Horas  6 horas 14 minutos

Coordenadas 4497

Uploaded 7 de Julho de 2014

Recorded Julho 2014

-
-
159 m
33 m
0
12
24
47,98 km

Visualizado 1288 vezes, baixado 14 vezes

próximo a Córrego da Andorinha, Pernambuco (Brazil)

Esta trilha começou faz tempo. É que lá atrás nosso grupo aprendeu uma dura lição ao subir para as Torres Gêmeas numa época de inverno: de 10 magrelas, 6 quebraram, com duas voltando na corda. Na época alguém cravou: “até Deore quebra!”. Andar na lama meu véio, tem risco de danificar seriamente o equipamento, pois o massapê do litoral vem, com bagaço de cana, do pneu para o quadro, daí para freios, passadores, corrente, catraca e aí já viu, né!? Desde então, sempre procuramos evitar trilhas na Zona da Mata pernambucana em períodos chuvosos, senão é ‘empurra-bike’. Assim, regiões ao redor de Carpina e Pombos passam a ser consideradas no inverno porque podemos ter mais êxito.

As vezes acontece uma ‘não conformidade’: a trilha ‘Desafio de Charles III- Engenho Umbu’ fica na costa, mas como o terreno é arenoso, mesmo com alguma chuva nós nos demos bem. Outra vem do fator meteorológico. Se de quarta em diante para de chover ou chove pouco, no domingo dá litoral.

Por conta da chuva na semana anterior desta trilha nós subimos a Serra das Russas (Pombos ...) e evoluímos muito bem, pois o terreno dos dois lados da crista assim permitiu. Ao final o Capitão já tinha combinado: “vamos prá Pombos” na próxima semana. Porém ...

Porém não choveu quarta, quinta, sexta, sábado e neste meio tempo eu comecei a aperrear o Capitão. E nós mudamos: Duas matas de São Lourenço, partindo da Arena. O plano do traçado procurou combinar a visita de duas grandes reservas de Mata Atlântica, passando pelo paredão da barragem do rio Glória do Goita. Ele contempla também pedalar por estradas ‘do tempo dos flamengos’. É que esta é uma região histórica: o vale do rio Capibaribe no local onde dois dos seus principais afluentes se encontram, o Tapacurá e o Glória, e via de acesso à Matriz da Luz e Santo Antão da Mata, as duas principais vilas do interior central no período colonial. Terra fértil do nosso antigo ouro branco.

Paramos os carros num posto logo depois da Arena. Saímos eu, Sérgio, Seu Edvan, Flávio e o Capitão Ailton. Bom, bastou botar os pneus no barro que o céu desceu, abriu as torneiras, aquela chuva ‘de cum força’, do pingo grosso. Foi inevitável o “vamos prá Pombos, Ailton!”. Muita lama, o tempo todo. Não foi pior porque os dias de estiagem garantiram uma camada mínima de rodagem, e de vez em quando estiava.

Passamos pelo Engenho Queira Deus, com sua chaminé ostentando o ícone característico e o açude. Um belo arco-iris duplo formou-se. Em seguida começamos a subida que atravessa a primeira mata, e a chuva pesada voltou. Descemos para o Engenho Tapacurá, local importante na derrota holandesa em Tabocas, conforme relato de um combatente de nome Broeck, em documento de 1651:

