Horas  7 horas 19 minutos

Coordenadas 3261

Uploaded 10 de Abril de 2018

Recorded Outubro 2017

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624 m
346 m
0
4,7
9,5
18,99 km

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próximo a Vidago, Vila Real (Portugal)

Na confeitaria Pão Quente da Raposeira tomamos um excelente pequeno almoço embora um pouco atrasado, porque uma cliente matutina entrou para comprar um bolo e não conseguia decidir qual levar, entre tanta escolha disponível. Dizia que por ela levava todos, mas não podia engordar mais... 😏
Resolvido o dilema, já na rua e com a nossa dose de cafeína a correr nas veias, seguimos o track gps e fomos subindo as ruas desertas, numa manhã de domingo adornada por um céu de conto de fadas.
A primeira "perda de ritmo" é logo ali, no largo do Olmo, onde a paz e o entorno com sabor ao séc. XVIII falam com o peregrino numa intimidade irresistível.
Lá está o belo solar dos Machados, com capela, onde fizeram serões personagens do romance Esqueleto, de Camilo, que também se passearam pela rua do Olmo, que parte ali do largo. Na nossa frente vemos a modesta e rústica Capela de S. Simão , erigida pelo povo em 1802 e que foi o primeiro local de culto de Vidago até 1942!

O ceú continuava fabuloso, e a minha progressão ia ficando lenta, tantas eram as fotos. O Caminho é essencialmente asfalto, mas rodeado de belas paisagens, o peregrino não se satura. Chegados ao Santuário da Senhora da Saúde (S. Pedro de Agostém), fizemos de um dos coretos a nossa sala de almoço, para saborear as deliciosas empanadas de frango e os folhados de maçã que vinham da Padaria de Vidago. Mais adiante, quando o caminho nos leva perto da Nacional, um pequeno desvio permite ir tomar um café ao Kimbo - e para quem não quiser carregar alimentação, este é um restaurante bem localizado, onde o peregrino passa na hora do almoço.

A entrada em chaves é feita por uma longa e fastidiosa rua em linha recta que parece não acabar. Até que por fim atingimos uma rotunda onde viramos à esquerda. Essa rotunda é o quilómetro zero da mítica EN.2, que temos acompanhado, aqui e ali, ao longo destas 10 etapas. Apesar do progresso, a rotunda deixa perceber um alinhamento de prédios que fazem parte da movimentada vida, ainda há um século atrás, do Bairro da Madalena, o núcleo que se destaca no lado nascente da cidade raiana. Chave para a entrada no nosso território, uma das mais importantes a norte, juntamente com Valença, a cidade conserva e tem investido na valorização do património. O peregrino, de pernas cansadas e com pouco tempo para visitas, não pode deixar de admirar o ambiente na rua Cândido dos Reis, que vamos seguir até desembocar na Ponte de Trajano, uma bela e sólida obra de engenharia, 140 metros de tabuleiro quase horizontal assente sobre 18 arcos e que se manteve prácticamente inalterada desde a sua construção em finais do séc. I, até finais do séc. XIX, altura em que recebeu algumas obras de beneficiação. A meio da ponte duas colunas de grande valor arqueológico atestam precisamente a história e origem da obra, importante para os romanos da Legião Sétima (sediada em León) que exploravam o trabalho de milhares de mineiros na região de trás-os-montes em busca de ouro e outros metais.

Atravessamos, enfeitiçados pela vista da baixa da cidade que vamos tendo. Ao passar entre os pilares de Trajano, olhamos para trás e ficamos encalhados, sem saber como prosseguir, incapazes de decidir qual das vistas é a mais bonita. Mas o peregrino é forte e experiente, e sabe que um bom banho é urgente, antes de ir provar os pastéis de Chaves.
Chegados ao "Quarto Marrocos" (marcado via booking , 25 euros o casal), o check-in foi um pouco demorado por dificuldades de comunicação com o proprietário, que mora numa zona de reduzida cobertura móvel. Mas valeu a pena.
É um edifício moderno, com bons quartos e amplas casa de banho partilhadas. Tudo muito limpo, sala e kitchenette muito amplas. Há tudo o necessário para confeccionar o pequeno almoço, mesmo tudo, e um mealheiro. É só conferir numa tabela de preços (muito em conta) o nosso consumo e deixar na caixa o pagamento.
Os pasteis de Chaves foram no Biquinho Doce, ali a 200 metros, ainda quentes, folhado estaladiço, suculentos.
Só não repetimos porque sabíamos o que nos esperava às 19:30, no jantar no Restaurante Pensão Flaviense, a última "Catedral" que visitamos na metade portuguesa deste Caminho. E, como festa de despedida dos trilhos Lusos, foi memorável.
As entradas, regionais, são saborosíssimas e perde-se-lhe a conta. Seguem-se os pratos, de uma esmerada confecção tradicional. Bem regado. Quando chegamos à sobremesa já os nossos ventres ganhavam em volume e curvatura o do bem nutrido frei Tuck.
Quando finalmente "tivemos autorização" para abandonar a mesa, fizémo-lo de uma forma verdadeiramente original: o preço da refeição é estipulado pelo cliente e a quantia deixada numa caixa.
A repetir. Sem ter que carregar uma mochila às oito da manhã do dia seguinte 😄
E antes de deitar, não percam. A Ponte de Trajano também merece ser vista depois de cair a noite.

