Tempo em movimento  2 horas 24 minutos

Horas  7 horas 33 minutos

Coordenadas 1377

Uploaded 19 de Julho de 2019

Recorded Julho 2019

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2.179 m
1.020 m
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2,0
4,0
7,95 km

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próximo a Calembe, Rio de Janeiro (Brazil)

Roteiro geoturístico e didático com foco na interpretação ambiental da trilha para os Castelos do Açu (PARNASO).

Tradicionalmente representa o primeiro dia da travessia Petrópolis-Teresópolis, mas pode ser feita separadamente com pernoite no abrigo/camping, ou até mesmo em um bate-volta, opção que torna a atividade bastante desgastante.

Referências Bibliográficas:
- LUCENA, W. M. História do Montanhismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUBLIT, 2008.

- PESSOA, F.A.; PACHECO, F.F.; PEIXOTO, M.N.O.; MANSUR, K.L. Caracterização da Geodiversidade da Travessia Petrópolis-Teresópolis (Parque Nacional da Serra dos Órgãos, RJ). XVIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, Fortaleza - Ceará, 2019.

- PESSOA, F.; ARAUJO, J.; SEOANE, J.C.; CAMBRA, M.F.; GIRALDO, S.; MARTINS, G.; MANSUR, K.; PEIXOTO, M.N. Geodiversidade e serviços ecossistêmicos em trilhas de montanha na Travessia Petrópolis-Teresópolis (Parque Nacional da Serra dos Órgãos, RJ). XII Simpósio Nacional de Geomorfologia, Crato - Ceará, 2018.
O acesso para a sede Petrópolis do PARNASO (Unidade de Conservação Federal de Proteção Integral criada em 1939) é realizado pelo bairro do Bonfim, inserido numa bacia hidrográfica de mesmo nome que possui grande importância na produção agrícola do município, além do seu valor histórico associado ao seu processo de ocupação. Daqui inicia-se a trilha para os Castelos do Açu, a qual possui cerca de 8km com ganho de elevação de quase 1300m (900m de altitude na portaria até cerca de 2200 m no Açu), e duração estimada entre 3 e 5 horas, o que a classifica com um nível de dificuldade elevado. A trilha possui uma expressiva geodiversidade (diferentes tipos de rochas, relevos e solos, inseridos na dinâmica das bacias hidrográficas), condicionando a existência de diferentes ecossistemas da Mata Atlântica. Ao longo da trilha é possível obter sinal de celular principalmente em áreas mais abertas (mirantes) e nos pontos mais elevados.
Manter-se à direita em direção ao Morro do Açu.
A parte inicial da trilha segue margeando o Rio Bonfim, onde observa-se a presença de blocos de rocha em seu leito, e seu aspecto encaixado que acompanha o relevo. Nesse trecho passamos por rios tributários que desaguam no Rio Bonfim e estamos inseridos no ecossistema da Floresta Montana - árvores com diferentes alturas e que podem atingir 30 a 40 metros, além do elevado índice de epifitismo (bromélias, por exemplo). Esse ambiente aguça a percepção de diversos sentidos como o olfato e a audição (cheiro da floresta e sons dos rios e da fauna). Manter-se à direita em direção ao Morro do Açu.
Um dos tributários que desaguam no Rio Bonfim.
Foram percorridos aproximadamente 2.6km no compartimento de relevo classificado como vale do Bonfim, com presença de solos rasos e pouco desenvolvidos e blocos transportados com origem nas encostas. Sobre o piso florestal é observado a presença de serrapilheira (matéria orgânica de superfície), fundamental para a disponibilização de nutrientes para as plantas. Assim, o solo destaca-se como importante interface entre o substrato rochoso e a vegetação. O próximo trecho da trilha apresenta um elevado desnível altimétrico, o que propicia uma diminuição do porte da vegetação e a presença de solos menos espessos, é a transição da Floresta Montana para a Alto-Montana. O relevo vai mudar do compartimento do Vale do Bonfim para o Planalto Dissecado. Os afloramentos rochosos começam a ficar mais presentes e o panorama observado na trilha começa a ficar maior, privilegiando abordagens na escala da paisagem. Manter-se à direita em direção ao Morro do Açu.
