a visão.
Um carreteeiro leva-nos até Baltar de Cima. A Capela de S. Tiago interroga-nos se foi o Caminho que motivou a veneração do Santo se foi a capela a ele dedicada que determinou a passagem do Caminho por aqui. Escusado será tentar vê-la por dentro ou sequer rezar recolhido no seu interior: permanece vedado o acesso. Dirige-se a prece na alma e avança-se por carreteiro agradável até Vila Pouca. A capela de S. Pelágio não nos suscitou a ilustração. Talvez por ser uma estrutura moderna. No entanto indica que a fé está viva por estes lados e a preocupação de dotar os fiéis de melhores condições para o culto leva a que se construa mais para dentro que para fora.
Subimos agora em direção à N2. Num parque aprazível à beira da estrada dois cafés. Escolhemos um para o primeiro cafézinho do dia e mais qualquer coisa que conforte o estômago semi vazio. Pedimos que nos carimbe a credencial e... espanto! não têm carimbo. Não sei se não têm mas acho que as autarquias têm que pensar que a promoção de um Caminho de Santiago também passa pela informação e o esclarecimento daqueles que podem vir a lucrar com esta promoção. Pareceu que desconfiavam que pudéssemos querer o carimbo para algo ilegal. Em Espanha anuncia-se à porta de todos os cafés "tenemos sello". É uma questão de mentalidade ou desinformação.
Subimos agora a serra de Montemuro. O carreteiro leva-nos aos lameiros junto do rio Vidoeiro que atravessamos pela Ponte Velha. Decerto romana como atesta a calçada que sobre ela passa. Antes ainda uma capela de S. Tiago. Esta deverá recordar antigas peregrinações que por aqui tinham passagem. Perguntamos a agricultor que encontramos no caminho mas dessas coisas nunca ouviu que lhe contassem.
Chegamos a Moura Morta. Segundo a lenda um grupo de rapazes matou a pobre moura que se dirigia a Mazes. Terá sido por ser moura ou outra razão motivou tal ato que acabou por alterar o topónimo?... uma bonita igreja, dedicada a Nossa Senhora da Apresentação, fechada sem que haja quem a abra, junto do cemitério; uma povoação com um bonito e ainda bem conservado núcleo de edificações rurais em granito e gente simples, tão simples que quando perguntámos a uma senhora, que passava, como se chamavam os habitantes de Moura Morta, nos respondeu «oh senhor, têm muitos nomes: uns são Tóinos, outras Marias, outros Zés...». Fomos a pensar que esta ingenuidade está para além dos muitos cursos de alfabetização que por este país dentro tiveram lugar ou de uma comunicação que não chega de modo inteligível ou não vence a interiorização. Bendita simplicidade que é autêntica e mais não necessita.
Continuamos Montemuro acima procurando um recanto aprazível e fresco, que o sol é forte, para campearmos e comer o parco almoço que levamos nas mochilas. Em vão. O queimado do último ano tira-nos a esperança. Resta-nos o colorido das flores que renascem das cinzas para nos acompanhar. Racionando a água, chegámos ao Mezio. No Cima da Aldeia encontramos um belo e antigo cruzeiro, a que chamam pelourinho, resguardado por uma cobertura suportada por uma estrutura de quatro colunas, tudo em granito velho. Talvez seja o Cruzeiro do senhor do Bom Fim. A seguir entramos nas sinuosas e apertadas ruas da aldeia. Um conjunto de casas rurais, algumas ainda habitadas, e alguns fontanários dão a esta aldeia um aspeto acolhedor.
Notem futuros peregrinos, aqui existe uma alternativa de alojamento, a Casa do Arco, que poderá ser bem melhor que aquela por que optámos.
O nosso destino era Bigorne pelo que, subindo pela rua central, viríamos a passar pela capela da Senhora das Antas. Com um jardim bem arranjado diante dela é uma capela muito bonita. Daí a pouco subimos por um carreiro serrano que nos levará a Bigorne. Junto à N2 uma vendedeira de cerejas. O aspeto dos frutos convenceu-nos. O sabor não era por aí além. Comendo cerejas chegámos ao restaurante A Giesta. A proprietária, com quem contatara, ficara de nos arranjar alojamento. Levou-nos a uma casa velha, desconfortável, com camas de duvidosa consistência e asseio, muito pó e nenhum conforto. O peregrino não busca condições ótimas mas, por amor de Deus, aquilo nem condições eram. Claro que o preço era "um donativo" mas... com a sugestão de que 10€ seria o mínimo. A minha alergia queixou-se de tal modo que dois dos elementos do grupo foram à procura de outras alternativas. Não sei como, conseguiram convencer um nativo mas emigrado filho da terra a dar-nos guarida na casa que andava a restaurar e que já oferecia condições excelentes de habitabilidade. Dormimos em dois dos três quartos da nova casa a estrear. Bem haja senhor A. por nos ter acolhido. Acabámos por jantar na Giesta e dormido bem essa noite.

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