Horas  9 horas 22 minutos

Coordenadas 1900

Uploaded 9 de Março de 2018

Recorded Setembro 2017

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592 m
118 m
0
5,3
11
21,06 km

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próximo a Lamego, Viseu (Portugal)

Património Mundial da Unesco. É uma das persistentes recordações que o peregrino leva deste Caminho: a etapa Lamego - Santa Marta de Penaguião. A progressiva aproximação a Peso da Régua, uma prazenteira descida por um anfiteatro que nos vai desvendando, a cada canto, o novo mundo em que vamos entrar. As vinhas começam a aparecer e, em tons azulados pela lonjura, o irrequieto contorno das acidentadas terras onde o suor e sangue de gerações criou infindáveis socalcos, que são o berço de uma das mais apreciadas bebidas do Mundo, o Porto.
"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."
Miguel Torga in "Diário XII"
E é de repente que nos encontramos frente a frente com o Douro e uma das mais encantadoras panorâmicas do percurso: as vistas ao longo da ponte pedonal.
Mas comecemos pelo princípio.

Tomamos o pequeno almoço incluído na nossa estadia na Residencial da Sé e avançamos para a medieva rua de Almacave, logo ali em frente. O traçado e a disposição dos velhos prédios, a reduzida largura da rua fazem-nos sentir os séculos de história desta artéria que levava da Sé ao Castelo, e também perto de uma necrópole árabe (macab – derivando daí o nome de Almacave). Mais acima passamos a Casa de S. José, que presta serviço de Albergue aos peregrinos, damos uma ultima olhada ao castelo, deste ponto priveligiado, e despedimo-nos de Lamego.
Começamos a descer o Vale do Varosa, um percurso em parte comum com outro Caminho de Santiago de boas recordações, o Caminho Torres.
Em Sande há direito a café, e depois vamos atravessar um dos troços bucólicos do dia: um velho caminho entre muros, estreito e revestido de grandes lages. Ao longe cada vez mais se vai insinuando o cenário de vinhedos do Douro.
Mais adiante tocamos por breves instantes na EN2 e logo nos desviamos para um caminho que desce rápidamente a uma esbelta ponte sobre o Varosa, construída para dar continuidade ao leito de uma via férrea Régua > Lamego onde o vapor das locomotivas nunca chegaria a esvoaçar.
Hoje os terrenos por onde descemos são propriedade da REN, pois está ali construida, logo ao lado da ponte, una central hidroeléctrica que recebe água por uma conduta que vem desde a barragem, um pouco mais a montante.
Atravessada a ponte estamos a seguir a "via férrea". Claro que este não era o original caminho de peregrinação, provavelmente seguiam pelo trajecto da actual estrada nacional, mas é uma boa solução para podermos caminhar em segurança.

Acabamos, no final, por desembocar numa rotunda, já rodeados de vinhas e à vista da "Castelinho". Estamos no Douro!
Mais uns passos e encontramos uma bela ponte metálica com pavimento de madeira, construída no século XIX. Como a nova ponte em pedra destinada a suportar a via férrea, nos anos 30, não chegou a funcionar para tal, foi convertida para o trânsito automóvel e a metálica desactivada em 49, devido ao avançado estado de degradação. Agora, desde 2012, serve com ponte pedonal e é dos melhores miradouros sobre a Régua e o rio.
Do outro lado, bem escondido numa estreita quelha, espera-nos um velho conhecido das nossas andanças: o Restaurante Magalhães, barato e com uma primorosa confecção de pratos regionais. O menu fica por seis euros, inclui sopa, prato, pão, bebida, sobremesa e café. Uma dobrada acompanhada de um bom tinto e rabanadas rústicas e... tivemos que ir para uma sombra aguardar que as pernas tivessem vontade de empreender a longa subida até Santa Marta - com 27º às 16:00, em finais de Setembro.

