Tempo em movimento  4 horas 59 minutos

Horas  5 horas 37 minutos

Coordenadas 4436

Uploaded 4 de Março de 2019

Recorded Fevereiro 2019

-
-
118 m
52 m
0
6,5
13
25,93 km

Visualizado 60 vezes, baixado 9 vezes

próximo a Quinta das Malhadas, Santarém (Portugal)

O Caminho do Tejo acompanha a Linha do Norte da CP até Santarém, passando mesmo por dentro ou junto a várias estações e apeadeiros. Torna-se, por isso, fácil programar uma peregrinação por jornadas com regresso diário a casa.
Foi o que fizemos.
Decidimos fazer o caminho em 5 jornadas:

Jornada 1. ESTAÇÃO do ORIENTE - ESTAÇÃO de VILA FRANCA de XIRA

Jornada 2. ESTAÇÃO de VILA FRANCA de XIRA - APEADEIRO de REGUENGO, VALE da PEDRA

Jornada 3. APEADEIRO de REGUENGO, VALE da PEDRA - ESTAÇÃO de SANTARÉM

Jornada 4. ESTAÇÃO de SANTARÉM - OLHOS DE ÁGUA do ALVIELA

Jornada 5. OLHOS DE ÁGUA do ALVIELA - FÁTIMA

Quis o sol levantar-se mais cedo hoje para nos ver partir mas quiseram as nuvens esconder a nossa vergonha pelo atraso de quase uma hora.
É então, nesta acinzentada manhã, que saímos do apeadeiro da Ponte do Reguengo para enfrentar os 3 quilómetros do rectilíneo e seco asfalto da N3-2 que nos hão de conduzir a Valada e à beira do Tejo, o Tejo que tão cedo abandonámos na jornada anterior .
O grande, decrépito e arruinado edifício da, há muito, falida Fábrica de Descascamento de Arroz, à nossa esquerda, chama-nos a atenção e trás-nos à ideia os arrozais da margem direita do Tejo que não mais se veem. O Arroz aqui descascado era "alimento" da via fluvial que um pouco além iremos encontrar.
O bairro dos pescadores é logo aqui, à direita. Não se vê vivalma. Sempre castigados pelas cheias do Tejo, aqui viviam (vivem?) quem da Vala Real tirava o seu sustento. Hoje dificilmente assim será. Gente vive mas já pouco pesca.
A Vala Real?... acho que foi por uns catraios da Azambuja, através da Net, que tive o primeiro contacto com esta via fluvial, num texto sentimentoso e documentado cujo nome seria "Era uma vez um pedacinho do Tejo" (busque-se que vale a pena). Já tinha esquecido! Este é o mal: O esquecimento. Pelo esquecimento vão-se perdendo "pedacinhos". Um dia sobrará pouco da nossa identidade. Voltemos à Vala Real. Lembrei-me dela ao passar-lhe por cima na velha ponte do Reguengo, hoje substituída por uma moderna e descaracterizada mas mais funcional ali ao lado. Quem olha este canal (a Real Vala da Azambuja) dificilmente acredita que foi navegado por "vapores" de até 35 toneladas que transportavam bens, sobretudo cereais, e pessoas 17 kms acima e abaixo. Esquecemo-nos... Foi obra do Marquês e, ainda que se destinasse fundamental "ao enxugo das terras", concessionou-a à Companhia dos Canais da Azambuja para que a administrasse. Hoje apenas uns insignificantes barquitos, de um ou outro pescador mais intrépido, se aventuram nas águas sujas e invadidas por jacintos de água. A linha da CP veio tirar-lhe a clientela. Sinais dos tempos. Menos românticos mas mais produtivos. Recordemos o ontem para percebermos bem o que hoje somos.
Sigamos rumo a Valada.
Três quilómetros andados e eis-nos à beira-Tejo. Diz quem estas coisas estuda que terão sido os romanos quem primeiro cultivou as úberes e extensas planícies valadenses. E reza a história que, após a conquista de Lisboa, D. Afonso Henriques decide doar as terras de Valada aos pobres de Lisboa. Rei que é rei percebe de política, pensemos nisso. Só que no reinado do seu bisneto vieram os nobres sem nobreza e apossaram-se daquilo que tinha sido dado aos pobres e que estes teriam valorizado. Que raio de mundo!...