Mirante de onde se observa o vale do Bonfim e seu aspecto assimétrico (encosta de elevada declividade na margem direita do rio - com notável presença de fraturas - e declividade mais suave na margem esquerda), além de outras montanhas da cidade de Petrópolis. Dentre elas, destaca-se a Maria Comprida (topo arredondado de maior altitude a partir da perspectiva desse mirante), importante monólito que servia como ponto de orientação para os desbravadores que subiam a serra ainda no período colonial de nossa história.
Até então foram percorridos aproximadamente 3.3 Km. É possível observar mudança brusca da vegetação - a partir desse ponto torna-se predominante o ecossistema florestal Alto Montana, presente geralmente a partir dos 1500 m de altitude, sobre o Planalto Dissecado. Também conhecida como "matas nebulares", frequentemente encoberta por nuvens, a floresta pluvial Alto Montana possui porte arbóreo baixo, cerca de 5 a 10 metros, com árvores de troncos tortuosos e cobertos por camadas de musgos e epífitas. A Pedra do Queijo é um afloramento rochoso bem distinto em termos litológicos (Granito Andorinha), pois é um dos poucos locais onde este granito aflora com fácil acesso e visualização - o que ocorre novamente nos Castelos do Açu. Essa rocha foi formada há cerca de 480 milhões de anos e possui minerais bem desenvolvidos e perceptíveis visualmente, com destaque para a biotita (minerais pretos) em maior quantidade, além do quartzo e feldspato, que juntos caracterizam um granito.
Afloramento do Batólito Serra dos Órgãos (corpo rochoso de aproximadamente 560 milhões de anos) com presença de veios de quartzo, de aspecto leitoso, com foliação da rocha de orientação Nordeste-Sudoeste (NE-SO), seguindo a orientação predominante na região de toda a Serra dos Órgãos. Tais aspectos serão melhor visualizados e explicados em outros pontos de interesse ao longo da trilha.
Foram percorridos 5.0 Km. Afloramentos presentes da unidade denominada Batólito Serra dos Órgãos. Característica particular do ponto é o seu contexto hidrogeológico, devido a presença de uma fonte de água potável, associada a falhas e fraturas presentes nas rochas, que servem como caminho para o fluxo de água, que pode variar de acordo com os índices pluviométricos (quantidade de chuva). O próximo trecho da trilha, conhecido como Isabeloca, apresenta um elevado desnível altimétrico, o que propicia novamente uma diminuição do porte da vegetação e a presença de solos menos espessos, é a transição da Floresta Alto-Montana para os Campos de Altitude. O relevo vai mudar do compartimento do Planalto Dissecado para o Planalto do Açu.
Observa-se importante formação de solos (pedogênese) de coloração amarelada, devido a alteração da rocha de origem (intemperismo). Nesse caso, o principal agente intempérico é a água que modifica os minerais presentes na rocha e transporta os materiais que são desagregados (erosão). Porém, ainda há presença de estruturas da rocha original, principalmente foliação, que mesmo alterada ainda preserva sua orientação original - Nordeste-Sudoeste (NE-SO).
Foram percorridos 6.0 Km. Nesse ponto é alcançada a cota de 2.000 metros de altitude, sobre o Planalto do Açu, o que altera significativamente a paisagem. Essa cota altimétrica implica na alteração da vegetação - os campos de altitude, com presença de solos encharcados e acúmulo de matéria orgânica, passam a dominar a paisagem. Esse ecossistema, de aspecto herbáceo-arbustivo aberto e seco, desenvolve-se sobre os afloramentos rochosos e solos rasos, com elevado índice de endemismo (espécies que só ocorrem nessa área). Esse ponto da trilha marca o divisor entre as bacias hidrográficas do Piabanha (ao norte) e da Baía de Guanabara (ao sul), levantando um aspecto importante da hidrologia do Estado do Rio de Janeiro. A partir de agora passamos a caminhar por extensos trechos sobre os afloramentos