Tempo em movimento  2 horas 42 minutos

Horas  9 horas 6 minutos

Coordenadas 1392

Uploaded 4 de Julho de 2019

Recorded Julho 2019

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2.246 m
1.941 m
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1,9
3,9
7,72 km

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próximo a Barreira, Rio de Janeiro (Brazil)

Roteiro geoturístico e didático com foco na interpretação ambiental do trecho referente ao 2º dia da Travessia Petrópolis-Teresópolis: Abrigo Açu até o Abrigo 4 - Pedra do Sino.

Referências Bibliográficas:
- LUCENA, W. M. História do Montanhismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUBLIT, 2008.

- PESSOA, F.A.; PACHECO, F.F.; PEIXOTO, M.N.O.; MANSUR, K.L. Caracterização da Geodiversidade da Travessia Petrópolis-Teresópolis (Parque Nacional da Serra dos Órgãos, RJ). XVIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, Fortaleza - Ceará, 2019.

- PESSOA, F.; ARAUJO, J.; SEOANE, J.C.; CAMBRA, M.F.; GIRALDO, S.; MARTINS, G.; MANSUR, K.; PEIXOTO, M.N. Geodiversidade e serviços ecossistêmicos em trilhas de montanha na Travessia Petrópolis-Teresópolis (Parque Nacional da Serra dos Órgãos, RJ). XII Simpósio Nacional de Geomorfologia, Crato - Ceará, 2018.
A Travessia Petrópolis-Teresópolis possui expressiva importância para o montanhismo nacional, tendo sido conquistada em 1932 por membros do Centro Excursionista Brasileiro (CEB). Com contornos bem próximos do atual (existente a partir da década de 1940), essa excursão representou um grande desafio para a época. No segundo dia da Travessia estaremos imersos nesse contexto. Esse trecho é o mais exigente em termos de esforço físico, com cerca de 8 km de extensão e 700 metros de ganho de elevação, alternando subidas e descidas íngremes, com a presença de alguns trechos técnicos onde o uso de corda pode ser necessário. Além disso, sob neblina a orientação pode ser muito difícil, principalmente nos trechos onde a trilha é sobre os afloramentos rochosos. Sugere-se a contratação de um guia ou condutor de montanha. A Travessia entre o Abrigos Açu e o Abrigo 4 é feita basicamente nos compartimentos de relevo Planalto do Açu e Planalto do Sino, com a presença dos ecossistemas de campos de altitude e floresta Alto-Montana.
Após 1km de caminhada, chega-se ao Morro do Marco. Nesse trecho, percebe-se a presença de rochas com alto teor de ferro, visualizado em sua coloração mais avermelhada. As rochas da Travessia Petrópolis-Teresópolis foram originadas em um ambiente de colisão de placas tectônicas que resultaram na formação do Paleocontinente Gondwana, o qual incluía a maior parte das zonas de terra firme que hoje constituem os continentes do Hemisfério Sul - neste caso, especificamente, um choque de placas litosféricas entre os continentes Sul-americano e Africano. Essas rochas são representadas por gnaisses do Complexo Rio Negro (~630 milhões de anos), gnaisses graníticos do Batólito da Serra dos Órgãos (~560 milhões de anos) e maciços graníticos pós-colisionais - Granito Andorinha (~480 milhões de anos). Durante a maior parte da Travessia caminhamos sobre o Batólito da Serra dos Órgãos. O Granito Andorinha encontra-se nos topos (Castelos do Açu e Pedra do Sino, por exemplo) evidenciando sua maior resistência aos processos intempéricos e erosivos. Já o Complexo Rio Negro encontra-se na forma de xenólitos, representados por “corpos estranhos” ou “enclaves” presentes no Batólito da Serra dos Órgãos.
Ao chegar no Vale da Luva, já é possível perceber o padrão da caminhada, com alternância entre topos de montanha e fundos de vales suspensos. Enquanto nos topos são observados os campos de altitude, nos fundos de vale há a presença de uma vegetação mais densa e estratificada, devido a influência de maior umidade. Esses fundos de vale concentram fluxos hídricos muito próximos das áreas de nascentes e que são fundamentais na modelagem do relevo. Além desses aspectos, no Vale da Luva há a influência de um microclima (com temperaturas menores), comum nos outros vales existentes ao longo da Travessia.
Ao chegar no Morro da Luva, a paisagem torna-se impressionante, com destaque para as formas de relevo que podem ser observadas para todos os lados até onde sua visão consegue alcançar. O relevo da Serra dos Órgãos foi formado há “apenas” cerca de 60 milhões de anos, a partir do soerguimento das rochas existentes, que se formaram em profundidade e foram trazidas à superfície da Terra para nossa apreciação. Destaca-se, então, o grande lapso de tempo desde a formação de seu embasamento cristalino (rochas) até o seu relevo atual (expresso na paisagem). Alteração e erosão destas rochas durante milhões de anos esculpiram o relevo, processo que perdura até os dias atuais. Sobre as paisagens predominantes na Serra dos Órgãos, elas são resultantes de uma combinação de intemperismo diferencial entre gnaisses (menos resistentes, comuns na base) e granitos (mais resistentes, comuns no topo), com forte incisão nos vales ao longo de falhas e fraturas subverticais. Como exemplos podemos citar diversas paisagens observadas ao longo da Travessia: Castelos do Açu, Dedo de Deus, Pedra do Sino e Garrafão. Além disso, áreas com grande desnível altimétrico marcam a mudança do relevo dos planaltos em direção à Baixada da Guanabara, essas são as formações conhecidas como escarpas.