O CPI

O Caminho Português do Interior é um dos trajectos utilizados pelos peregrinos Portugueses para chegar a Santiago de Compostela. Por ele seguiam os que partiam da zona Centro, em redor de Viseu, e, claro, todos aqueles que viviam no eixo Viseu > Chaves. Também de Coimbra alguns seguiam por esta via, quando queriam evitar o Caminho Central que seguia via Porto > Valença, ou pretendiam juntar-se a outros grupos que partiam do interior.
Os peregrinos da Via da Prata, que segue de Sevilha até Astorga, onde se junta ao grande Caminho Francês, na maior parte das vezes deixavam a via da Prata em Granja de Moreruela onde tomavam a Via Sanabresa; outros saiam antes, em Zamora, entravam em Portugal por Quintanilha e saiam por Vinhais, atingindo depois Verin. Em qualquer caso todos acabavam por se juntar e nomeadamente a partir de Ourense todos seguem o mesmo trajecto até ao Campo de Estrelas - os do Caminho Interior Português e os da Via da Prata.
Foi um dos mais bonitos dos muitos caminhos que já fiz até Santiago, sobretudo na metade portuguesa do percurso. O Outono é mesmo a altura ideal para o fazer, com os dias mais curtos, as temperaturas amenas, os céus calmos. E a paisagem é espectacular, começando logo com os marmeleiros carregados, salpicando de amarelo toda a paisagem em torno de Viseu, o colorido feérico das vinhas que nos acompanha desde Reconcos, próximo de Lamego, até Vila Real, ou a beleza dos castanheiros e carvalhos vestindo-se de tons outonais até Chaves. E a abundância não tem limites: comemos toneladas de marmelos, maçãs, nozes (muitas nozes!), castanhas, amoras (serôdias!), pêras, uvas, medronhos...
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Aqui ficam os links para os registos de cada uma das etapas:
Track Integral 457 km agregador das 21 etapas
Etapa 01 15.82 km Farminhão - Fontelo
Etapa 02 17.79 Km Fontelo - Almargem
Etapa 03 24.56 Km Almargem - Ribolhos
Etapa 04 23.90 Km Ribolhos - Aldeia do Codeçal
Etapa 05 21.02 Km Aldeia do Codeçal - Lamego
Etapa 06 21.06 Km Lamego - Santa Marta de Penaguião
Etapa 07 19.68 Km Santa Marta de Penaguião - Vila Real
Etapa 08 27.50 Km Vila Real - Parada de Aguiar
Etapa 09 23.76 Km Parada de Aguiar - Vidago
Etapa 10 18.99 Km Vidago - Chaves
Etapa 11 29.93 Km Chaves - Verín
Etapa 12 21.39 Km Verín - Viladerrei
Etapa 13 24.48 Km Viladerrei - Sandiás
Etapa 14 14.01 Km Sandiás - Allariz
Etapa 15 24.05 Km Allariz - Ourense
Etapa 16 23.98 Km Ourense - Cea
Etapa 17 21.40 Km Cea - Castro Dozón por Oseira
Etapa 18 25.38 Km Castro Dozón - Lalín - A Laxe
Etapa 19 18.04 Km A Laxe - Bandeira
Etapa 20 25.19 Km Bandeira - Pico Sacro - Lestedo
Etapa 21 14.21 Km Lestedo - Santiago de Compostela
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Mapa geral da Peregrinação:
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Pasteis de Chaves!
Vidago
Travessa Do Olival 14

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