"Ao outro dia apareceu um português com uma bandeirola branca para pedir perdão, mas os indígenas logo o degolaram, sem lhe dar lugar a ser ouvido. Este mesmo dia o capitão Blaer teve ordem de sair com um bom troço em procura do inimigo, que se havia retirado para Tapicuna (Tapacurá), mas, por estarem crescidas as aguas do rio, não pôde ir ter ao engenho.".
@ pg. 13-14, agosto de 1645:
"2 de Agosto. — O Sr. tenente-coronel chegou à casa do Covas (6) [Eng. Tapacurá], onde pernoitamos. Ao outro dia, 3 do corrente mês, pusemos fogo à casa e tendas, onde acampara o inimigo, e nos pusemos a caminho. Tendo avançado obra de três ou quatro léguas, acercamo-nos de um posto avançado do inimigo, que atirou contra os da nossa vanguarda, e se retirou para os seus, que eram da outra banda do rio. Os nossos vadearam também o rio, cujas aguas davam-lhes pela cintura, e saíram em uma pequena campina ao sopé de um monte [das Tabocas], assim coberto de tabocas ou canas cortantes, que não podiam ver o inimigo que ali estava em número grosso. Nada obstante, os nossos, que também eram numerosos, o foram buscar com muita coragem, do que se seguiram muitas mortes e ferimentos, assim de oficiais como de soldados. Os indígenas houveram-se otimamente, e brigaram com valor. Durou este combate desde as duas horas da tarde até que a noite veio separar os combatentes. Como a nossa pólvora estava quase de todo consumida, o chefe Hous retirou-se durante a noite para Tapicura, levando o maior número possível de feridos. Perdemos uns duzentos homens, uns mortos e outros feridos, entre os quais vários oficiais, como o capitão Andries Fallo, atravessado por uma bala, do que veio depois a morrer no Recife; o capitão Sicquema ferido em três partes, o tenente Hoyckesloot morto, o tenente Jacob Hemel morto, o tenente Schol ferido mortalmente (depois morreu), e mais outros.
Creio que o inimigo não recebeu também pequeno detrimento (7); pelo menos sei que perdeu duas pessoas principais: o capitão João Paes Cabral e Ignacio Mendes de Azevedo, e outros; e pois não tem muito de que gloriar-se. E se não fora a estreiteza do passo, que apenas permitia caminharem emparelhados dois homens, bem como o grande escarpamento do monte, e as tabocas cortantes que muito estorvaram os nossos, pois os mais dos nossos andavam descalços, as coisas houveram facilmente corrido de modo diverso.
4. — O Sr. tenente-coronel chegou à Tapicura, e daí seguiu para S. Lourenço, onde repousamos alguns dias, e nos provemos de pólvora, chumbo e morrões. Seguiu depois para o engenho Nassau, na Várzea, onde acampou.".

Cruzamos o rio Tapacurá por uma pinguela, sobra de uma antiga ponte. Daí prá frente o solo encharcado dificultou muito a progressão. Começaram as falhas nas magrelas. Meu cambio de vez em quando travava ao usar as marchas de maior torque. A ladeira para a barragem eu subi no empurra. Sérgio também já sofria. No paredão nós paramos para as fotos. O volume da represa não estava tão alto assim. Limpamos o barro como pudemos e seguimos.

Depois de uma longa subida chegamos no distrito de Guadalajara. Tomamos um caldo cana, comemos um Treloso (se a Vitarella soubesse a fama que tem com os pedaleiros...) e aproveitamos um lava-a-jato para o asseio geral. Esperanças renovadas.

A segunda etapa começou numa descida, para logo em seguida subir e, do alto, descobrir que o trajeto traçado cortava uma AP!, ou seja, se quiséssemos seguir, dali para frente iria ser no tato, ou melhor, no GPS boca-a-boca. Depois de alguma confabulação resolvemos continuar. Não demorou muito e Ailton quebrou a corrente. “Vamos prá Pombos, Ailton”. Tão arretado que estava que emendou-a trançada no quadro. “O que é um peido quando se está cagad...”, e seguimos penando por dentro de canaviais até chegar novamente no traçado, porém sem conseguir passar na segunda mata e seu açude.

Completamos a trilha atravessando São Lourenço da Mata e seguindo pela margem direita do Capibaribe, junto da tubulação da Compesa numa estrada que está ali desde o século XVI e viu passar muitos soldados estropiados, a caminho do engenho de D. Ana Pais, o Engenho Nassau, para serem derrotados mais uma vez, naquela que ficou conhecida como a Batalha da Casa Forte. Mas essa já é outra história.
Ponte sobre o Rio Capibaribe
  • Foto de EngQDeus
Chamine Eng Queira Deus
  • Foto de EngTapacur
  • Foto de EngTapacur
Engenho Tapacura
  • Foto de RioTapacur
Pinguela sobre o Rio Tapacurá
  • Foto de Bar Sergio
Bar do Sergio

Comentários

    You can or this trail