Subimos, os degraus estreitos da escada íngreme que nos coloca sobre este alto e extenso dique.
Olhando o Tejo fácil é imaginar as barcaças fluviais romanas transportando, rio abaixo, vegetais frescos, vegetais secos, cereais e muitas ânforas com vinho para serem mercadas na romanizada Olisipo.
O dique é um monumento. Quem o terá construído?... os árabes?... Os romanos?... ou terão sido outros dos povos que por aqui estiveram?... Sabe-se que foi reparado (ou reconstruído) no reinado de D. Dinis e melhorado no de D. José. Sabe-se que é uma obra admirável que, em conjunto com as valas, protege gentes e terrenos. Sabe-se que só quando troveja nos lembramos de Santa Bárbara e só quando houver outra cheia alguém se vai lembrar de que precisa de manutenção. Às vezes sabemos tanto e lembramo-nos de tão pouco...
Com esta lengalenga que me vai visitando a mente quase esqueço que há mais para ver. Vamos lá, caminhamos sobre o dique, apreciemos o belo parque de merendas e a praia fluvial à beirinha Tejo; olhemos para a esquerda e... quase nos passava despercebida a igreja quinhentista (que de quinhentista pouco tem) de Nossa Senhora da Expectaçao ou do Ó. Confortável aqui por cima não desço para a visitar. Tenho o Tejo a inundar-me o olhar. Paramos na antiga fonte sobre o dique que está seca. Será que houve alguém tão avantajado que tanto deu à bomba que secou a fonte? ou será que foi mais uma coisinha que esquecemos?... Esquecido está também, ali em baixo, o "Património do Estado" que foi Escola e em que alguém se lembrou de colocar uma placa de gratidão para que não fosse esquecida quem tantos ensinou e que podem disso já se não lembrar.
Tanto mais haveria para recordar se não nos chamasse já a atenção a grande Ponte Rainha Dona Amélia. Destinada à passagem da ferrovia entre Ribatejo e Alentejo desde 1904, ano da sua inauguração, foi em 2001 convertida para o trânsito rodoviário. Na altura da sua construção era a mais longa da península Ibérica com oitocentos e poucos metros (perdoem a imprecisão mas não sei de cor, vou-me esquecendo... ). Sei que foi construída para substituir uma pouco segura ponte feita com materiais velhos de outra já desativada sobre a qual a Linha do Norte atravessava o Vouga (era do género "ter camisa nova feita com a velha do pai"). Em 1987 foi construída uma nova ponte ferroviária paralela a esta e o povo reclamou a utilização da velhinha para trânsito rodoviário e pedonal de um a outro lado do rio, encurtando para meia dúzia de quilómetros uma viagem de mais de cinco dezenas deles para chegar a Muge ou de Muge ao lado de cá.
Continuamos mais um pouco sobre o dique gozando as delícias visuais do Tejo cada vez mais longe. Entramos agora num estradão agrícola em terra batida e muitos são os kms que vamos andar entregues ao chilrear dos pássaros nas marachas, à lonjura da paisagem verde, aos alinhados vinhedos a perder de vista, à constante preocupação de vencer a monotonia, à lembrança de toiros e campinos que não mais param por estas terras (será que ainda existem?...), à saudade da azul água do tejo e do verde arenoso dos mouchões (de que não falámos por esquecimento ou por êxtase quando os admirámos lá atrás) e, porventura à inspiração das Tágides. Sabe-se lá...
Deu-nos a fome e procuramos onde sentar o traseiro, repousar um pouco e alongar os músculos. Aparece-nos uma casa abandonada no final do estradão quando a monotonia acabou. É já (ou finalmente) aqui. O quintal da casa onde alguém em tempos foi feliz foi agora o nosso poiso - que felicidade!
Saciados, descansados e alongados vamos abordar os últimos 5 Kms desta jornada. Coisa pouca.