A subida é longa mas não nos custa, deliciados com o que vemos. Toda a encosta é Douro, é Património, é Porto. Única.
O café na EN2 em São Gonçalo estava fechado, não há mais cafés, descansamos um pouco numa sombra do jardim e seguimos, até que já à entrada de Santa Marta, paramos no "O Espanhol" para um Ice Tea bem fresco.
Depois foram uns passos até à Residencial Oásis que tínhamos reservado via Booking.com, foram 47.50 eur um quarto de casal com pequenos almoços incluídos.
O jantar foi em outra referência deste Caminho: o Boteco (waypoint incluído). Uma casa familiar. Entramos, a senhora Natália diz-nos o que nos pode arranjar para comermos e depois... estamos como em casa, na cavaqueira com o marido, o senhor Manuel, enquanto jantamos. No final tivemos direito a dois cálices de Porto, uma agradável surpresa para comemorarmos a nossa passagem por tão nobres terras.

O CPI

O Caminho Português do Interior é um dos trajectos utilizados pelos peregrinos Portugueses para chegar a Santiago de Compostela. Por ele seguiam os que partiam da zona Centro, em redor de Viseu, e, claro, todos aqueles que viviam no eixo Viseu > Chaves. Também de Coimbra alguns seguiam por esta via, quando queriam evitar o Caminho Central que seguia via Porto > Valença, ou pretendiam juntar-se a outros grupos que partiam do interior.
Os peregrinos da Via da Prata, que segue de Sevilha até Astorga, onde se junta ao grande Caminho Francês, na maior parte das vezes deixavam a via da Prata em Granja de Moreruela onde tomavam a Via Sanabresa; outros saiam antes, em Zamora, entravam em Portugal por Quintanilha e saiam por Vinhais, atingindo depois Verin. Em qualquer caso todos acabavam por se juntar e nomeadamente a partir de Ourense todos seguem o mesmo trajecto até ao Campo de Estrelas - os do Caminho Interior Português e os da Via da Prata.
Foi um dos mais bonitos dos muitos caminhos que já fiz até Santiago, sobretudo na metade portuguesa do percurso. O Outono é mesmo a altura ideal para o fazer, com os dias mais curtos, as temperaturas amenas, os céus calmos. E a paisagem é espectacular, começando logo com os marmeleiros carregados, salpicando de amarelo toda a paisagem em torno de Viseu, o colorido feérico das vinhas que nos acompanha desde Reconcos, próximo de Lamego, até Vila Real, ou a beleza dos castanheiros e carvalhos vestindo-se de tons outonais até Chaves. E a abundância não tem limites: comemos toneladas de marmelos, maçãs, nozes (muitas nozes!), castanhas, amoras (serôdias!), pêras, uvas, medronhos...
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Aqui ficam os links para os registos de cada uma das etapas:
Track Integral 457 km agregador das 21 etapas
Etapa 01 15.82 km Farminhão - Fontelo
Etapa 02 17.79 Km Fontelo - Almargem
Etapa 03 24.56 Km Almargem - Ribolhos
Etapa 04 23.90 Km Ribolhos - Aldeia do Codeçal
Etapa 05 21.02 Km Aldeia do Codeçal - Lamego
Etapa 06 21.06 Km Lamego - Santa Marta de Penaguião
Etapa 07 19.68 Km Santa Marta de Penaguião - Vila Real
Etapa 08 27.50 Km Vila Real - Parada de Aguiar
Etapa 09 23.76 Km Parada de Aguiar - Vidago
Etapa 10 18.99 Km Vidago - Chaves
Etapa 11 29.93 Km Chaves - Verín
Etapa 12 21.39 Km Verín - Viladerrei
Etapa 13 24.48 Km Viladerrei - Sandiás
Etapa 14 14.01 Km Sandiás - Allariz
Etapa 15 24.05 Km Allariz - Ourense
Etapa 16 23.98 Km Ourense - Cea
Etapa 17 21.40 Km Cea - Castro Dozón por Oseira
Etapa 18 25.38 Km Castro Dozón - Lalín - A Laxe
Etapa 19 18.04 Km A Laxe - Bandeira
Etapa 20 25.19 Km Bandeira - Pico Sacro - Lestedo
Etapa 21 14.21 Km Lestedo - Santiago de Compostela
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Mapa geral da Peregrinação:
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Santa Marta de Penaguião
Monumento comemorativo da 1a Travessia do Atlântico
Vistas da Região Duriense
Road
Rio Varosa
Residencial Solar da Se
Santa Marta de Penaguião

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