Na descida para a Cachoeirinha há a presença de diversos xenólitos. Esses enclaves são resquícios das rochas mais antigas - o Complexo Rio Negro - que foram arrastados durante o magmatismo que originou o Batólito (para se ter uma ideia desse evento, cabe destacar que o Batólito da Serra dos Órgãos representa um expressivo maciço com extensão de 165 km e largura média de 30km). Os xenólitos podem ser observados como uma rocha mais rugosa, de matriz mais grosseira e coloração mais escura. Na descida para a cachoeirinha, lascas de alívio de tensão também podem ser observadas, evidenciando a variação de pressão entre o ambiente em que essas rochas foram formadas e onde elas afloram atualmente.
O fluxo de água aqui presente ocorre sobre uma falha geológica, que representa uma zona preferencial para o fluxo hídrico.
3.5 km foram percorridos.
Vale suspenso com a presença de um rio para coleta de água. Já foi um importante ponto de acampamento antes da estruturação do parque com a construção dos abrigos.
Nesse local é possível observar um paredão de mais de 600 metros de altura - Pedra do Sino e Garrafão - e o contato entre dois tipos de rocha: uma mais resistente ao intemperismo e erosão - o granito (Andorinha); e outra menos resistente - o gnaisse (Batólito). O granito é uma rocha ígnea, enquanto o gnaisse é uma rocha metamórfica. Rochas ígneas são formadas a partir da solidificação do magma, sendo assim, rochas mais homogêneas, sem estruturas, enquanto as rochas metamórficas são originadas devido a alteração das condições de pressão e temperatura de rochas já existentes, originando estruturas como foliação/bandamento (alinhamento dos minerais), o que torna essas rochas menos homogêneas, pois agora há zonas de fraquezas nas mesmas. Essas zonas formadas pelo rearranjo dos minerais permite a entrada de água, aumentando o intemperismo e erosão. No paredão, vários xenólitos ficam evidentes - manchas escuras que podem ser observadas a partir de um olhar mais atento em direção ao paredão rochoso. Nessas imensas escarpas verticais de granito ocorre a maior concentração no país de vias de escalada em “grande parede / Big Wall”. A conquista da face sudoeste da Pedra do Sino - enorme paredão de 600 metros de altura e inclinação negativa - foi realizada em 1985, pela via Franco-Brasileira. Um ano depois foi conquistada a via Terra de Gigantes, ainda considerada a via de escalada mais difícil do Brasil (para se ter uma ideia, somente onze anos depois é que foi repetida pela primeira vez). Em média essa escalada é realizada em 5 dias!!!Se você der muita sorte, poderá ver algum escalador a realizando.
A Pedra do Sino é o ponto culminante da Serra dos Órgãos, com 2.275m de altitude. Sua conquista ocorreu em 1846 pelo botânico escocês George Gardner. Sobre o Granito Andorinha e no compartimento geomorfológico do Planalto do Sino, é possível observar as bacias hidrográficas da Baía de Guanabara (ao sul) e do Piabanha (ao norte) e todo um conjunto de montanhas de boa parte do Estado do Rio de Janeiro. Em direção à baía de Guanabara, fica evidente a escarpa serrana, representada pela escarpa de falha e pelos vales da escarpa de falha, áreas com impressionante desnível altimétrico. No geral, as maiores escarpas rochosas do Brasil, ou paredões, com mais de 45º de inclinação, têm altura de aproximadamente 700 metros e extensão de até 1.000 metros. A área de maior ocorrência fica na Serra dos Órgãos, panorama que pode ser visualizado em 360º a partir da Pedra do Sino. Recomenda-se o pôr do sol desse ponto e aguardar mais um pouco para ver o acender das luzes da Região Metropolitana do Rio de Janeiro - para isso, não esqueça da lanterna para garantir sua segurança na descida até o Abrigo 4.
Presença de rochas originadas a partir dos mesmos processos dos Castelos do Açu.
O segundo dia da Travessia termina no Abrigo 4, após cerca de 8km de caminhada. Esse abrigo foi inaugurado em 2001 e conta com opções de pernoite em beliche ou bivaque, além das áreas de camping, com um limite de 100 pessoas no total. As vagas devem ser previamente agendadas no site do PARNASO com a aquisição dos ingressos.

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