Entramos no asfalto. E, logo ali, a preocupação da lembrança fez com que a JF de Marvila colocasse um "padrão" onde se recordam as alturas que as águas do Tejo atingiram nas cheias ao longo dos anos de que há ainda recordação.
Passamos por baixo da Ponte Salgueiro Maia e recordamos o Herói de Abril. A altura dos pilares fazem justiça à grandeza de caráter do valoroso militar. Passamos o aeródromo e entramos nas Ómnias. Ómnias significa hortas. Poer aqui se cultivaram as couves, os nabos, os grelos, o feijão e tudo mais que a urbe de Scallabis ou a medina de as-Shantariyn consumia.
Ficam as Ómnias para trás quando por baixo dos ferrocarris passamos. 250 metros depois abandonamos o "caminho" assinalado cortando à esquerda, em direção à Quinta da Bela Vista, porque a Ribeira é o nosso destino de hoje. Subimos encostas recortadas por canais de escorrimento e encaminhamento das águas pluviais destinadas a evitar derrocadas. Olhamos o Tejo e para além dele as lezírias que se estendem até Almeirim e até à Chamusca. De novo a linha azul; de novo os mouchões; de novo a ponte de D. Luís I, de novo as marachas… mas agora tudo visto cá de cima. Maravilhoso!...até a alma sorri.
Passamos o Alfange, depois por baixo da ponte que há muito nos atrai o olhar. Vêmo-la por baixo, o lado por onde ainda a não tínhamos visto. Apreciamos a estrutura metálica em gaiola, assente em pilares de cantaria (11 contamos nós) e lembramo-nos que foram muitos os arquitetos portugueses e franceses que realizaram o projeto da maior ponte da península (à altura da sua construção - último quartel do século XIX), a 3ª da Europa e a 6ª do mundo. Edgar Cardoso assinaria o projeto de alargamento nos anos cinquenta do século passado.
E pronto, entramos na Ribeira de Santarém. A igreja de Santa Iria à nossa frente recorda-nos que foi daqui que nasceu o nome atual da cidade - cidade de Santa Iria ou Irene e que está associado à lenda desta Santa. Diz-se que foi aqui defronte que apareceu o incorrupto corpo da Santa virgem nabantina, que pelo Nabão descera ao Tejo, sítio onde os Escalabitanos lhe construíram um túmulo de mármore. Este túmulo as areias do Tejo viriam a cobrir. Outro Santa porém o haveria de milagrosamente revelar quando ali se deslocou e ajoelhou para que o túmulo das areias surgisse: Rainha Santa lhe chamou o povo, Isabel de Aragão e depois de Portugal foi.
Continuamos pelas ruas da Ribeira ainda pensando na lenda quando, sem disso darmos conta, nos encontramos na praça de Palhais. Dois gatos brincam pertinho da Ponte do Alcourse. Tem mais que quinhentos anos esta ponte e era parte do Caminho Real que ligava Santarém a Coimbra passando por Tomar e Pombal. Muitas terão sido as azêmolas que a atravessaram. Procuro agora outro monumento. Lá está: O Chafariz de Palhais do séc XVIII em estilo tardo-barroco. Dessedentava quem ali passava pela estrada real Coimbrã ou ali aportava por uma das três estradas de campo que na praça de Palhais desembocavam. De uma das carrancas ainda brota água. O bebedouro das bestas está vazio, será que as atuais não têm necessidade de água?... nem para lavar a cara na ressaca?...
Pronto, chegámos! À nossa frente a bela estação da CP e final desta jornada. Bem hajas Virgem por nos permitires fazer tão bela viagem. Avé Maria...
Inicialmente gótica, como se poderia ver na sua abóbada de uma das capelas se a ovreja estivesse aberta, é reconstruída em 1668 sob estilo barroco. Sofreu grandes danos com o terramoto de 1755 tendo sido posteriormente recuperada

Comentários

    You can or this trail