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202,82 km

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próximo a Camburi, Espírito Santo (Brazil)

O ser humano nasce com um poder fantástico, a capacidade de desbravar, romper barreiras e ir mais longe. Essa enorme vontade de conhecer, aliada a curiosidade e uma irracional negativa do medo, se não dizer até mesmo desprezo pelos riscos impulsionou a humanidade ao desconhecido.

Esse traço nos permeia e segue em nosso DNA desde antes da era dos descobrimentos com as grandes navegações de Carpine, Marco Pólo e Colombo, mais adiante ao espaço com a cadela Laika (ops, essa não era humana), o soviético Yuri Gagarin e Armstrong (Niel, não o Lance... rs). Ainda poderíamos citar os irmãos Villas Bôas, Jacques Cousteau ou João Garcia (escalou o Everest na unha) assim como tantos outros bravos.

Estamos longe de querer igualar nossos feitos aos deles, ainda mais vivendo na época da comunicação digital, GPS, aplicativos de celular, Google Earth e familiares com Thule no teto do carro... rs

Porém, parte da motivação é a mesma; conhecer e ir além, testar os limites físicos e psicológicos.

Acho que todos bikers tem o desejo de fazer um grande pedal, um pedal épico e desafiador, daqueles em que não se sabe ao certo a hora em que vai chegar e mesmo se ainda haverá luz do dia ou pernas para completá-lo.

Difícil acreditar que algo memorável possa nascer de um pensamento como esses, mas foi assim que o Renato Guberman começou a traçar uma rota pelo Google Earth, um misto inicial de percursos de treinos, com alguns pedais de passeio e relatos de amigos. O resto foi vindo, traçando pontos pelo mapa e buscando informações pela internet e com conhecidos. Ao todo, foram quase três meses junto da Bruna riscando um traçado e planejando.

Quando ele me apresentou o arquivo com o track pensei: Wowww, não da tempo de fazer em um dia. E essa altimetria insana? São mais de 4000 metros de acumulada e subiremos a quase 1000 metros do nível do mar. Não rola, TÔ FORA!



Ai, ai, com a lábia de todo sonhador ele foi me dobrando e enfim topei a empreitada. Um evento foi criado no Facebook e quando vimos outros amigos topando, ficamos mais animados ainda. Simbora brutalizar esse trem sem fingimento!

Uma ajustadinha no percurso aqui e ali, revisão na bike, aumentando um pouco o volume dos treinos umas duas semanas antes e nos dois dias anteriores muito liquido e carboidratos pra dentro.

Véspera do pedal, a ansiedade mata, acho que só peguei no sono por volta das duas da madruga, aconteceu o mesmo no Pedal Desafio dos Entas, difícil dormir com a excitação na cabeça.

Despertador toca 04:00 da matina, 09 de fevereiro de 2013, já tinha deixado toda tralha e a bike prontinha, só tomar café e ir me encontrar com o Renatinho e a Bruna Sanches em Jardim Camburi. Dos mais de 20 riders que confirmaram presença no desafio, somente nos três estávamos presentes. Não que os demais parceiros não tivessem condições ou disposição, pelo contrario, só casca grossa e caveiras foram convidados, tivemos esse cuidado. Acredito que o feriadão de Carnaval aliado aos compromissos familiares deram outro foco a galera. Quem treina muito sabe o tempo que é dedicado ao esporte e cada momento que temos para ficar com os entes queridos deve ser maximizado. Família em primeiro lugar, sempre! Eu mesmo precisei fazer alguns acordos com a patroa para estar presente... rs

Partida, 05:25 da matina tudo ok, e pronto pro pedal. Serjão, biker old school e mega gente boa, pai do Renato (ninguém é perfeito...rs) se despede de nos com um afável “bom pedal e boa sorte”, seguido de um sonoro “cêis são doido”. rs

Além do visual, o bom de iniciar de frente pro mar, é a certeza de estar em zero de altitude, assim, aferir esse fator fica muito mais fácil. Com as ruas calmas e tranqüilas o pedal fluiu muito bem passando pelo Centro de Vitória, Cariacica e entrada de Viana, onde o caldo de cana é de lei. Neste trecho destaque para um motorista numa Van que espontaneamente nos escoltou como um carro de apoio da Estação Pedro Nolasco até Alto Lage, depois descobri que era o pai do Tarcisio Machado, um ciclista amigo da turma.

A partir de Viana começa a estrada de terra, habitat das mountain bikes e então 53.8 km de subidas pelas serras Capixabas. Isso mesmo, você não leu errado. Foram cinquenta e três quilômetros e oitocentos e poucos metros subindo quase que ininterruptamente. Até esse momento totalizaríamos um ganho de altitude de 1.843m a uma inclinação “média” de quase 21%. A primeira ladeira com 5.6 km de extensão e 449 metros em relação ao nível do mar. A segunda nem sei se era uma ladeira, prefiro chamar aquilo de morro, com 9.53km de subidas com inclinação máxima chegando a 23%.



No começo das subidas eu disse: Vocês dois, me dêem algumas dicas pra subir melhor, ok? Renatinho me responde: Hoje você vai ter um intensivão... kkkkkkk E tinha razão, bota intensivão nisso! Uma verdadeira aula de mountain bike.


Soul SL900 29er e ao fundo as Serras Capixabas

Impressionante ver o Renatinho subir a maioria dos morros com a coroa do meio, girando leve e transitado facilmente entre eu e a Bruna. Faz parecer tão fácil escalar essas montanhas, mas também mostra o abismo que separa um atleta de ponta com biker mediano feito eu. Também fiquei de cara com a cadência constante e a eficiência da pedalada da Bruna, totalmente adaptada a este tipo de terreno e zerando uma subida após a outra, e mesmo não estando adaptada ao novo quadro da bike ela tira de letra esses desafios. Acho que nesse ritmo 2013 é dela!