rochosos, o que pode dificultar a orientação e requer um olhar mais atento. Essas rochas foram originadas em um ambiente de colisão de placas tectônicas que resultaram na formação do Paleocontinente Gondwana, o qual incluía a maior parte das zonas de terra firme que hoje constituem os continentes do Hemisfério Sul - neste caso, especificamente, um choque de placas litosféricas entre os continentes Sul-americano e Africano. Essas rochas são representadas por gnaisses do Complexo Rio Negro (~630 milhões de anos), gnaisses graníticos do Batólito da Serra dos Órgãos (~560 milhões de anos) e maciços graníticos pós-colisionais - Granito Andorinha (~480 milhões de anos). Durante a maior parte do percurso caminhamos sobre o Batólito da Serra dos Órgãos. O Granito Andorinha encontra-se nos topos (Castelos do Açu, por exemplo) evidenciando sua maior resistência aos processos intempéricos e erosivos. Já o Complexo Rio Negro encontra-se na forma de xenólitos, representados por “corpos estranhos” ou “enclaves” presentes no Batólito da Serra dos Órgãos e que podem ser observados como uma rocha mais rugosa, de matriz mais grosseira e coloração mais escura.
Este mirante encontra-se no compartimento do relevo (geomorfológico) denominado Planalto do Açu. Nele, é possível observar o caminho percorrido até então e o destaque do Vale do Bonfim.
Este mirante é o ponto de maior altitude (cerca de 2.232 m) da trilha. Nele, a paisagem é impressionante e o destaque pode ser dado para as formas de relevo que podem ser observadas para todos os lados até onde sua visão consegue alcançar. O relevo da Serra dos Órgãos foi formado há “apenas” cerca de 60 milhões de anos, a partir do soerguimento das rochas existentes, que se formaram em profundidade e foram trazidas à superfície da Terra para nossa apreciação. Destaca-se, então, o grande lapso de tempo desde a formação de seu embasamento cristalino (rochas) até o seu relevo atual (expresso na paisagem). Alteração e erosão destas rochas durante milhões de anos esculpiram o relevo, processo que perdura até os dias atuais. Sobre as paisagens predominantes na Serra dos Órgãos, elas são resultantes de uma combinação de intemperismo diferencial entre gnaisses (menos resistentes, comuns na base) e granitos (mais resistentes, comuns no topo), com forte incisão nos vales ao longo de falhas e fraturas subverticais. Como exemplos podemos citar diversas paisagens observadas: Castelos do Açu, Pedra do Sino e Dedo de Deus. Além disso, áreas com grande desnível altimétrico marcam a mudança do relevo dos planaltos em direção à Baixada da Guanabara, essas são as formações conhecidas como escarpas.
Foram percorridos 8.0 Km. Com altitude aproximada de 2200 m, a litologia do local é marcada pela presença do Granito Andorinha, representado por blocos que chegam a 10 metros de altura. O formato dos Castelos do Açu, importante patrimônio geomorfológico, é originado a partir da combinação entre atuação intempérica, litologia e estrutura, sendo perceptivelmente diferente do seu entorno. Essas rochas foram formadas em grande profundidade, com alta pressão e temperatura, há cerca de 480 milhões de anos. Quando trazidas à superfície da Terra, devido à diminuição brusca da pressão (descompressão adiabática) essas rochas se quebraram em blocos, formando Fraturas de Alívio, que são posteriormente retrabalhados por erosão eólica e pluvial.
O Abrigo Açu foi inaugurado em 2010 e conta com opções de pernoite em beliche ou bivaque, além das áreas de camping, com um limite de 100 pessoas no total. As vagas devem ser previamente agendadas no site do PARNASO ou na portaria do parque com a aquisição dos ingressos. Destaca-se o fato deste ponto estar localizado no divisor entre 3 sub-bacias hidrográficas (Piabanha, Guapimirim-Macacu, Roncador). Isso implica que esse local tem muita importância no aspecto hidrológico do Estado do Rio de Janeiro.

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