Enfim a Cascata do Galo, chegamos ali após pedalar 62.2km e 06h57min34seg depois da partida. Pausa pro descanso, um Oasis, delicia a água geladinha, regenera os músculos e refresca o corpo que sofria com o calor, pena era a farofada e o carro com porta mala cheio de som tocando musicas de gosto duvidoso. Pra que som alto num lugar como aquele?

Após 95 km girando, atingimos a maior altitude em relação ao nível do mar, batemos em 997 metros, gastamos 09h42min32seg para atingir esse ponto. Daí constatei - “nunca subi tanto pedalando”. Tivemos que dar risada, pois era o que restava.

O visual é incrível e indescritível. Moramos num estado abençoado e com paisagens que poucos conhecem.

Dava pra ter feito tudo isso mais rápido, mas tivemos contra tempo com o pneu traseiro da minha bike, que não furou, mas também não pegava pressão ideal. As bombas que levamos não enchiam bem e pedalei com o pneu bem murcho, sensação de estar puxando um fusca. A suspensão Proshock One Air TSi 29er novamente me deixa na mão. Já desisti dela, fiz metade do pedal com ela travada, ombros e pulsos doem até agora. Em compensação a bike Soul Sl900 se comporta muito bem e não me deixa na mão, super confiável. Um abraço pro Sandro da Sempre Bike que me da uma moral.


Ao lado do marco da Rota Imperial, todo desgramado já... rs
Terminar a sucessiva sequência de morros não seria sinônimo de moleza, logo perceberíamos isso. De Domingos Martins para Santa Maria de Jetiba pedalamos mais 60 km, pegamos algumas subidas medianas e uns pedacinhos de asfalto. Em Algum lugar perto de Melgaço encontramos uma lanchonete arrumadinha, ao lado de uma mercearia típica da região. Ali comemos o que tinha, salgados. Optamos por bolinhos de Aipim mesmo, melhorzinho que tava tendo. Essa também foi nossa maior parada, descanso, hidratação, lubrificada na relação e banheiro descente, porém indiscreto. Essa parte eu abafo o caso... rsrs

De Santa Maria para Santa Teresa a estrada é um pouco monótona e com alguns veículos de passeio e caminhões transportando produtos agrícolas da região. Muita poeira fina e pouca sombra. Alguns buraquinhos chatos já começam a incomodar muito. O pedal já ia ficando pesado, nem tanto nas pernas, mas ombros, pulsos e lombar. Num posto de gasolina nos alimentamos novamente, hidratação e uma calibradinha na suspa e pneu traseiro novamente. É engraçada a reação das pessoas perguntando de onde estávamos vindo e para onde iríamos. Umas duas vezes ouvimos “mas vocês vão dormir por aqui, né?” rsrs

Chegar a Santa Teresa ainda com luz foi revigorante psicologicamente, porém algo tão bobo e simples incomodava muito, mas muito mesmo. As assaduras impediam a pedalada redonda, isso é algo importantíssimo a se levar em consideração, existem produtos baratos e bem efetivos para evitar esse incomodo. Isso afetou a mim e a Bruna. Em pedais longos, passarei a considerar um tubinho de hipoglós, assim como levo filtro solar. Pode ser engraçado falando e lendo, mas na hora é bem ruim. Lembrei das histórias dos grandes exércitos que caiam por não cuidar dos pés nas viagens. É bem chato ver o ritmo desabar por conta de uma bobagem dessa.

Ainda em Santa Teresa lembramos do colega Felício, e brincamos; “vamos passar na casa dele”, mas parece que tem ladeira até a casa e isso foi suficiente pra nos fazer mudar de idéia e continuar em frente... chega de morro!

Mas... Pedalar é preciso e após 13h31min35seg e aproximadamente 145 km de chão pedalado chegamos ao acesso que liga Santa Teresa para Santa Leopoldina, é uma estrada de chão batido. Já pedalei ali umas duas vezes e juro que na minha mente era uma descidona só. São as peças que o cansaço te prega. Lembro-me de ter comentado com o Renato e a Bruna que ali a luz do dia some rapidamente, pois a mata é fechada em volta da estrada e estaríamos praticamente entre as serras. Dito e feito, de repente a luz some a fomos obrigados a usar as lanternas, e pior, justamente quando a descida começou, nem aproveitamos o embalo, pois a estrada tinha muitas valas e buracos. Faltando alguns quilômetros para Santa Leopoldina uma alma caridosa de carro veio seguindo a gente e ajudando a iluminar a estrada. Ajuda muito bem vinda. Já em Santa Leopoldina um mini carnaval animava a cidade, nem demos bola, a vontade de concluir era grande e partimos num ritmo bem forte até Barra do Mangaraí, nem sei de onde tiramos força, acho que foi a vontade de comer o melhor Pão de Queijo do estado com um Caldo de Cana geladinho. Porémmmm, tava fechado. Então vamos ao Posto Ale, tava fechado também... rs

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2 comentários

  • Atila Tonon 19/mar/2018

    Caramba Edu, que legal, já sigo o o canal e caí aqui por acaso pesquisando uma rota para Mangaraí rsrs... pena não conseguir ler o final do relato.

    Parabéns !!!

  • Saulo Corbellari 30/jul/2018

    Que relato TOP!!!

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